Quando
o Senhor encontrou Saulo de Tarso no caminho para Damasco,
Saulo fez duas perguntas ao Senhor: "Quem és tu,
Senhor?" e "Que farei, Senhor?" A primeira
pergunta expressa o desejo de um conhecimento pessoal daquele
que lhe apareceu. A segunda pergunta expressa disposição
de fazer a Sua vontade.
Essas
duas perguntas, que estavam tão intimamente ligadas
por ocasião da conversão do apóstolo
Paulo, permaneceram inseparavelmente associadas no restante
da sua vida sobre a terra. Assim deve ser na vida de cada
cristão. O primeiro passo da vida cristã deve
ser seguido por um relacionamento para toda a vida com Aquele
que revelou a Si mesmo para nós. A segunda pergunta:"Que
farei eu, Senhor?" praticamente resume toda a vida cristã
a partir do momento em que uma pessoa se converte ao Senhor.
O apóstolo descobriu que o segredo da paz e poder,
da satisfação e do serviço reside naquele
desejo de, ao longo de toda a vida, conhecer e fazer aquilo
que o Senhor Jesus iria lhe revelar.
Em primeiro
lugar, temos aqui o propósito divino. Aprouve ao Deus
de nossos pais tornar a Sua vontade conhecida a nós.
Este é o propósito divino para cada um de nós
- que conheçamos a Sua vontade. A vontade de Deus é
a primeira e também a última coisa em Sua revelação
para nós. Conhecer e fazer a vontade de Deus é
tudo. De acordo com o livro de Salmos, o Messias que haveria
de vir fez a seguinte declaração: "Eis
aqui estou, agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu."
Quando
Deus descreve o homem ideal, Ele usa as seguintes palavras:"homem
segundo o meu coração, que fará toda
a minha vontade." A primeira parte da oração-modelo
que o Senhor Jesus ensinou a todos os Seus discípulos
em todas as gerações está relacionada
com o propósito e glória divinos e tem como
ponto culminante a declaração: "Seja feita
a Tua vontade." Da mesma forma, em relação
à salvação da humanidade, está
escrito: "Assim, pois, não é da vontade
de vosso Pai que pereça um só destes pequeninos."
Deus deseja que todos os homens cheguem ao conhecimento pleno
da verdade. No que diz respeito à santificação
do crente, está escrito: "Pois essa é a
vontade de Deus: a vossa santificação."
E, com relação ao futuro, à nossa morada
celestial, lembramos imediatamente das palavras do Mestre:
"Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam
também comigo os que me deste...". Sendo assim,
em todas as coisas e de todos os pontos de vista, conhecer
a vontade de Deus é tudo. A vontade de Deus dá
alegria, dignidade, poder e glória para a vida. Como
somos encorajados, até mesmo na realização
daquelas tarefas que costumamos chamar comuns e triviais,
quando percebemos que todas as coisas em nossa vida diária
estão, de uma forma ou de outra, incluídas na
vontade de Deus!
Há
um hino intitulado "Seja feita a Tua vontade", que,
apesar de muito bonito, contém uma inverdade, pois
apresenta em seus versos um ensino inadequado a respeito da
vontade de Deus. Esse hino foi escrito por uma irmã,
cuja vida foi caracterizada pelo sofrimento, e nós
sabemos que, para esta irmã específica, era
da vontade de Deus que ela passasse por aquela experiência
de sofrimento. Contudo, de acordo com o ensino da Palavra
de Deus, um outro aspecto deve ser considerado: na vontade
de Deus estão incluídos tanto a ação
quanto o sofrimento. Não precisamos esperar a vinda
de "dias melhores" a fim de cantarmos "Seja
feita a Tua vontade." Mais do que meramente suportar
o sofrimento de acordo com a vontade de Deus, nós podemos,
aqui e agora, não somente cantar, mas fazer a vontade
de Deus.
É
propósito de Deus que nós conheçamos
a Sua vontade. Essa deve ter sido uma lição
surpreendente para Saulo de Tarso. Ele pensava que conhecia
a vontade de Deus. Sendo judeu e membro do Sinédrio,
Saulo deveria conhecer a vontade de Deus. No entanto, Ananias,
aquele humilde discípulo, foi enviado a Saulo e lhe
falou a respeito do "Deus de nossos pais." Saulo
estivera equivocado. Ele pensava conhecer a vontade de Deus,
mas não a conhecia. Há muitos cristãos
hoje em dia que se encontram exatamente nesta mesma posição.
