Uma
igreja em declínio
Durante o século XV houve algumas
tentativas de reforma da igreja, mas esta reforma não
era dirigida contra as questões doutrinárias,
mas mais contra a vida religiosa na prática, em particular
contra os abusos presentes na igreja medieval. Ao mesmo tempo,
houve outro movimento de reforma muito mais radical, que não
se contentava em atacar questões referentes à
vida e aos costumes, mas queria corrigir também as
doutrinas da igreja, ajustando-as à mensagem do evangelho.
Entre os que seguiram este caminho, os que mais se destacaram
foram John Wycliffe e Jan Huss (1370-1415). Wycliffe viveu
durante a época do "cativeiro babilônico"
do papado (quando o papado foi estabelecido em Avignon, na
França), e no início do "Grande Cisma"
(que começou em 1378, quando dois papas rivais tentaram
exercer autoridade sobre a igreja). Estes homens prepararam
o caminho para a reforma protestante do século XVI.
A época em que Wycliffe viveu era caracterizada pela
incerteza e pressões comuns à nossa época.
A "peste negra" varreu a Inglaterra e a Europa e,
em alguns lugares, um terço da população
foi morta. O que ficou conhecido como a "Guerra dos Cem
Anos" entre a Inglaterra e a França minou energias
e recursos. A igreja possuía mais de um terço
das terras da Inglaterra. O clero era normalmente inculto
e imoral. Altos cargos na igreja eram comprados ou dados como
favores políticos. Aos ingleses desagradava enviar
dinheiro para um papa em Avignon, que estava sob influência
do inimigo da Inglaterra, o rei da França. O controle
dos salários relegava os pobres a uma existência
marginalizada e conduziu à violenta Revolta dos Camponeses
na Inglaterra, em 1381.
Um erudito cristão
Sabemos muito pouco da juventude de John Wycliffe, que nasceu
em cerca de 1328, em uma rica família inglesa, em Hipswell,
no Condado de Yorkshire. Parece que ele teve uma infância
típica em uma pequena aldeia da Inglaterra, e uma juventude
dedicada quase exclusivamente ao estudo. Ele começou
sua vida acadêmica aos treze anos, indo estudar na Universidade
de Oxford, no Balliol College. A Universidade de Oxford tinha
alcançado grande reconhecimento, tendo sido considerada
por muitos como a principal universidade na Europa. Tristemente,
naquela época, em lugar de estudar as Escrituras, os
homens gastavam o tempo estudando filósofos como Tomás
de Aquino (c. 1224-1274) e John Duns Scotus (1265-1308). Porém
havido um homem realmente cristão que era professor
no Balliol College. O nome dele era Tomás de Bradwardine
(falecido em 1349). Ele estava terminando sua carreira aproximadamente
ao mesmo tempo em que Wycliffe estava começando a sua.
Bradwardine estava pronto aceitar o que Deus tinha revelado
em sua Palavra. Ele viu o caminho que outros perderam. Ele
ensinou a verdade do Evangelho que Deus salva os homens de
seus pecados por meio de sua livre graça. Luz começou
a raiar na Europa por causa deste grande homem.
Wycliffe continuou seus estudos, financiando-os de uma forma
duvidosa, mas de modo muito comum em sua época - aceitou
um ofício pastoral e o salário atribuído
a ele, mas sem cumprir suas obrigações. Isto
possibilitou continuar sua carreira acadêmica em Oxford,
recebendo seu doutorado em 1372, quando se tornou um dos mais
brilhantes teólogos e filósofos de sua época.
Wycliffe saiu da universidade em 1371, para se colocar a serviço
da coroa, ajudado pelo poderoso John de Gaunt, o Duque de
Lancaster, filho de Eduardo III. Gaunt foi o governante de
fato da Inglaterra, entre 1377 a 1381, depois da morte do
pai, enquanto Ricardo II não tinha idade suficiente
para reinar. Na época, havia tensões entre o
trono inglês e o papado romano, particularmente com
referência a certos impostos que o papado estava exigindo
da Inglaterra. Wycliffe saiu em defesa da coroa, atacando
a teoria que dizia que o poder temporal (estatal) se origina
do espiritual (eclesiástico). Ele participou também
de uma embaixada em 1375, em Bruges, na Bélgica, em
que discutiu com os legados do papa os pontos em debate. Parece
que sua lógica inflexível, aliado a sua falta
de senso da realidade política, tornava-o pouco apto
para o serviço diplomático, e por isto ele não
voltou a ser enviado em missões semelhantes. A partir
de então ele foi usado principalmente como um polemista
demolidor, que o estado inglês empregava contra seus
inimigos da igreja.
