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Aos Sobreviventes (aonde eles estiverem)
José Rosa Neves

Gostaria de retomar o tema do sábado passado, dia 19 de junho de 2004,quando foi lido o texto de Joel 2. O verso 32 vai dizer “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos, assim como o SENHOR prometeu, e entre os sobreviventes aqueles que o SENHOR chamar.”

Se formos buscar na história da Igreja, os quinze ou dezesseis avivamentos ocorridos nos últimos novecentos anos de história: no século XII, entre os Valdenses (na França); nos séculos XIV e XV, com John Us (na Boêmia); no século XV, com Savanarola (na Itália); nos século XVI, com Lutero (na Alemanha) e com Calvino (na Suíça); no século XVII, entre os puritanos (na Inglaterra) e entre os Morávios (na Alemanha), no século XVIII com Jonh Wesley, George Withfield (na Inglaterra) e com Jonathan Edwards e David Brainerd (nos EUA); no século XIX, em 1857 e 1859 (nos EUA), bem como na Escócia, na Irlanda do Norte, no País de Gales (na Inglaterra); no século XX, em 1904 com Evan Roberts (no País de Gales), em 1906 com Frank Bartlman (na Rua Azuza, Los Angeles, EUA); 1930, com Jonathas Goforth e Maria Monsen (na China); em 1960/1970, na Coréia do Sul; em 1966, com Erlo Stegen (na África do Sul), vamos notar uma constante, além da ênfase que houve sobre o arrependimento, uma outra que foi o discernimento trazido à Igreja pelo Espírito, conduzindo-a de tal modo que, especificamente, naqueles grandes moveres do Espírito nunca, jamais, a Igreja esperou nada de homem algum. Eles não invocaram nome de homem, mas sim o nome do Senhor. A abrangência do texto profético é enfática, “todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo”.

Outra característica dessa poderosa obra do Espírito Santo é que a Igreja ganhou identidade. Não a identidade do exclusivismo, do sectarismo, mas a identidade santa de estar separada do mundo. Não havia apenas uma linha divisória entre o mundo e a Igreja, mas um abismo. A diferença entre mundo e Igreja era clara, visível, granítica, desde a grafia (mundo, com letra minúscula e, Igreja, com letra maiúscula) até à empatia: a Igreja, em Cristo; o mundo, no maligno; a Igreja, em Jerusalém; o mundo, na Babilônia; a Igreja, na doutrina dos apóstolos; o mundo, nas vãs filosofias; a Igreja, na sabedoria de Deus; o mundo, na loucura dos homens; a Igreja, na simplicidade devida a Cristo; o mundo, na arrogância devida aos poderosos; a Igreja, coberta pela Graça; o mundo, guardado para o Juízo. Isto cumpria o que disse Joel sobre o povo de Deus ser separado: “porque no monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos, assim como o SENHOR prometeu”. Numa paráfrase de Pedro, eu diria: “vós, porém, sois outra raça, outro povo, outra nação”.

Outra marca desses grandes moveres de Deus, foi que eles aconteceram em épocas de decadência da Igreja. Quando, aparentemente, o naufrágio da Igreja era certo, eis que o Espírito tomava os Seus sobreviventes. O mundo hoje é um barco à deriva. E mais, o sistema religioso de hoje é um barco já naufragado. É um milagre que hajam sobreviventes nele. Mas, na linha do ensino sobre o remanescente, a Bíblia afirma que há sobreviventes, “e entre os sobreviventes aqueles que o SENHOR chamar”.

Falando aos sobreviventes, não creio que haja lugar para outro mover nos moldes daqueles do milênio passado, ainda que o modo como havemos de esperar em Deus seja o mesmo; sobretudo no seguinte:

O Novo Testamento não esconde a ênfase do texto sagrado sobre quatro nomes: Pedro, Tiago, Paulo e João.

Pedro foi o apóstolo do avivamento. Atos 2, quase três mil batizados. Atos 5, sua sombra, mediante o poder no nome de Jesus, curava os enfermos. Atos 10, a barreira anti-gentílica é rompida, com Pedro na casa de Cornélio. Porém, por traz desse avivalista está o registro de que Pedro foi o único dos apóstolos sobre o qual a Bíblia diz que “chorou amargamente” (Mt 26. 75, Lc 22. 62). A primeira ação do Espírito para com os sobreviventes, não é restituí-lhes tudo o que foi perdido no naufrágio, mas ministrar-lhes arrependimento. A Igreja de Atos chegou a afirmar (e definir até) que arrependimento é sinal de vida: “...e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida” (At 11.18b). Observe a ênfase sobre quem ministra o arrependimento (Deus), “foi por Deus concedido o arrependimento”. Não é arrependimento (algo indefinido), mas (algo definido): “o arrependimento para vida”. Não “para a vida”, porque a vida é Cristo; mas “para vida”.

Tiago, um dos irmãos Boanerges (filhos do trovão). Muito barulho, com energia alheia. Lucas 9.52 narra um episódio no qual Tiago e seu irmão, João, perguntaram a Jesus se ele queria que ambos mandassem descer fogo do céu para queimar uma aldeia de samaritanos que não os haviam recebido. Bem diferente de Sanção, que sem usar fogo alheio, se deu ao trabalho de agarrar trezentas raposas, atear-lhes fachos nas caudas e soltá-las, incendiando a seara dos filisteus (Jz 15). Para tanto ímpeto na vida de Tiago, nada melhor que o perfeito trabalhar da cruz. Tiago foi o apóstolo do martírio, conforme o registro de Atos 12. 2.

