A história do caminho para Emaús, que Lucas
nos conta com tanta simplicidade dramática, proporciona
um quadro ímpar do Cristo ressurrecto no coração
de sua igreja, sem paralelos em qualquer dos outros relatos
da ressurreição.
O Cristo dos quarenta dias aí representado, embora
seja o mesmo Cristo da Judéia e da Galiléia,
ascendeu agora a um novo plano, mais espiritual, mais misterioso
e sobrenatural. Ele estava elevando os pensamentos dos discípulos
para compreenderem a natureza da amizade divina que passariam
a ter com ele, sem perder em nada sua antiga benevolência
e ternura, já tão bem conhecidas. Procuraremos
aqui extrair desse relato alguns pontos que podem esclarecer
quem é este Cristo de hoje.
Aquele que encontrou os dois discípulos no caminho
para Emaús é o mesmo que nos acompanha hoje
em nossa caminhada na Terra. É uma Presença
permanente, um Amigo sempre presente, e sua voz suave se faz
ouvir de geração em geração: "E
eis que estou convosco todos os dias até à consumação
dos séculos" (Mt 28.20). Tudo tão simples
e tão natural quanto o cair da noite enquanto conversavam,
assim ele continua ao nosso lado, através de todos
os caminhos e veredas da vida.
Há um novo elemento em sua humanidade, pois passou
pela sepultura e ressurgiu transformada, transfigurada e glorificada.
Como disse o apóstolo Paulo, "ainda que também
tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já
o não conhecemos desse modo" (2 Co 5.16).
Quando Maria caiu a seus pés e tentou segurá-lo
no seu relacionamento antigo, Jesus ternamente a advertiu:
"Não me detenhas; ...subo para meu Pai e vosso
Pai" (Jo 20.17). Em breve ela teria um encontro mais
elevado e o conheceria em um novo plano de manifestação
espiritual e comunhão.
Os discípulos nem o reconheceram a princípio.
Quantas vezes ele está conosco sem que o percebamos,
e só quando sua presença já se afastou
é que nos lembramos de como ardia nosso coração
e bradamos com alegria: "Era o Senhor!". Quantas
provisões divinas, quantas respostas de oração,
quantos toques de compaixão humana o trazem para perto
de nós, pois é quando nos sentimos mais sozinhos
que ele está mais próximo.
O Cristo que conhece cada uma de nossas circunstâncias
e condições ajusta-se à nossa vida. Ele
entrou com a maior naturalidade na conversa dos discípulos
de Emaús. Notou que estavam tristes, tomou o fio da
conversa e transformou-a em uma maravilhosa mensagem de bênção.
Assim ele vem a nós, exatamente no lugar em que nos
encontramos. Não precisamos ascender a elevados pináculos
espirituais para trazer o Senhor Jesus até nós.
Não há circunstância alguma em que ele
não possa misturar-se e trazer seu amável companheirismo.
Ele nos fala através de sua Palavra: "E começando
por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes
o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27).
E hoje, da mesma forma, ele vem até nós pela
sua Palavra. Se conhecêssemos mais as Escrituras, se
as estudássemos com mais afinco, veríamos que
Cristo está sempre pronto a nos encontrar em suas páginas
e ouviríamos suas grandes e ricas promessas. "O
testemunho de Jesus é o espírito da profecia"
(Ap 19.10). Será que já aprendemos a reconhecer
sua face em cada página e sua voz em cada promessa?
Ele faz nossos corações arderem quando abre
para nós as páginas das Escrituras. Sua Palavra
não é meramente luz intelectual, mas vida espiritual
e fogo dos céus. Os olhos do nosso coração
precisam estar mais iluminados que as nossas faculdades de
compreensão. Pouco adianta ler a Bíblia como
uma mera tarefa ou estudo. Precisamos lê-la com o coração
em chamas e com amor ardoroso, como sua carta de amor para
nós e como o espelho de sua face.
Intimidade Ainda Maior
Mas o Senhor quer uma intimidade conosco ainda maior que
a revelação de sua Palavra. Ele anseia por revelar-se
ao coração amoroso por meio de uma visitação
e manifestação pessoal. Foi assim com os discípulos
quando, ao chegarem a Emaús, ele permitiu que o constrangessem
a entrar em sua casa.
Há um elemento de intensa humanidade e divertida
dramaticidade na declaração de que "fez
como quem ia para mais longe" (Lc 24.28). Esse gesto
foi somente porque queria ser pressionado. Jamais ficaria
como um hóspede indesejado. Queria uma demonstração
do seu amor insistente; que o constrangessem a ficar.
Ele jamais invadirá nossas vidas ou nos forçará
a abrir nossa porta. "Eis que estou à porta e
bato", ele clama. "Se alguém ouvir minha
voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei,
e ele comigo" (Ap 3.20). Por essa razão, ele às
vezes retém a resposta à nossa oração
e não nos revela sua face, a fim de que nosso desejo
aumente e nosso apelo chegue com mais insistência amorosa
ao seu coração.
Mas como ele sente alegria em responder quando percebe que
é bem-vindo!
Veja como foi comovente o convite dos discípulos
de Emaús: "Fica conosco, porque é tarde
e o dia já declina" (Lc 24.29). Como esse apelo
amoroso tem soado através dos séculos como o
clamor de corações saudosos e solitários
ansiando pela presença do Salvador! Quantas vezes desde
então essa oração subiu até ele
das almas solitárias, entristecidas, oprimidas e abatidas!
E nunca subiu em vão ao seu coração amoroso.
Tal como na natureza as correntes quentes da atmosfera fluem
com ímpeto para preencher o vácuo, assim também
o coração faminto e vazio sempre encontrará
por perto o Salvador. "Pois dessedentou a alma sequiosa
e fartou de bens a alma faminta" (Sl 107.9).
Em toda experiência cristã existe uma realidade
que corresponde à cena de Emaús. O Senhor Jesus
de fato vem e torna-se real para a alma amorosa e ansiosa.
"Se alguém me ama, guardará a minha palavra,
e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele
morada" (Jo 14.23).
Quando ele entrou naquela casa em Emaús, não
era mais o acanhado e disfarçado estranho, mas imediatamente
tomou seu lugar e deu-se a conhecer. Sentando-se à
cabeceira, tomou o pão, abençoou-o e o partiu.
E quando eles o tomaram, "...abriram-se-lhes então
os olhos, e o conheceram". O antigo sorriso de reconhecimento
não deixava dúvida. Era o seu abençoado
Senhor, seu precioso Cristo, e seus corações
se encheram de alegria, uma alegria tão profunda que
ele precisou retirar a visão e desaparecer de suas
vistas.