É possível que eles sejam cristãos já
há muitos anos; talvez eles se sintam orgulhosos do
conhecimento que possuem, de sua ortodoxia, de sua participação
nas atividades da igreja, da posição que eles
ocupam entre os demais irmãos. Contudo, eles ainda
não conhecem a vontade de Deus. É possível
que esses irmãos venham, durante esta semana, a receber
uma tal revelação da vontade de Deus que vai
surpreendê-los completamente. "...se não
vos tornardes como crianças..." - essa é
a condição para conhecermos a vontade de Deus.
Mas nós, como Naamã dizemos:"Pensava eu
...", e é exatamente nessa forma de pensar que
reside o nosso equívoco. Nós dizemos: "Eu
pensava que cristianismo era assim; ou dizemos: "eu pensava
que nisso consistia a santidade..." ou ainda: "eu
pensava que ser membro da igreja significava agir dessa forma
... eu pensava que a vida cristã, a pregação
e a obra eram tais e tais coisas ..." Como Naamã,
dizemos: "Pensava eu...!" Talvez, antes ainda que
chegue o fim-de-semana, muitos venham a conhecer a vontade
de Deus de um modo como nunca a tinham visto anteriormente
- o propósito divino passará a ser parte de
suas vidas.
Em segundo
lugar, temos o plano divino: ver o Justo e ouvir a voz de
Sua própria boca. Ouvir a Sua voz para agir de acordo
com o propósito divino. Esse era o plano divino. Primeiramente,
o contato pessoal com Jesus Cristo - ver o Justo. A visão
de Jesus Cristo passaria a ser tudo para Saulo de Tarso ao
longo de toda a sua vida. Mas como Saulo deveria ver a Cristo?
Como "o Justo!" Sabemos que, às vésperas
de Sua crucificação, nosso bendito Senhor falou
a Seus discípulos que o Espírito seria enviado
a fim de convencer o mundo da justiça "porque
eu vou para o Pai." Naquela época, o mundo tinha
a impressão que Jesus Cristo era um "injusto"
e o mataram. Eles pensavam seriamente que Ele era injusto,
um blasfemador e, por isso, o rejeitaram. Mas Deus o levantou
de entre os mortos, porque Ele era o Justo. Além disso,
ele não poderia ter ido para o Pai caso não
fosse justo. Ele disse que o mundo seria convencido do pecado
porque: "eu vou para o Pai."
Saulo
de Tarso estava plenamente convencido deste fato. E Saulo
ouviu a voz lhe dizer:"Eu sou Jesus, o nazareno, a quem
tu persegues." Se o Senhor tivesse dito: "Eu sou
o Filho de Deus a quem tu persegues, "Saulo poderia responder:
"Eu nunca te persegui!" Mas o Senhor disse: "Eu
sou Jesus de Nazaré" -- nome este que odeias --
"a quem tu persegues." Assim, foi revelado a Saulo
que Jesus de Nazaré estava com o Pai e, portanto, era
justo.
Jesus,
o Justo -- é apenas um outro modo de dizer: "o
Senhor, nossa justiça." Ainda é plano de
Deus que cada um de nós tenha contato pessoal com Cristo
como o "Senhor, a nossa justiça". A visão
do "Senhor, nossa justiça " nos purifica.
A visão do "Senhor, nossa justiça"
-- nos santifica, nos qualifica e glorifica. Será que
você, querido irmão, já teve esta visão?
Será que nós já vimos o Senhor como nossa
justiça para um passado cheio de culpa? Será
que já o vimos como nossa justiça para o presente
manchado pelo pecado? Será que o conhemos como nossa
justiça tendo em vista um futuro perfeito?
Ver o
Justo - eu não tenho dúvida alguma que, durante
esta semana, muitos verão o Justo. Eles o verão,
talvez, em primeiro lugar para sua justificação
e, depois, também o verão para a sua santificação.
É
preciso vê-lo para nossa justificação.
Não aprenderemos nenhuma lição sobre
a santificação a menos que, em primeiro lugar,
tenhamos conhecido o Senhor como nossa justiça, para
nossa justificação. Romanos 3 e 4 devem vir
antes de Romanos 6 a 8. A porta de entrada é a justificação,
não a santificação. A ordem divina não
é justificação através da santificação,
mas o contrário, ou seja, santificação
através da justificação, através
da visão do "Senhor, a nossa justiça!"
