Poder
na Fraqueza
Você
já começou a entender o que significa ser um cristão?
Ser um cristão é ser uma pessoa em quem aparentes
incompatibilidades coexistem, mas em quem é o poder de
Deus que muitas vezes triunfa. Um cristão é alguém
em cuja vida há um inerente e misterioso paradoxo; e
esse paradoxo é de Deus. Algumas pessoas concebem o cristianismo
como todo o tesouro e não o vaso. Se, por vezes, o vaso
de barro é visível em um servo de Deus, elas acham
que esse servo é um caso perdido, enquanto a concepção
de Deus é que, nesse mesmo vaso, Seu tesouro deveria
ser encontrado.
Neste
ponto devemos fazer uma cuidadosa distinção entre
homem e “a carne” no homem – entre a limitação
que é inerente em nosso ser humano e a natureza carnal
do homem com sua inveterada tendência para pecar, uma
tendência que nos deixa (à parte da ajuda do Espírito
Santo) totalmente impossibilitados de agradar a Deus. Essa distinção
é a mais importante por causa da facilidade com que,
mesmo em um filho de Deus, alguém influencia o outro,
e com que a natureza humana em nós cede à natureza
carnal. Que fique bem claro, portanto, que eu definitivamente
não tenho a intenção, neste capítulo,
de justificar ou fechar os olhos para o pecado ou a carnalidade.
A carne deve ser resistida e entregue à morte –
a morte da cruz. No entanto, a fraqueza, neste outro sentido,
deve permanecer. Nosso bendito Senhor foi, por nossa causa,
“crucificado em fraqueza”, contudo vive pelo poder
de Deus (2 Co 13.4); e, quanto a nós, é em nossa
fraqueza que Seu poder se aperfeiçoa. Há, portanto,
uma “enfermidade” na qual é possível
gloriar-se (12.9).
Assim
Paulo diz-nos que ele tinha “um espinho na carne”
(12.7). O que era eu não sei, mas sei que esse espinho
o enfraquecia muito, e que, por três vezes, ele orou para
que o espinho fosse tirado. No entanto, em resposta, Deus apenas
lhe assegurou: “A minha graça te basta” (12.9).
Somente isso – mas isso era suficiente.
Como
o poder do Senhor pode ser manifestado à perfeição
em um homem fraco? Pelo cristianismo, pois o cristianismo é
isso. O cristianismo não é a remoção
da fraqueza, nem é simplesmente a manifestação
do poder divino. É a manifestação do poder
divino na presença da fraqueza humana. Sejamos claros
neste ponto. O que o Senhor está fazendo não é
algo meramente negativo – ou seja, eliminar a nossa enfermidade.
Nem, quanto a isso, é meramente positivo – conceder
força em qualquer situação, a esmo. Não,
Ele nos deixa com a enfermidade e concede a força ali.
Ele está concedendo Sua força aos homens, mas
essa força é manifestada em sua fraqueza. Todo
o tesouro que Ele dá é colocado em vasos de barro.
Fé
Quando há Dúvida
O
que acabamos de dizer é uma impressionante verdade sobre
a fé. Inúmeras pessoas vieram a mim e contaram
seus temores e preocupações mesmo enquanto buscavam
confiar no Senhor. Faziam seus pedidos, tomavam posse das promessas
de Deus e, não obstante, sempre surgiam dúvidas
inesperadas. Deixe-me dizer-lhe que o tesouro da verdadeira
fé aparece em um vaso que pode ser dolorosamente atacado
pela dúvida, e o vaso de barro, por causa da presença
da dúvida, não invalida o tesouro; pelo contrário,
o tesouro nesse ambiente resplandece com uma beleza maior. Não
me entenda mal: não estou incentivando a dúvida.
A dúvida é uma marca da deficiência em um
cristão, mas eu gostaria de deixar claro que o cristianismo
não é só uma questão de fé,
mas da fé que triunfa na presença da dúvida.
Gosto
de lembrar-me da oração da igreja primitiva para
que Pedro fosse liberto das mãos dos ímpios. Quando
Pedro voltou da prisão e bateu à porta da casa
onde a igreja estava reunida em oração, os cristãos
exclamaram: “É o seu anjo!” (AT 12.15). Você
vê? Havia fé ali, a verdadeira fé, o tipo
de fé que poderia trazer uma resposta de Deus; e, não
obstante, ainda havia a fraqueza do homem, e a dúvida
estava bem ali perto, por assim dizer. Porém, hoje, a
fé que muitas pessoas que fazem parte do povo de Deus
declaram exercer é maior do que a exercida pelos cristãos
reunidos na casa de Maria, mãe de João Marcos.
E elas têm certeza disso! Estão certas de que Deus
enviará um anjo, e que todas as portas da prisão
se abrirão diante delas. Se uma rajada de vento soprar:
“Há um Pedro batendo na porta!”. Se a chuva
começar a balbuciar: “Há um Pedro batendo
na porta de novo!”.
Essas
pessoas são muito crédulas, muito confiantes.
Sua fé não é necessariamente um objeto
genuíno. Até no cristão mais consagrado,
o vaso de barro sempre está ali, e, pelo menos para ele,
está sempre em evidência, embora o fator determinante
nunca seja o vaso, mas o tesouro dentro dele. Na vida de um
cristão normal, só quando a fé aumenta
positivamente de modo a agarrar-se a Deus é que pode
surgir ao mesmo tempo uma questão quanto a se talvez
ele possa estar enganado. Quando ele está mais forte
no Senhor, muitas vezes está mais consciente da sua incapacidade;
quando ele está mais corajoso, talvez esteja mais ciente
do temor no íntimo; e no ponto em que ele está
mais alegre, uma sensação de angústia prontamente
lhe sobrevém novamente. Somente a excelência do
poder o leva às alturas. Porém este paradoxo é,
em si, uma evidência, tanto de que há um tesouro
como de que é ali que Deus gostaria que ele estivesse.
Deveria ser um motivo de grande gratidão a Deus o fato
de que nenhuma fraqueza meramente humana precisa limitar o poder
de Deus. Somos inclinados a pensar que onde há tristeza
não pode haver alegria; que onde há lágrimas
não pode haver louvor; que onde a fraqueza é visível
falta poder; que quando estamos cercados por inimigos seremos
confinados; que onde há dúvida não pode
haver fé. Entretanto, deixe-me declarar com força
e com confiança que Deus está procurando levar-nos
ao ponto onde tudo que é humano só tem por objetivo
prover um vaso de barro para conter o tesouro divino. Daqui
para frente, quando estivermos conscientes da depressão,
que não cedamos a essa depressão, mas nos entreguemos
ao Senhor; quando a dúvida ou o temor surgir em nosso
coração, que não nos entreguemos a eles,
mas ao Senhor, e o tesouro resplandecerá ainda mais gloriosamente,
por causa do vaso de barro.
(Textos
estrados do livro “A Direção de Deus Para
o Homem, de Watchman Nee, Editora dos Clássicos. Julho
de 2004).
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