"Tendo cuidado de que ... ninguém seja devasso ou profano como Esaú, que por uma simples refeição vendeu o seu direito de primogenitura (lit. "seus direitos de primogênito"). Porque bem sabeis que, querendo ele ainda herdar a bênção, foi rejeitado; porque não achou lugar de arrependimento, ainda que o buscou diligentemente com lágrimas" ( Hb.12.16,17).
Vamos considerar os seguintes pontos da história de Esaú: (1) Sendo o filho primogênito ele obteve os direitos da primogenitura quando nasceu e não precisou conquista-los ou compra-los; eram seus pela vontade de Deus, por nascimento; (2) Era sua obrigação conserva-los, mas ele os considerou de tão pequeno valor que logo os negociou, trocando-os pelo prazer passageiro do paladar. Não era uma questão de dificuldade em se obter alimento, pois ele havia chegado ao acampamento. O fato conforme Deus o registrou é que ele "desprezou" o seu direito de primogenitura; (3) Mais tarde, arrependido da sua estupidez, Esaú constatou ser impossível reverter seu próprio ato ou mudar a mente de seu pai (o arrependimento que Esaú buscou foi do seu pai e não o seu próprio-Tradutor), no sentido de assegurar a bênção mais rica que acompanhava a posse dos direitos da primogenitura.
Acreditamos que a apresentação de Esaú como uma advertência para o falso professo na fé (alguém que não está realmente em Cristo Jesus) ser algo impossível. Eis as razões: Esaú era filho legítimo de Isaque e não um bastardo ou estrangeiro. Ele obteve legalmente os direitos do primogênito e por isso não era um falso reclamente. Mesmo depois da perda desses direitos, seu pai o abençoou tão plenamente quanto possível, embora não pudesse restituir a ele a prioridade que ele mesmo havia jogado fora. Ele não perdeu aquilo que faria dele um possível tipo de alguém que no final perdeu sua vida ou sua filiação. Ele perdeu sim, sua dignidade superior e seus privilégios. Uma pessoa não regenerada ão preenche estas condições a despeito de quão razoável e permanente seja sua profissão do cristianismo. Estes não são filhos de Deus e não serão de forma alguma abençoados e sim reprovados, não possuindo, ou melhor, nunca tendo possuído a vida eterna, mas sendo "filhos da ira, como os demais". Os dois casos são inteiramente diferentes. O exemplo de Esaú se encaixa mais na nossa situação e por isso se aplica a nós. A Escritura diz: "Atentando diligentemente para que não haja algum impuro ou profano como Esaú, o qual por um prato de sopa vendeu o seu direito de primogenitura" (
Hb.12.16).
Mais a frente, num parágrafo ligado diretamente a esta advertência por uma partícula, encontramos a seguinte declaração: "Porque tendes chegado (vós que sois assim advertidos) ... à Igreja dos Primogênitos" (Hb.12.22,23). A advertência é então dada àqueles que possuem direitos semelhantes na família e esfera celestial. Só em relação a estes ela tem força. Advertir alguém do perigo de perder o que ele não tem é uma tolice e não nos atrevemos a atribuir tal coisa ao Espírito do Senhor.
Os crentes genuínos, nascidos de Deus e chamados para o Seu reino e glória preenchem os fatos no caso de Esaú. Tais pessoas são: verdadeiros filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; primogênitos de Sua família e possuem os direitos da primogenitura. Eles não precisam ganha-los, compra-los ou conquistá-los pois são seus em sua totalidade pela graça soberana do Senhor. Entretanto, eles precisam sim, valoriza-los e conserva-los e são advertidos quanto a essa possibilidade. Sua filiação não pode ser quebrada e sua vida eterna não pode ser perdida, pois não foi depositada ou guardada por eles e por isso não corre o risco de perda; ele está "oculta juntamente com Cristo em Deus" (Col.3.3). Se os cristãos sustentarem a idéia de que tudo, tudo está garantido (incluindo o reino), eles correrão o grande risco de permitir um descuido sutil de coração. Mas, se a retenção desses altos privilégios for condicionada ao nosso caminhar, a motivação para avançarmos até a perfeição será muito forte.
A perda dos direitos da primogenitura é mais indicada e enfatizada pela história de Ruben. Ele era o filho primogênito de Jacó e esta honra lhe pertencia; mas por se submeter aos desejos sensuais não naturais, ela lhe foi tirada: "Quantos aos filhos de Ruben, o primogênito de Israel, (pois ele era o primogênito; mas, porquanto profanara o leito de seu pai, deu-se a primogenitura aos filhos de José, filho de Israel, de sorte que a sua genealogia não é contada segundo o direito da primogenitura; pois Judá prevaleceu sobre seus irmãos, e dele proveio o príncipe; porém a primogenitura foi de José)" (
1Cron.5.1). O território foi dado aos filhos de José, o qual recebeu na pessoa de seus filhos a porção dobrada; a soberania coube à Tribo de Judá, na pessoa de Davi e de seus filhos, incluindo o Messias; e o sacerdócio foi dado a Levi. Isso estava na mente do escritor quando especificou em nossa passagem de Hebreus 12 o pecado de fornicação?
Ruben permaneceu na família e foi em parte abençoado, mas para mostrar que os direitos em questão uma vez perdidos não podem ser recuperados, somos lembrados que nos dias do Reino vindouro a situação provocada pelo mal comportamente de Ruben será mantida: o Rei virá da Casa de Judá, o sacerdócio em Israel será da família de Zadoque, o levita (Ez.48.11) e Efraim e Manassés receberão a porção dobrada. Estas coisas Ruben perdeu para sempre, embora tenha permanecido na casa de Israel e partilhado de uma porção comum e não de nível especial. Tudo isso pode ser visto comparando-se as declarações finais e proféticas de Jacó (Gn.49.1-4) e de Moisés (Dt.33.6). Jacó declarou que a dignidade do primogênito com sua posição de superioridade e poder pertencia a Ruben, todavia não seria dele nem nos últimos dias. Moisés garantiu vida para a tribo e nada mais: "Viva Ruben e não morra; e não sejam poucos os seus homens".
A transferência do direito da primogenitura também é mostrada em Crônicas: "De Hosa, dos filhos de Merári, foram filhos: Sinri, o chefe (ainda que não era o primogênito, contudo seu pai o constituiu chefe)" (1Cron.26.10). Isso ocorreu numa família levita e traz a lição a nós que somos chamados ao serviço celeste, tipificado pelo serviço no Tabernáculo.
O tema principal dessa passagem em Hebreus e na verdade em toda a Carta é resumido nas palavras: "Recebendo um reino" (12.28). O assunto em questão é esse e não a segurança da salvação da perdição eterna. A Carta pressupõe que este benefício tem sido assegurado desde o início pelos considerados "santos irmãos participantes da vocação celestial" (
3.1). Portanto, sendo essa chamada um privilégio pela graça de Deus em Cristo, não devemos "nos desviar dAquele que dos céus nos adverte", isto é, Aquele que nos adverte com histórias como a de Esaú e outros. Visto que no final haverá um "tremor", removamos todas as coisas abaláveis para que somente as inabaláveis permaneçam. Somos chamados para a glória do Soberano (Senhor) que terá início no Milênio e avançará para a eternidade. Devemos então, pela graça de Deus, servir de maneira aceitável ao Deus da graça, esforçando-nos por Ele e cumprindo toda a Sua vontade, não em vaidade carnal como se pouco importasse como vivemos e servimos, mas com "reverência e santo temor, porque o nosso Deus é fogo consumidor", como muitos do Seu povo têm descoberto.