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O Evangelho Examinado em Função da Eternidade do Passado.
Por T. Austin-Sparks

Atentemos, de novo, para esta epístola (aos Romanos), no seu conjunto. Logo percebemos que a boa nova não se limita à cruz de Jesus Cristo - embora a cruz seja o seu fulcro, como veremos adiante - mas é algo mais do que o próprio Calvário! É o "evangelho de Deus acerca de Seu Filho... Jesus Cristo, nosso Senhor". A cruz é apenas um fragmento do significado do próprio Jesus Cristo.

A epístola de S. Paulo conduz-nos diretamente ao conceito de eternidade do Filho de Deus. Eis um fato maravilhoso para quem o apreender. Se por este evangelho não nos vier a salvação, por quem nos virá ela?

Cristo situa-se no próprio seio da eternidade, em relação ao passado. Ele é o Filho. "Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho" (Rm. 8:29). Significa isto que Jesus, o Filho de Deus, era o modelo máximo, o arquétipo, o paradigma da criatura humana antes de todos os tempos. Eterno e intemporal. Ali estava Ele, junto do Pai, antes que houvesse necessidade de redenção, expiação, cruz, servindo ao homem como padrão eterno de Deus. Isto é positivo, certo, perfeitamente claro. Trata-se de uma ênfase num determinado tempo verbal em que a ação se define em absoluto. "Os que dantes conheceu também os predestinou". Antes que o tempo fosse tempo, o milagre da escolha daqueles que haviam de ser conformes à imagem do Seu Filho, realizou-se. No infinito do passado, no próprio selo da eternidade do "antes", principia o evangelho.

O Filho é contemplado na Sua eternidade como modelo intemporal do divino; o absoluto poder para a redenção, a soberania redentora, são algo de retrospectivamente eterno, estão fora do tempo. Ele predestinou, chamou, justificou, glorificou. O que se segue à predestinação, a saber, o chamamento, a justificação, a glorificação, são bênçãos, atos divinos que se integram numa única bênção e num mesmo tempo, tempo na realidade intemporal, ou seja, a eternidade. Repare-se que estes verbos se encontram todos no mesmo tempo, o pretérito perfeito, escrito no grego. A situação global por eles designada fica assim bem definida. Não se trata de ser atingido pelo chamamento ou pela justificação e não pela glorificação, por exemplo.

Em propósito e intenção tudo isto foi realizado antes do tempo ser tempo, na Pessoa de Jesus Cristo e em relação a Ele. O fato de o vaso se haver conspurcado, se haver tornado indigno nas mãos do Oleiro, não passa afinal de uma ocorrência do tempo; terrível, trágica, é certo, mas, apesar de tudo, não mais que um incidente no tempo. As intenções divinas superam os simples incidentes temporais. Quando o Senhor planeou a redenção, tal não sucedeu porque algo obrigava a um movimento de emergência, a um socorro que era necessário para uma determinada situação concreta. Tudo fora já previsto por Ele, possuía portanto os elementos fundamentais para fazer face à contingência do pecado. O Cordeiro foi imolado "desde a fundação do mundo" (Ap. 13:8).

A cruz de Cristo, no seu significado, atinge o Filho de Deus que, na vasta e infinita perspectiva do passado e da sua eternidade, está para além do tempo, do pecado, da queda, da realidade adâmica. A cruz como que recua, recua sim, até atingir o "Cordeiro morto desde a fundação do mundo". É na verdade imensa a esperança que existe neste fato! Apreendendo-o na sua realidade, considerando-o verdadeiro, trata-se ou não de uma espantosa boa nova? Ao aceitá-la, a desesperança que em nós existe transforma-se numa extraordinária plenitude. É o próprio Deus que, através do Seu Filho, vem ao nosso encontro. E repare-se que não se trata de uma experiência, de um ato especial levado a efeito porque houve um erro que é preciso remediar, como se o Senhor monologasse dessa maneira: "Preciso de um remédio, de um antídoto com o qual possa enfrentar essa situação; o homem adoeceu,
procuremos algo que o cure". Não. Deus, desde o infinito da eternidade, desde sempre, encontrou no Seu Filho a cura necessária. É este afinal o evangelho, a boa nova "acerca de seu Filho". Uns poucos de problemas podem surgir a partir daqui; seja como for eis-nos perante o axioma básico deste livro.

Que todos vejam que a esperança pode ser procurada num plano anterior ao da Queda, em antecipação ao próprio pecado humano que, na realidade, nunca a destruiu. "Qual, então, o valor da cruz?", perguntará o leitor. Não é difícil a resposta. A encarnação, a redenção operada no Calvário, tornam ato o que era potência, ou antes, concretizam o que foi desde toda a eternidade estabelecido. É assim que Deus introduz no universo prático os propósitos, intenções e desígnios em relação com o Seu Filho situando nas normais escalas do espaço e do tempo o que já existia na eternidade. O meio pelo qual se ergue até às alturas do pensamento divino a baixeza e o lodaçal do pecado humano, é a cruz. Ela faz-nos regressar àquele plano de Graça eternamente invulnerável - afinal e em última análise - a tudo o que se passou no nosso tempo humano e concreto.

