Ninguém deve se assustar pensando que
essa atitude é um fenômeno atual. Desde os primórdios
do Cristianismo, escritores pagãos como Celso e Amiano
Marcelino publicam material atacando as Escrituras e o Cristianismo.
A
ignorância dos articulistas, o preconceito anticristão,
a busca do sensacionalismo, tudo isso contribui para que a
publicação do manuscrito copta receba uma atenção
muito maior do que a devida. Não quero ser mal compreendido.
Como pesquisador e estudioso do Novo Testamento, estou sempre
aberto para descobertas arqueológicas e novas pesquisas
que nos tragam subsídios para melhor entender o mundo
do Novo Testamento e a sua mensagem. Creio que a publicação
do evangelho de Judas contribui para nossa compreensão
do Gnosticismo e da seita dos Cainitas, autora do documento.
Contudo, estou acostumado a assistir, anos
a fio, a exploração sensacionalista dessas descobertas.
Lembro-me bem da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e
das polêmicas e questões inclusive legais que
envolveram a tradução e a publicação
dos primeiros rolos. A imprensa da época especulava
que os Manuscritos representariam o fim do Cristianismo, pois
traria informações que contradiriam completamente
o Evangelho. Os anos se passaram e verificou-se a precipitação
da imprensa. Os rolos na verdade tiveram o efeito contrário,
confirmando a integridade e autenticidade do texto massorético
do Antigo Testamento.
Com o objetivo de esclarecer e trazer alguma
sobriedade na avaliação da publicação,
faço as seguintes observações sobre a
publicação do texto do manuscrito.
1. Não
se trata da descoberta do Evangelho de Judas. O mesmo já
é um velho conhecido da Igreja cristã. Elaborado
em meados do século II, provavelmente na língua
grega, era conhecido de Irineu, um dos pais apostólicos.
Na sua obra Contra as Heresias, Irineu o menciona explicitamente,
como sendo uma obra espúria produzida pelos gnósticos
da seita dos Cainitas. No século V o bispo Epifânio
critica o Evangelho de Judas por tornar o traidor em um feitor
de boas obras.
2. Não
se trata também da descoberta de um manuscrito antes
desconhecido contendo essa obra. Acredita-se que o único
manuscrito conhecido, escrito em copta, foi descoberto em
meados da década de 1950 e depois de uma longa peregrinação
nas mãos de colecionadores, bibliotecas, comerciantes
de antiguidades e peritos, chegou às mãos das
autoridades. Sua existência foi anunciada ao mundo em
2004. Trata-se de um códice com 25 páginas de
papiro, envoltas em couro, das 62 páginas do códice
original. Somente essas 25 páginas foram resgatadas
pelos especialistas. A tradução que vem a lume
agora é dessas páginas.
3. O que é
de fato novo é a tradução do texto desse
apócrifo, texto até então desconhecido.
Contudo, o ponto central que a mídia tem destacado
com sensacionalismo, já era conhecido mediante as citações
de Irineu e Epifânio, ou seja, que esse evangelho procura
reabilitar Judas da pecha de traidor, transformando-o em vítima
e herói. Na década de 80 saiu o romance "Eu,
Judas , de Taylor Caldwell, publicado pela Círculo
do Livro, onde essa versão revisada de Judas foi difundida.
4. Várias
matérias publicadas na mídia dizem que Judas
Iscariotes é o autor desse evangelho. Contudo, não
existe prova alguma disso. Segundo o relato dos quatro Evangelhos
canônicos, Judas suicidou-se após a traição.
Como
poderia ser o autor dessa obra? Irineu, no século II,
atribuía a autoria do evangelho de Judas aos Cainitas,
uma seita gnóstica. No códice descoberto e agora
publicado, não consta somente o evangelho atribuído
a Judas, mas duas obras a mais: a “Carta a Filipe”
atribuída ao apóstolo Pedro e “Revelação
de Jacó”, relacionado com o patriarca hebreu.
A presença do evangelho de Judas em meio a essas duas
obras apócrifas é mais uma prova da autoria
espúria desse evangelho. Chega a ser irritante o preconceito
da mídia, que sempre veicula matérias que negam
a autoria tradicional dos Evangelhos canônicos, mas
que rapidamente atribui a Judas Iscariotes a autoria desse
apócrifo.
5. Evangelhos
apócrifos e pseudepígrafos eram comuns nos primeiros
séculos da era cristã. O Evangelho de Judas
é mais um deles. Outros, mais conhecidos são
o Evangelho aos Hebreus, o Evangelho de Tiago, o Evangelho
de Maria Madalena, o Evangelho de Filipe, o Evangelho de Tomé,
entre outros. O texto desses apócrifos já é
conhecido de longa data. Judas, contudo, somente agora vem
à lume.
6. O manuscrito
que agora foi traduzido não data do século II,
mas do século IV. Especula-se que é uma tradução
para o copta de uma obra mais antiga escrita em grego, que
por sua vez dataria de meados do século II. Daí
a inferir a autoria de Judas Iscariotes, que morreu na primeira
parte do século I, vai uma grande distância.
A seita dos Cainitas, segundo Irineu em Contra as Heresias,
era especialista em reabilitar personagens bíblicas
malignas, como Caim, os sodomita e Judas. A produção
de um evangelho reabilitando o traidor se encaixa perfeitamente
no perfil da seita. Ao final, pesando todos os fatos e filtrando
o sensacionalismo e o preconceito anticristão, a publicação
do evangelho de Judas em nada contribuirá para nosso
conhecimento do Judas Iscariotes histórico, apenas
para nosso maior conhecimento das crenças gnósticas
do século II. Não representa qualquer questionamento
sério do relato dos Evangelhos canônicos, cuja
autoria e autenticidade são muito mais bem atestadas,
datam do século I e receberam reconhecimento e aceitação
universal pelos cristãos dos primeiros séculos.
O texto do evangelho de Judas se encontra disponível
no site da National Geographic Society, no link: http://www9.nationalgeographic
com/lostgospel/_pdf/GospelofJudas.pdf