Vimos como a Igreja é um espinho na carne de Satanás,
causando-lhe grande desconforto e reduzindo sua liberdade de
movimentos. Estando no mundo, a Igreja não apenas recusa-se
a ajudar no seu desenvolvimento, mas persiste em pronunciar
o julgamento sobre ele. E se é verdade que a Igreja é
uma constante fonte de irritação para o mundo,
então, do mesmo modo, o mundo é uma fonte constante
de aflições para ela. E porque o mundo está
sempre em desenvolvimento, sua capacidade de afligir o povo
de Deus está sempre em expansão; de fato, a Igreja
tem de confrontar-se com uma força no mundo hoje, diferente
da encontrada em seus primórdios, quando os filhos de
Deus enfrentaram aberta perseguição na forma de
ataque físico exterior a eles mesmos (At 12; 2Co 11).
Eles estavam sempre confrontando-se com coisas materiais e tangíveis.
Hoje, o problema principal que encontram no mundo é mais
sutil; é uma força intangível por trás
das coisas materiais, que não é santa, mas espiritualmente
maligna. O impacto dessa força espiritual hoje é
ainda maior do que era naquela época. E não apenas
é maior; há um elemento presente agora que não
havia antes.
Em Apocalipse 9, lemos sobre um acontecimento que, para o autor
daquele livro, está no futuro: “E o quinto anjo
tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caiu
na terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. E
abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço,
como a fumaça de uma grande fornalha (...) E da fumaça
vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como
o poder que têm os escorpiões da terra. E foi-lhes
dito que não fizessem dano à erva da terra, nem
a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos
homens que não têm nas suas testas o sinal de Deus”
(vv. 1-4). Esta é uma linguagem figurativa, mas a estrela
caída do céu, obviamente, refere-se a Satanás,
e sabemos que o abismo sem fim é seu domínio –
seu armazém, podemos dizer. Apesar de esta figura aparecer
no final dos tempos, está marcada por uma especial liberação
de suas forças, e os homens encontrar-se-ão lutando
contra um poder espiritual contra o qual jamais tiveram de lutar
antes.
Certamente, isso está de acordo com a realidade de nossos
dias. Apesar de ser verdade que o pecado e a violência
serão cada vez maiores ao final desta era, está
evidente, na Palavra de Deus, que não será especificamente
contra tais coisas que a Igreja terá de lutar, mas muito
mais com o apelo espiritual nas coisas cotidianas. “E,
como aconteceu nos dias de Noé, assim será também
nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se
em casamento, até ao dia em que Noé entrou na
arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos. Como também
da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: Comiam, bebiam,
compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que
Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre,
e os consumiu a todos” (Lc 17.26-29). A questão
que Jesus levantou aqui não é que todas estas
coisas – comida, casamento, negócios, agricultura
e construção – foram características
marcantes dos dias de Ló e de Noé, mas que, nos
dias finais, tais coisas serão uma característica
especial. “Assim será no dia em que o Filho do
homem se há de manifestar” (v. 30) – eis
o ponto importante. Tais coisas não são, em si
mesmas, pecaminosas; são, simplesmente, coisas do mundo.
Você já tinha dado tanta atenção
à boa vida quanto nos dias de hoje? Comida e vestuário
estão se tornando as principais preocupações
dos filhos de Deus hoje. “O que comeremos? O que beberemos?
O que vestiremos?” Para muitos, esses assuntos são
os que dominam suas conversas. Há um poder que faz com
que você considere tais assuntos importantes; toda a sua
existência clama para que você preste atenção
a eles.
As Escrituras nos alertam para o fato de que “o reino
de Deus não é comida nem bebida, mas justiça”
(Rm 14.17), nos exortam a buscar primeiro o reino de Deus e
a Sua justiça e nos asseguram que todas essas coisas
nos serão acrescentadas (Mt 6.33). Exortam-nos, ainda,
a não andarmos ansiosos com questões de comida
e vestuário, pois, se Deus cuida das flores do campo
e dos pássaros do ar, muito mais não cuidará
de nós, que somos Sua propriedade? A julgar por nossa
ansiedade, poderia até parecer que eles recebem o cuidado
de Deus e nós não!
Aqui está uma questão que merece ênfase
especial. Esse estado de coisas é anormal. Essa excessiva
atenção ao comer e ao beber, quer seja nos extremos
da subsistência ou do luxo, que caracteriza tantos cristãos
em nossos dias, está muito longe de ser normal; é
sobrenatural. Não estamos tratando apenas de comer e
beber aqui; estamos lidando com demônios. Satanás
concebeu e agora controla a ordem do mundo, e está preparado
para usar o poder demoníaco sobre as coisas do mundo
a fim de nos atrair para o mundo. Os fatos atuais não
podem ser explicados fora desse contexto. Oh, se os filhos de
Deus pudessem acordar para tal fato! No passado, os santos de
Deus encontraram todo tipo de dificuldades; no entanto, mesmo
em meio às pressões, podiam olhar para o alto
e confiar em Deus. Todavia, nas pressões de hoje, estão
tão confusos e desnorteados que parecem incapazes de
confiar Nele. Oh, que percebamos a origem satânica de
toda essa pressão e confusão!