Quão extraordinária esta boa nova! Todos os males se transcendem, se superam, se esquecem por intermédio da cruz, "ocasião de fé" - ela própria é mesmo a propiciadora do terreno sobre o qual assenta a nossa fé - e quando a fé atua em relação com a cruz, que acontece? Somos transportados ao Cristo de sempre, ao Cristo que representa as intenções divinas inteiramente existentes fora do tempo, antes de todos os tempos e não, nunca, a um Jesus com uma determinada idade, a um Jesus cronologicamente concebido.

Aqui chegamos, sim, a esta extraordinária situação, graças à fé. Eis-nos perante o evangelho do "Deus de Esperança", perante as boas novas "acerca de Seu Filho". Assim, repare o leitor, que a esperança encontra os seus fundamentos numa eterna provisão de graça que está para lá do tempo.

Eis-nos pois a falar duma rocha bem firme para edificarmos alguma coisa sobre ela! A rocha de que falamos é a filiação divina do Cristo, não qualquer princípio ou medida considerados e escolhidos posteriormente ao pecado e utilizados para fazer face a algo que aconteceu inesperadamente. A esperança mergulha as suas raízes fora do tempo. O apóstolo, na sua epístola aos Hebreus, diz-nos por meio de uma metáfora: "a esperança proposta... a qual temos como âncora da alma, segura e firme e que penetra até ao interior do véu" (Hb. 6:18-19), e assim somos levados para lá da vida e do tempo, como que lançando a nossa âncora no firme fundo da eternidade.

Quão imensa em seu significado é também a mensagem da epístola aos Romanos, no capítulo sexto! Quão maravilhosa é a grandeza da cruz! Para lá de Moisés, Abraão, Adão, para lá do pecado, para infinitamente antes e longe da Queda, somos lançados. A cruz, superando na eternidade do passado a desesperada condição da espécie humana, liga-nos à intenção divina, é uma garantia dessa intenção.

Por outro lado, o seu efeito atinge tanto a eternidade vindoura como atinge a que já passou. Por isso "aqueles que Ele predestinou... também os glorificou" (Rm. 8:29-30).

A cruz assegura a eterna glória no futuro. Como o seu significado é imenso! Sobre ela se baseia a esperança, sobre o fato de que Aquele que suportou o madeiro, tornando-se por nós o último Adão, Aquele que se fez pecado por nós e que está agora vivo, ressuscitado, sentado à mão direita de Deus, nos faz participar em Si mesmo, "em Cristo", de uma situação gloriosa que não comporta o risco de nova Queda.

Penso muitas vezes que esta é na verdade uma das mais benditas realidades que o evangelho nos traz: Jesus, agora no céu, depois (e antes, afinal!) de haver passado pelo Calvário, diz-nos que o "novo" Adão nunca mais tornará a cair. Nunca mais haverá outra queda da graça divina. Herança garantida, herança a salvo porque em perfeita conexão com Deus. De uma vez para sempre acabou o medo de nova Queda no sentido adâmico do termo. Esperança maravilhosa esta, a de um evangelho de um autêntico Deus de Esperança!

O querido leitor apercebeu-se vividamente do negro quadro da desesperança, da forma como ele é desenhado? Procurei fazer dele um pequeno esboço mas se se prestar atenção aos pormenores, que se verá realmente?

Nos primeiros capítulos desta epístola traça-se um retrato pavoroso dos gentios e dos judeus, precisando-se bem a desesperança da situação em que se encontram. Desespero, sim, mas, apesar de tudo,... Esperança! Sobrelevando todas as coisas, a esperança reside na realidade espantosa que consiste na predestinação divina de algo que o Altíssimo levou à efeito, concretizou e emonstrou por intermédio da cruz de Seu Filho Jesus Cristo. Estamos seguros de que a fé ao atuar em relação à cruz de nosso Senhor origina em nós alguma coisa que transforma, ou antes, que inverte o curso natural da vida humana. Ora a fé cresce, vai-se desenvolvendo; estamos a aprender o caminho da fé e assim vamos confiando progressivamente em Deus. Eis que tudo se fez novo; a obediência tornou-se um fato. Outra vida, outra natureza, outro poder, aparecem-nos agora feitos para esta esperança e também como que emergem dela.

Um cristão desesperado revela uma viva contradição entre si próprio e a sua fé; é alguém a quem este preeminente atributo divino, a esperança, não toca em profundidade, marcando-o ...Ele é o "Deus de esperança". O Senhor realiza este milagre maravilhoso: encher-nos de esperança. "... Pacientes na tribulação... alegrai-vos na esperança" (Rm. 12:12).

(Extraído de "O Evangelho Segundo o Apóstolo Paulo" - T. Austin-Sparks)


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