Receber
uma comunicação pessoal de Jesus Cristo também
era parte do plano - Saulo não deveria apenas ver o
Justo, mas também "ouvir a voz do Senhor."
Que tremendo golpe isso deve ter sido para o orgulho de Paulo
- ouvir a voz de Sua boca, a voz do Nazareno, a voz daquele
a quem Saulo estivera perseguindo. Saulo deveria ouvir a voz
da vontade de Deus através da voz do Nazareno. Naquela
manhã, a caminho de Damasco, Saulo descobriu que havia
mais coisas no céu e na terra do que ele, em sua filosofia,
jamais havia imaginado. Deus tinha um novo modo de revelar
a Sua vontade; Saulo deveria "ouvir a Sua voz."
Da mesma forma deve ocorrer hoje. Sem dúvida alguma
ouviremos, no decorrer desta semana, muitas palavras de Cristo
através de Seus servos. Mas isso não será
suficiente. Nós precisamos ouvir a voz da Sua boca,
devemos ter contato com Cristo através de Sua Palavra;
temos de encontrar-nos com Cristo diretamente, face a face
e ouvir a voz de Deus falando pelo Espírito Santo.
Em terceiro
lugar, temos o projeto divino : "porque terás
de ser sua testemunha diante de todos os homens, das coisas
que tens visto e ouvido." Esse é o ponto culminante.
O propósito e o plano conduziram a este projeto. O
que significa "...terás de ser Sua testemunha"?
Ser testemunha não significa ser um juiz. Saulo estivera
tentando realizar o trabalho de um juiz, e o resultado foi
um desastre. Saulo deveria ser não um eco - vago, vazio
e sem utilidade prática, não um filósofo,
nem mesmo um teólogo, mas uma "testemunha".
Tudo o que Deus nos dá, tudo o que Deus nos diz tem
como propósito que sejamos testemunhas de Cristo, dando
nosso testemuho acerca dele. Provavelmente nenhuma outra palavra
seja usada com tanta freqüência no Novo Testamento
a fim de expressar o que o cristão deve ser e fazer.
Uma testemunha
- alguém que tem conhecimento direto; uma testemunha
- alguém que tem experiência pessoal; uma testemunha
- alguém que fala e vive tendo conhecimento obtido
através da experiência, alguém que fala
e vive fielmente, com franqueza e sempre destemido. Somos
pais? Devemos ser testemunhas. Nossa autoridade como pais
fracassa na mesma proporção em que não
temos autoridade como testemunhas. Somos mestres? Só
ensinaremos com autoridade quando o que ensinarmos for resultado
de algo que experimentamos pessoalmente. Somos escritores?
Nossos escritos devem refletir nossa experiência pessoal.
O motivo pelo qual atualmente tantos livros sobre a Bíblia
e assuntos teológicos são tão secos,
insípidos, sem proveito e não convincentes,
é porque eles não têm aquela marca do
testemunho pessoal por trás dos aspectos da verdade
que desejam apresentar. Somos filósofos - recebemos
da parte de Deus habilidade intelectual, capacidade para escrever
e falar? Nossa filosofia não terá qualquer utilidade,
a menos que seja baseada em experiência pessoal. Somos
líderes na igreja ou na comunidade? Deus nos concedeu
capacidade para administrar? Tais habilidades de nada servirão
a menos que nossa vida esteja permeada com o brilho de algo
experimentado pessoalmente.
"Terás
de ser sua testemunha". Mas em que cirscunstâncias?
"Diante de todos os homens." Nosso primeiro testemunho
deve ser em nossa casa. Aqueles que estão mais próximos
de nós, nossos familiares, estarão nos observando
cuidadosamente. Eles desejarão saber o que o Senhor
Jesus é para nós - se nós vimos o Senhor,
se nós ouvimos Sua voz.
Também
teremos de ser testemunhas em nossa congregação.
Deveremos declarar o que Deus fez por nossas almas; seja em
nossa pregação, seja em nossa prática
na vida e obra da igreja, este grande testemunho pessoal de
Cristo deve permear todas as coisas.