O mesmo é verdade quando o assunto é casamento.
Nunca tivemos tantos problemas nesta área quanto agora.
Há uma grande confusão, pois os jovens romperam
com velhas tradições, mas carecem da direção
de novos conceitos para substituir os antigos. Este fato não
pode ser considerado normal, mas é sobrenatural. Casar-se
e dar-se em casamento é algo totalmente sadio e normal
em qualquer época, mas, hoje, há um elemento neste
assunto que não é natural.
É assim, também, quanto a plantar e construir,
e quanto a comprar e vender. Todas estas coisas podem ser perfeitamente
legítimas e benéficas, mas o poder que hoje está
por trás delas pressiona os homens até que estes
fiquem desnorteados e percam o equilíbrio. A força
maligna que move o sistema do mundo tem precipitado uma condição
hoje em que podemos ver dois extremos: o primeiro é a
total incapacidade de vivermos somente com o que ganhamos, e
o outro, a incomum oportunidade de juntar riquezas. Por um lado,
muitos cristãos encontram-se em dificuldades financeiras
sem precedentes; por outro, muitos encontram oportunidades de
enriquecer, também sem precedentes. Ambas as condições
são anormais.
Entre em qualquer casa, nos dias de hoje, e escute qual é
a conversa. Você ouvirá comentários assim:
“Na semana passada eu comprei ‘isso e aquilo’,
naquele lugar ‘assim e assim’, e economizei muito”.
“Felizmente eu adquiri ‘tal coisa’ no ano
passado, senão, teria perdido muito dinheiro”.
“Se você quer vender, faça-o agora, enquanto
o mercado está bom”. Já percebeu como as
pessoas estão correndo de um lado para o outro, fazendo
negócios freneticamente? Médicos estão
estocando farinha; fabricantes de roupas estão vendendo
papel; homens e mulheres, que nunca lidaram com tais coisas,
estão sendo arrastados pela corrente da especulação(1).
Foram sugados pelo turbilhão do mercado, fazendo-os girar
loucamente. Você não percebe como esta situação
não é normal? Você não vê que
há um poder aqui que está escravizando os homens?
As pessoas não estão agindo de forma sã;
estão fora de si. Esta orgia de vender e comprar não
é apenas uma questão de ganhar ou perder um pouco
de dinheiro, mas trata-se de estarmos em contato com o sistema
satânico. Estamos vivendo no final dos tempos, uma época
em que um poder especial foi liberado e está dirigindo
os homens, quer estes queiram, quer não.
Então, o problema hoje não está tanto na
pecaminosidade, mas no mundanismo. Quem ousaria dizer-lhe que
você está agindo errado quando come e bebe? Quem
desaprovaria o casar-se ou dar-se em casamento? Quem questionaria
seu direito de comprar e vender? Tais coisas não são
erradas em si mesmas; errada é a força espiritual
que está por trás delas, a qual, por sua mediação,
faz uma pressão implacável sobre nós. Oh,
que despertemos para o fato de que, apesar de tais coisas serem
tão simples e comuns, estão sendo usadas por Satanás
para atrair os filhos de Deus para a grande rede de sua ordem
mundana.
“Olhai por vós, não aconteça que
os vossos corações se carreguem de glutonaria,
de embriaguez e dos cuidados da vida, e venha sobre vós
de improviso aquele dia” (Lc 21.34). Note o termo “vida”
nas palavras de Jesus. No Novo Testamento em grego, três
palavras são comumente usadas para vida: zoé,
vida espiritual; psiquê, vida psicológica, e bios,
vida biológica. Esta última é a palavra
aqui usada, aparecendo em sua forma adjetiva, biotikos, “da
vida”. O Senhor está nos alertando para que não
sejamos pressionados excessivamente pelos cuidados desta vida,
que pertencem ao dia presente, com as ansiedades concernentes
aos assuntos cotidianos da vida como comer e vestir-se, que
pertencem à nossa presente existência na terra.
Foi por causa de uma coisa simples que Adão e Eva caíram,
e será por causa de assuntos simples assim que alguns
cristãos poderão negligenciar o chamamento celestial
de Deus. A questão será sempre: onde o coração
está? Somos exortados a não deixar nosso coração
sobrecarregado ou oprimido com essas coisas, pois nós
mesmos estaremos perdendo. Ou seja, não é para
carregarmos um fardo referente a esses assuntos, pois é
pesado demais para o suportarmos. Devemos ter um verdadeiro
sentimento de desapego dos nossos bens, seja em casa ou no campo
(17.31).
Portanto, percebamos quem somos! Somos a Igreja, a luz do mundo
brilhando no meio das trevas. Como tal vivamos aqui.
Houve uma época em que a Igreja rejeitava os costumes
do mundo. Agora, ela não apenas faz uso deles; abusa
deles. É claro que precisamos usar o mundo, pois precisamos
dele; porém, que não o queiramos nem o desejemos.