Este debate em que se envolveu, somada ao escândalo
do "Grande Cisma", o conduziu a posições
cada vez mais ousadas, atacando não apenas o papa e
os poderosos senhores da igreja, mas também os poderosos
do estado. Em seu entendimento, assim como o poder espiritual
tinha seus limites, o temporal também os tinha. Ele
também argumentou que apenas o governante piedoso pode
exercer a autoridade corretamente, e que governantes ímpios
não tem autoridade legítima - sejam eles nobres,
reis ou papas. Por causa disto, os nobres que antes o apoiavam
foram se separando dele, deixando-o cada vez mais só.
Um crítico da Igreja
Wycliffe então voltou para a Universidade de Oxford,
onde tinha muitos seguidores e admiradores. Mas também
ali o cerco se fechava. Ele tem sido chamado de a "estrela
da manhã da Reforma", porque audaciosamente questionou
a autoridade papal, criticou a venda de indulgências
(a qual supostamente libertava as pessoas do castigo do purgatório),
falou abertamente contra a hierarquia eclesiástica
e negou a realidade da transubstanciação - a
igreja romana dizia que a substância do pão e
do vinho é mudada em corpo e sangue de Jesus Cristo
durante a missa. Ele entendia que a substância dos elementos
era indestrutível e que Cristo estava apenas espiritualmente
presente no sacramento. Em suas palavras, "quando vemos
a hóstia não devemos crer que ela própria
é o corpo de Cristo, mas que o corpo de Cristo está
sacramentalmente escondido nela... A nós cristãos
é permitido negar que o pão que consagramos
é idêntico ao corpo de Cristo, embora seja ele
um sinal eficiente dele... [Aqueles que identificam] falham
em distinguir entre a figura e a coisa figurada e em considerar
o significado figurativo... O receber espiritual do corpo
de Cristo consiste não num receber corpóreo,
no mastigar ou tocar da hóstia consagrada, mas no alimentar
da alma de fé frutífera conforme a qual nosso
espírito é alimentado no Senhor... Porque nada
é mais horrível do que a necessidade de comer
a carne materialmente e o beber o sangue materialmente de
um homem amado [Jesus Cristo] tão claramente"
(A Eucaristia 1:2, 11; 7:58; 1:15). Se adotada, a posição
de Wycliffe significaria que o sacerdote não mais reteria
a salvação de alguém por ter em suas
mãos o corpo e o sangue de Cristo na comunhão.
A posição de Wycliffe não é totalmente
clara, e tem sido reclamada tanto pelos seguidores de Martinho
Lutero como pelos de João Calvino.
Seus ataques contra os monges (as ordens monásticas
eram comprometidas com a pobreza, mas toda a sua considerável
riqueza era mantida de forma injusta, não lhes pertencendo
de forma legítima), que tinham começado anos
antes, lhe valeram muitos inimigos. Em 1377, o papa Gregório
XI condenou John Wycliffe por seus ensinamentos e pediu que
a Universidade de Oxford o demitisse. Por instigação
do arcebispo de Canterbury, Simon de Sudbury, o reitor da
universidade convocou uma assembléia para discutir
os ensinos de Wycliffe sobre a ceia, e esta assembléia
o condenou por estreita margem de votos, em 1380. Mesmo assim,
muitos em Oxford ainda o defendiam, e as autoridades não
se atreviam a tomar atitudes contra ele. Durante vários
meses ele esteve preso em sua casa, privado da liberdade,
mas com permissão para continuar escrevendo seus livros,
cada vez mais agressivos. Em 1381, a Revolta dos Camponeses
na Inglaterra forçou a igreja e os nobres a cooperarem
entre si na restauração da lei e da ordem. Embora
Wycliffe não estivesse envolvido na rebelião,
aqueles que se opunham a ele alegavam que a revolta fora resultado
de seus ensinos. Aproveitando-se da situação,
os líderes da igreja inglesa forçaram seus seguidores
a saírem de Oxford.