Paulo, um erudito: filósofo, teólogo, poliglota, fariseu, dupla cidadania (um pé em Roma outro em Jerusalém), quanto ao zelo que havia na lei: irrepreensível, candidato a líder da maior estrutura religiosa do seu tempo. Um vencedor. Tudo isto (toda essa arrogância), até encontrar-se com Cristo. Tornou-se no resultado do nada com o nada. Paulo foi o apóstolo das “insondáveis riquezas de Cristo”, a quem foi revelado “o mistério da vontade de Deus” (Ef 3.8, Ef 1.9). A pergunta de Isaías: “a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Is 53.1), foi respondida em Paulo: “a mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça” (Ef 3.8).

João, muito jovem, talvez se inspirasse no irmão, Tiago, para ser também um Boanerges. Tratado por Jesus como caçula do colégio apostólico, tornou-se no apóstolo a quem o Senhor amava. Com o trabalhar da cruz e após o pentecoste, tornou-se o apóstolo do arrebatamento. João tinha um coração arrebatado aos céus. Isaías disse, “vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo” (Is 6.1). João vai dizer, “eis armado no céu um trono, e no trono alguém sentado; e esse que se acha assentado é...” (Ap 4.2-3).

Nesta linha de corações arrebatados em Deus, podemos ler no diário de David Brainerd, no dia 25 de abril de 1742, o seguinte: “Adeus, mundo vão; minha alma pode dar-te adeus. MEU SALVADOR ensinou-me a abandonar-te. Teus encantos podem satisfazer a uma mente sensual; mas não podem alegrar uma alma destinada a Deus. Reprima tua atração; cessa de chamar a minha alma; está fixado pela graça: meu Deus será meu TUDO. Enquanto ele assim me permitir ver as glórias celestes, tuas belezas murcham, não há lugar para ti no meu coração”.

Creio que Deus tem reservado aos sobreviventes um mover do arrependimento, para vida; da cruz, para o martírio; das profundezas de Cristo, para a edificação da Igreja e de um coração arrebatado em Deus, para o arrebatamento. Antes do arrebatamento (parousia), há que nascerem os corações arrebatados em Cristo (homens dos quais o mundo não era digno – Hb 11.38).

Nesses dias temos assumido, como jovens, uma postura de espera no Senhor, reunindo-nos a cada sábado, buscando uma direção de Deus para aquilo que Ele quer fazer, e como Ele quer fazer. Mas esperar tem lá os seus riscos. Que o digam as cinco virgens néscias da parábola de Mateus 25.

Em I Samuel 13, Saul havia recebido de Samuel uma determinação para que o esperasse em Gilgal por sete dias. Ele esperou os sete dias, não vindo, porém Samuel, tomou do holocausto e das ofertas pacíficas e os ofereceu a Deus. Mal acabara de ministrar o sacrifício, eis que chega Samuel e o repreende com estas palavras: “Procedestes nesciamente em não guardar o mandamento que o SENHOR, teu Deus, te ordenou; pois teria, agora, o SENHOR confirmado o teu reino sobre Israel para sempre”. Saul passou à frente de Deus e, por isto, perdeu o reino. A Bíblia diz, em Lucas 18, que certa feita, ao aproximar-se de Jericó, Jesus ouviu o grito de um cego que clamava: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!”. O versículo seguinte diz: “e os que iam na frente o repreendiam para que se calasse”. É melhor sermos repreendidos, como foi o cego, por aqueles que andam na frente de Deus do que estarmos entre aqueles que andam na frente de Deus, como Saul.

O mais impressionante nessa tragédia de Saul é que se ele tivesse sido obediente à voz de Deus, o seu reino teria sido estabelecido para sempre e, como conseqüência, o cego teria clamado assim: “Jesus, Filho de Saul, tem compaixão de mim!”. Saul perdeu o tempo da sua visitação. Isto é sério.

Segue abaixo pequenos trechos de algumas das cartas escritas por Evan Roberts (avivamento do País de Gales, em 1904) a Frank Bartleman (avivamento da Rua Azuza, Los Ângeles, 1906).

1. “Reúna o povo que está disposto a fazer uma entrega total. Ore e espere. Creia nas promessas de Deus. Faça reuniões diárias. Deus o abençoe, é a minha oração.”

2. “País de Gales, 8 de julho de 1905. Querido irmão: ... Fiquei muitíssimo satisfeito com as boas notícias de que vocês estão começando a experimentar coisas maravilhosas.”

3. “País de Gales, 14 de novembro de 1905. Meu caro companheiro. O que posso lhe dizer que o encoraje nesta grande luta? Vejo que é uma luta terrível: o reino do mal está sendo atacado por todos os lados. Oh! São milhares de orações – não só orações formais – mas a própria alma chegando diretamente ao Trono Branco! O povo de Gales tem aprendido a orar neste último ano... o conceito que o povo tinha do verdadeiro louvor foi corrigido. Vimos que devemos: dar a Deus, e não receber; agradar a Deus, e não a nós mesmos.”


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