Assim, Jesus continua: “Vigiai, pois, em todo o tempo,
orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas
coisas que hão de acontecer, e de estar em pé
diante do Filho do homem” (21.36). Iria Deus exortar-nos
a vigiar e orar, se não houvesse uma força espiritual
contra a qual devêssemos estar prevenidos? Não
ousamos considerar nosso destino como algo certo, mas devemos
estar constantemente em alerta para que, de fato, em espírito
estejamos desembaraçados dos elementos deste mundo. Há
coisas no mundo que são essenciais à nossa existência.
Preocupar-se com tais coisas é legítimo, mas sobrecarregar-se
por causa delas é ilegítimo e pode impedir-nos
de desfrutar do melhor de Deus para nós.
O livro de Apocalipse sugere que Satanás estabelecerá
seu reino do anticristo no mundo político (cap. 13),
no mundo religioso (cap. 17) e no mundo comercial (cap. 18).
Neste tripé de política, religião e comércio,
seu reino encontrará sua última expressão
violenta. Nos últimos dois capítulos, seu reino
aparece sob a figura da Babilônia, o instrumento especial
de Satanás. A Babilônia parece representar o cristianismo
corrompido – Roma, talvez, mas ainda maior e mais insidioso
que Roma – e é por causa de seu comércio
que ela será julgada. Todo o registro do capítulo
18 gira em torno de mercadores e mercadorias. Todos os que choram
a queda da grande cidade, dos reis até o menor dos marinheiros,
lamentam a idéia de que todo o seu florescente comércio
repentinamente cessou. Obviamente, não é a religião
nem a política, mas é o mercado que faz com que
o espírito de Babilônia floresça outra vez,
e isso é o que se lamenta em sua queda. Não queremos
estabelecer enfaticamente que o puro comércio é
errado, mas afirmamos, baseados na Palavra de Deus, que seu
início está relacionado a Satanás (Ez 28)
e seu fim está relacionado à Babilônia (Ap
18). E acrescentamos, baseados em dura experiência, que
o comércio é o campo em que, mais do que em qualquer
outro, “a corrupção que, pela concupiscência,
há no mundo” (2Pe 1.4) implacavelmente persegue
até mesmo o cristão com os mais elevados princípios,
o qual, longe da graça de Deus, facilmente será
seduzido para sua queda.
Estamos suscetíveis à Babilônia? Os mercadores
choraram, mas o céu clamou “Aleluia!” (19.1).
Estes são os únicos “aleluias” registrados
no Novo Testamento (vv. 1-6). Faremos eco a eles?
Entramos em um campo muito perigoso quando lidamos com o comércio.
Se, por força da necessidade, nos envolvermos em algum
negócio puro, e se o fizermos em temor e tremor, podemos
contar com a ajuda de Deus para escapar da rede do diabo. Mas
se formos muito confiantes, então, não há
esperança de escapar do egoísmo inescrupuloso
que tal negócio produz. Então, o problema que
nos confronta neste dias não está em como abster-nos
de comprar e vender, de comer e beber, de casar-nos e dar-nos
em casamento; o problema agora está em evitar o poder
por trás dessas coisas, pois ousamos não permitir
que aquele poder tenha vitória sobre nós.
Qual, então, é o segredo de manter nossas coisas
materiais na vontade de Deus? Certamente, é mantê-las
para Ele, ou seja, saber que não estamos acumulando riquezas
inúteis ou ajuntando grandes quantias no banco, mas depositando
riquezas em Sua conta. Você e eu devemos ser desejosos
de desfazer-nos de qualquer coisa a qualquer momento. Não
importa se eu tenho de deixar dois milhões ou apenas
dois reais. O que importa é se posso deixar qualquer
coisa sem qualquer pontada de remorso.
Não estou sugerindo, com isto, que devemos tentar dispor
de tudo; não é esta a questão. A questão
é que, como filhos de Deus, não devemos acumular
nada para nós mesmos. Quando guardo alguma coisa comigo,
é porque Deus assim falou ao meu coração;
se a deixo, é pela mesma razão. Mantenho a mim
mesmo dentro da vontade de Deus, e não há porque
temer quando Ele me pede para dar qualquer coisa. Nada mantenho
comigo por amar aquilo, mas tudo deixo, sem nenhum remorso,
quando o chamado vem para deixá-lo para trás.
É isso que significa ser desapegado, livre e separado
para Deus.
(1) Provavelmente, os exemplos sejam muito típicos da
época e do ambiente em que o autor vivia, mas o princípio
é, sem dúvida, aplicável aos nossos dias,
muito mais do que àquele tempo. Há hoje um grande
estímulo para que todos, desde as crianças, aprendam
a fazer negócios, poupança, aplicações,
investimentos – é este espírito a que Watchman
Nee se refere.
(Este texto é o capítulo 7 do livro Não
Ameis o Mundo, de Watchman Nee. © Editora dos Clássicos.
2003.)