Tradutor das Escrituras
Por causa das pressões de um velho inimigo, William
Courtenay, que era bispo de Londres, Wycliffe se retirou para
a igreja paroquial de Lutterworth, perto de Rugby, em 1382.
Com o passar dos anos, ele foi dando cada vez mais ênfase
na autoridade das Escrituras, em detrimento da autoridade
do papa e das tradições eclesiásticas.
Ele entendia que as Escrituras pertencem à igreja,
e por isto devem ser interpretadas dentro dela e por ela.
Para ele, as Escrituras contém tudo que é necessário
para a salvação, sem qualquer necessidade de
tradições adicionais.
Além disto, ele acreditava que o melhor caminho para
prevalecer em sua luta contra a autoridade abusiva da igreja
católica era tornar a Bíblia acessível
às pessoas em sua própria língua. Desse
modo, poderiam ler por si mesmas acerca da forma como cada
uma poderia ter um relacionamento pessoal com Deus através
de Jesus Cristo - independente de qualquer autoridade eclesiástica.
Como ele disse: "As palavras de Deus darão aos
homens nova vida mais do que as outras palavras lidas por
mero prazer. Oh, maravilhoso poder da Divina Semente que vence
homens fortes e armados, amacia os corações
duros e renova e transforma em homens piedosos aqueles que
tinham sido brutalizados pelos pecados, e se afastaram infinitamente
de Deus. Obviamente tal miraculoso poder nunca poderia ser
operado pelo trabalho de um sacerdote, se o Espírito
da Vida, e a Eterna Palavra, acima de qualquer outra coisa,
não operassem". Em 1382, atacou a autoridade do
papa, dizendo num livro que Cristo e não o papa era
o chefe da igreja. Afirmou que a Escritura e não a
igreja era a autoridade única para o crente e que a
igreja romana deveria se modelar segundo o padrão da
igreja do Novo Testamento.
Em Lutterworth, Wycliffe e alguns de seus antigos alunos,
completaram a tradução do Novo Testamento por
volta de 1380 e o Antigo Testamento em 1382. Enquanto Wycliffe
concentrava seus esforços no Novo Testamento, um de
seus amigos, Nicolau de Hereford, trabalhava sob sua supervisão
na tradução do Antigo Testamento. Wycliffe e
seus companheiros, por não conhecerem o hebraico e
o grego originais, traduziram o texto do latim para o inglês
- usando a tradução latina de Jerônimo,
escrita à mão a mais de 100 anos. Um dos amigos
mais chegados de Wycliffe, John Purvey (c. 1353-1428), continuou
a obra de Wycliffe, lançando, em 1388, uma revisão
de sua tradução. Purvey era um erudito, e seu
trabalho foi muito bem recebido por sua geração
e pelas que se seguiram. Menos de um século depois,
a edição revista de Purvey havia substituído
a Bíblia inicial de Wycliffe. Eles foram os primeiros
ingleses a traduzir toda a Bíblia do latim para o inglês.
Outros de seus escritos, além dos seus trabalhos sobre
os problemas da Igreja e do Estado, incluíam tratados
de lógica e metafísica e numerosos livros e
sermões teológicos. Em um sermão intitulado
"O amor de Jesus" ele expressa de forma comovente
seu amor por Cristo, que o constrangeu a se lançar
à obra de reforma da igreja: "A não ser
que um homem seja primeiro purificado por provações
e tristezas, ele não pode alcançar a doçura
do amor de Deus. Oh, tu amor eterno, inflama minha mente para
que eu ame a Deus, que incendeie tudo, menos o Seu chamado.
Oh, bom Jesus! Quem mais poderia me dar o que sinto de Ti.
Agora, Tu deves ser sentido, e não visto. Entra nos
mais íntimos recessos da minha alma; entra no meu coração
e enche-o completamente com Tua claríssima doçura;
faze com que minha mente beba profundamente do forte vinho
do Teu doce amor; pois somente Tua presença é
para mim consolo ou conforto, e só Tua ausência
me deixa entristecido. Oh, Tu, Santo Espírito, que
sopras onde queres, entra em mim, atrai-me a Ti, para que
eu possa desprezar e ter em nada em meu coração
todas as coisas deste mundo. Inflama o meu coração
com o Teu amor que para sempre arderá sobre o Teu altar.