Possivelmente
teremos de ser testemunhas na cidade em que vivemos, posicionando-nos
a favor da moralidade, justiça social e pureza. Tenho
absoluta certeza que a expressão "diante de todos
os homens" significará para alguns trabalho missionário,
o qual consiste basicamente na obra de testemunhar. Não
apenas a obras de ensinar e treinar obreiros, mas testemunhar
a todos os homens acerca das coisas que temos ouvido e visto.
O poder disso é incalculável. Em primeiro lugar,
o poder do testemunho pessoal é algo para nós
mesmos. O apóstolo Paulo está narrando esta
história em Jerusalém muitos anos depois de
ter recebido aquela visão, mas à medida em que
ele faz o seu relato, aqueles eventos retornam à sua
memória tão vivos e cheios de significado quanto
no momento em que ocorreram. Assim também deve ser
conosco quando olhamos para trás. É possivel
que já tenha se passado dez, quinze ou vinte anos desde
que nos convertemos, mas nós não devemos ficar
vivendo meramente de lembranças. Nós devemos
voltar com alegria ao fundamento e aos fatos de nossa experiência
pessoal e, nela, encontrar a promessa de todas as coisas em
nossa vida cristã. Nós temos de ser capazes
de dizer: "Eu sei em quem tenho crido". À
medida que contamos a história daquilo que Deus tem
sido ao longo de todos aqueles anos, nossa fé será
fortalecida, nossa confiança arraigada e alicerçada
em Cristo. E, apesar de todas as tentações para
duvidar e entrar em desespero, nós olharemos para o
Senhor e diremos:
Aquele
que experimentou o Espírito do Altíssimo,
Não pode confundir-se, nem dele duvidar ou negá-lo;
Ao contrário, negue, em alto e bom som, o mundo,
Permaneça, pois, ao Seu lado.
Em segundo
lugar, o poder do testemunho pessoal é algo para os
nossos semelhantes. O testemunho de nossa expêriencia
pessoal é um argumento a favor do cristianismo que
não pode, de modo algum, ser questionado. Paulo estava
em Jerusalém entre seus velhos amigos. Havia uma multidão
à sua volta. Seria aquele um momento para " expressar
sua eloqüência? ou habilidades pessoais, ou capacidade
de argumentar?" Não, Paulo usou aquela oportunidade
para uma só coisa: um testemunho pessoal daquilo que
Jesus Cristo era para ele. Não há maior inimigo
para o cristianismo nos dias de hoje do que uma mera confissão.
Não há maior desonra para o cristianismo atualmente
do que alguém proclamar-se cristão e, ao mesmo
tempo, não viver o cristianismo na vida diária.
Não há maior perigo hoje em dia no mundo cristão
do que falarmos a favor da Bíblia e, no entanto, negarmos
a Bíblia pelo nosso modo de vida. Não há
maior empecilho para o cristianismo hoje do que defender a
ortodoxia, seja qual ela for e, ao mesmo tempo, negá-la
pela secura e indiferença com que defendemos nossa
causa.
Oh, este
poder do testemunho pessoal - ter o coração
cheio do amor de Cristo, a mente saturada com o ensino de
Cristo, a consciência sensível à lei de
Cristo, ter todo o nosso ser resplandecendo com a graça
e amor de nosso Senhor Jesus Cristo! Esse é o propósito
de Deus, esse é o plano de Deus para nós.
Quando
santidade e serviço estão presentes, então
a felicidade necessariamente também estará presente.
Assim, nós também devemos conhecer, ver, ouvir
e então ser testemunhas. Nós estamos agindo
dessa forma? Há pessoas no mundo ao nosso redor que
nunca abriram uma Bíblia. Eles nunca leram a Bíblia,
mas estão lendo as nossas vidas. Será que as
pessoas podem ver Deus em nossas vidas? Elas podem olhar para
nós e dizer: "Eis alguém que me lembra
a Cristo". Estamos nós permitindo que nossa luz
brilhe para que os homens possam ver, não a nós,
mas nosso Pai, nosso Salvador em nós; e glorificar,
não a nós, mas nosso Pai que está no
céu? Esse é o real teste de uma conferência
como esta. Portanto, vamos viver na presença de Deus;
vamos entregar-nos ao Cristo de Deus; vamos nos manter bem
próximos à Palavra de Deus; recebamos em nossos
corações a graça de Deus, busquemos a
plenitude do Espírito de Deus e, então, vivamos
ainda mais intensamente para a glória de Deus.