“Ninguém
pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”
João 6.44
Como
Deus traz homens a Cristo? Os pregadores arminianos geralmente
dizem que Deus traz homens a Cristo por meio da pregação
do evangelho. É verdade; a pregação do
evangelho é o instrumento para trazer homens a Cristo,
mas precisa haver algo mais que isso. A quem Cristo dirigiu
essas palavras? Ora, às pessoas de Cafarnaum, onde
Ele pregava com freqüência, onde Ele proferiu,
com lamentação e tristeza, as maldições
da lei, bem como os convites do evangelho. Naquela cidade,
o Senhor Jesus havia realizado muitos sinais poderosos e diversos
milagres. Na verdade, Ele ministrou aos moradores de Cafarnaum
tantos ensinos e operou tantas confirmações
miraculosas, a ponto de declarar que, se Tiro e Sidom houvessem
sido abençoadas com tais privilégios, há
muito teriam se arrependido em pano de saco e cinzas.
Ora, se a pregação do próprio Cristo
não foi proveitosa para tornar esses homens capazes
de vir a Ele mesmo, não é possível que
a pregação do evangelho fosse a única
coisa idealizada por Deus para trazer os homens a Jesus. Não,
queridos irmãos, vocês têm de observar
novamente: o Senhor Jesus não disse que o homem não
virá a Ele, se o ministro do evangelho não o
trouxer; e sim que se o Pai não o trouxer. Ora, existe
o ser trazido pelo evangelho e pelo pregador, sem ser trazido
por Deus. É claro que Jesus estava falando de ser trazido
por Deus, o Altíssimo: a primeira Pessoa da gloriosa
Trindade, enviando a terceira Pessoa, o Espírito Santo,
para induzir homens a virem a Ele, Jesus.
Alguém pode se levantar e dizer com escárnio:
“Então, você acha que Cristo traz os homens
a Ele mes- mo, vendo que os homens não têm disposição
para fazer isso?” Lembro- me de haver conhecido um homem
que disse: “Senhor, você pregou que Cristo apanha
os homens pelos seus cabelos e os traz a Si mesmo”.
Perguntei-lhe se podia lembrar o dia em que preguei um sermão
contendo essa extraordinária doutrina. Se ele pudesse
lembrar, eu ficaria grato. Mas aquele homem não pôde
lembrar tal dia. Eu lhe disse que, embora Cristo não
traga ninguém a Ele mesmo, puxando-o pelos cabelos,
creio que Ele traz pessoas por meio do coração,
fazendo-o de maneira quase tão poderosa quanto aquela
ilustração poderia sugerir.
Observem
que no trazer do Pai não há qualquer compulsão.
Cristo nunca obriga qualquer pessoa a vir a Ele contra a vontade
dela mesma. Se alguém não quer ser salvo, Cristo
não o salva contra a vontade dele mesmo. Então,
de que maneira o Espírito Santo traz o homem a Cristo?
Ora, Ele o faz tornando o homem disposto. É verdade
que o Espírito Santo não usa a “persuasão
moral”. Ele conhece um método mais fácil
de alcançar o coração do homem. O Espírito
Santo vai às fontes secretas do coração
e, sabendo exatamente como, por meio de uma realização
misteriosa, muda a direção da vontade humana,
de modo que, assim como Ralph Erskine o apresentou de modo
paradoxo, o homem é salvo “com pleno consentimento,
contra a sua própria vontade”; ou seja, ele é
salvo contra a sua velha vontade. Mas ele é salvo com
pleno consentimento, pois Deus o tornou disposto no dia do
seu poder.
Não
imaginem que qualquer pessoa irá ao céu esperneando
e gritando, em todo o caminho, contra a mão que o traz
a Cristo. Não imaginem que alguma pessoa será
mergulhada no banho do sangue de Cristo, enquanto se esforça
para fugir de seu Salvador. Oh! Não. É verdade
que, antes de tudo, o homem não tem disposição
de ser salvo. Quando o Espírito Santo coloca a sua
influência sobre o coração, o teste se
cumpre: “Leva-me após ti” (Ct 1.4). Seguimos,
enquanto Ele nos atrai, felizes por obedecer à voz
que antes desprezamos.
Mas
o âmago deste assunto se encontra na transformação
da vontade. Como isso acontece, ninguém sabe. Esse
é um daqueles mistérios que é percebido
de maneira mais evidente através dos fatos; contudo,
ninguém pode descrevê-lo, nenhum coração
pode imaginá-lo. A maneira aparente em que o Espírito
Santo age, nós podemos dizer-lhe. A primeira coisa
que Ele faz, quando vem ao coração de uma pessoa,
é esta: Ele a encontra nutrindo uma excelente opinião
a respeito de si mesma. Ora, o homem diz: “Eu não
quero vir a Cristo. Tenho uma justiça pessoal tão
boa, que qualquer pessoa pode desejá-la. Sinto que
eu posso chegar ao céu confiando em meus próprios
direitos”. O Espírito Santo desnuda tal coração,
fazendo-o ver o câncer repugnante que está devorando
sua vida; descobre à pessoa todas as trevas e corrupção
daquele recinto infernal, o coração humano;
assim, a pessoa fica horrorizada. “Nunca pensei que
eu fosse assim. Aqueles pecados que julgava insignificantes
se acumularam e atingiram uma proporção imensa.
Aquilo
que eu julgava ser um montículo cresceu e se tornou
uma montanha elevada; era apenas um ar busto, agora é
um cedro do Líbano. Oh!”, diz a pessoa a si mesma,
“tentarei reformar a minha vida; farei boas obras suficientes
para limpar completamente estas obras mortas”. Então,
o Espírito Santo lhe mostra que ela não pode
fazer isso e remove todo o poder e a capacidade ilusória
da pessoa, de modo que ela se prostra, em seus joelhos, clamando
em agonia: “Oh! Pensei que poderia salvar a mim mesmo
por meio de minhas boas obras, mas percebo que:
Se
minhas lágrimas jorrassem eternamente,
Se meu zelo não conhecesse nenhum limite,
Tudo que fizesse pelo pecado não o expiaria.
Tu, Senhor, e somente Tu, podes salvar-me”.
Depois
que o coração afunda, o homem está pronto
para entrar em desespero. E diz: “Nunca posso ser salvo.
Nada me pode salvar”. Neste momento, o Espírito
Santo se aproxima e mostra ao pecador a cruz de Cristo, outorgando-lhe
olhos ungidos com colírio celestial e declarando: “Olhe
para aquela cruz, o Homem que ali morreu salva pecadores.
Você sente que é um pecador; Ele morreu para
salvá-lo”. Assim, o Espírito Santo capacita
o coração a crer e a vir a Cristo. E, quando
o homem vem a Cristo, pelo amável trazer do Espírito,
encontra a “paz de Deus, que excede todo o entendimento”
e guarda sua mente e seu coração em Cristo Jesus
(Fp 4.7).
Agora
você percebe claramente que tudo isso pode ser feito
sem qualquer compulsão. O homem é trazido com
tanta voluntariedade como se não tivesse sido atraído.
Ele vem a Cristo com todo o seu consentimento, como se nenhuma
influência secreta houvesse agido em seu coração.
Mas essa influência tem de ser exercida, pois, do contrário,
nunca haveria (nem haverá) qualquer pessoa que poderia
ou desejaria vir ao Senhor Jesus Cristo.
(Extraído
da Revista "Fé para Hoje", Número
16.)