Vem, eu te imploro, doce e verdadeira alegria; vem doçura
tão desejável; vem meu amado, que és
todo o meu conforto". Esse amor deveria ser uma força
impulsora para todos os cristãos hoje.
Precursor da Reforma
E foi também por este amor que, em pouco tempo, o país
se viu invadido pelos "lolardos", ou "pregadores
pobres". Vários dos seus discípulos se
dedicaram a divulgar suas doutrinas entre o povo, ainda durante
a vida do mestre de Oxford. As doutrinas dos "lolardos"
eram claras: A Bíblia deveria ser colocada à
disposição do povo em seu próprio idioma.
As distinções entre o clero e os leigos, com
base no rito de ordenação eram contrárias
às Escrituras. Clérigos injustos deveriam ser
desobedecidos. A principal função dos ministros
de Deus deveria ser pregar, e eles deveriam ser proibidos
de ocupar cargos públicos, pois "ninguém
pode servir a dois senhores". Além disto o celibato
de sacerdotes e monges era uma abominação que
produzia imoralidade, aberrações sexuais, abortos
e infanticídios. O culto às imagens, as peregrinações,
as orações em favor dos mortos e a doutrina
da transubstanciação eram pura magia e superstição.
Os "lolardos" incluíam estudantes da Universidade
de Oxford, pequenos proprietários e muitos pobres das
áreas rurais e urbanas. A igreja romana, através
de uma declaração apoiada pelo Parlamento, em
1401, passou a perseguir e castigar com a pena de morte a
pregação dos "lolardos". Alguns estudiosos
acham que esta perseguição foi eficaz na destruição
do movimento até o fim do século XV. Outros
argumentam que a influência deste grupo foi preservada
em certos lugares e inspiraram a Reforma no século
XVI. Mas a influência de Wycliffe foi muito mais forte
na Europa continental. O casamento de Ricardo II, da Inglaterra,
com Anne da Boêmia, firmou vínculos espirituais
com a Boêmia (atual República Tcheca). Pela influência
da rainha, os trabalhos de Wycliffe foram levados para a Boêmia,
onde Jan Huss foi grandemente influenciado por eles. Suas
idéias foram levadas para este país através
de estudantes tchecos que estudavam na Universidade de Oxford
(entre eles, Jerônimo de Praga), lançando os
fundamentos dos ensinos de Huss. Através de sua influência
na Boêmia, Wycliffe realmente foi um precursor da Reforma
protestante.
Wycliffe continuou escrevendo até sua morte, no Natal
de 1384, em conseqüência de um derrame cerebral.
Já que faleceu estando em comunhão com a igreja,
protegido da fúria da igreja por seus amigos ligados
à nobreza, ele foi enterrado em terreno consagrado.
Mas sua influência continuou tão forte que os
ensinos de Wycliffe foram formalmente condenados, no concílio
de Constança (1414-1418), trinta anos mais tarde. Ordens
foram dadas para que seus escritos fossem destruídos,
desenterraram seus ossos, queimaram-nos e lançaram
suas cinzas no rio Swift. De qualquer maneira, as autoridades
pensaram que, ao queimar seus restos mortais, eles poderiam
apagar sua memória. Mas tais ações não
poderiam parar a fome pela Palavra de Deus e pela verdade.
Como disse o historiador Thomas Fuller: "Eles queimara
seus ossos até às cinzas / e as lançaram
na correnteza, / um riacho próximo que corria velozmente.
/ Assim o riacho levou as cinzas para o Avon, / o Avon para
o Severn; o Severn para os mares estreitos; / e eles para
o oceano. E assim as cinzas de Wycliffe são o emblema
da sua doutrina / que agora está espalhada para o mundo
todo". Uma grande organização evangélica
missionária, fundada em 1942, recebeu seu nome, e,
em cooperação com outros ministérios
semelhantes, os tradutores da "Associação
Wycliffe para Tradução da Bíblia"
(Wycliffe Bible Translators) almejam traduzir a Bíblia
para cada uma das 2.500 línguas restantes sobre a Terra
que não têm as Sagradas Escrituras.
Traduzido por Felipe
Sabino de Araújo Neto
Fonte: www.monergismo.com