Os
4 altares na história de Abraão
A ilustrativa vida de
Abraão como modelo da vida de fé e do crescimento
espiritual, pode ser vista por vários ângulos.
Quero enfocar aqui, a
marca distintiva dos “altares” em sua jornada e
peregrinação espiritual, tanto do crescimento
de sua visão de Deus, quanto do crescimento e formação
do “caráter de Cristo” em seu homem interior.
Nosso crescimento espiritual
é descrito na Palavra de Deus, como um processo lento
e contínuo de apropriação do caráter
moral de Deus: o caráter de Cristo. O Salmo 84:7 diz:
“Vão indo de força em força...”;
Rm 1:17 diz: “...de fé em fé...”;
II Co 3:18 diz:”...somos transformados de glória
em glória...”; Jo 1:16 diz: “Porque todos
nós temos recebido ... graça sobre graça.”
Um altar é um
símbolo nas escrituras de adoração e consagração.
Não edificamos um altar para nós mesmos, mas para
adorar a Deus, oferecer sacrifícios a Ele e invocar o
seu nome. O altar é símbolo de uma vida espiritual,
uma vida com Deus. Abraão foi chamado “amigo de
Deus” ( Is 41:8 ), e, essa comunhão, marcada pela
vida de altar, revela a essência do que é a verdadeira
vida espiritual, ou seja, ela não consiste na medida
de nosso conhecimento e instrução acerca das coisas
de Deus, mas no quanto somos “amigos de Deus”, no
quanto andamos com Deus, no quanto Deus tem-nos como seus amigos
!
Abraão, já
em sua maturidade de vida, disse: “O Senhor, em cuja presença
eu ando...”( Gn 24:40 ), expressando assim, a qualidade
e a própria essência de toda a vida espiritual.
Frequentemente, nós
desejamos que Deus ande conosco e que Deus abençõe
nossos caminhos, mas a marca da consagração é
andar com Deus em seus caminhos ! Quanto de verdadeiro quebrantamento,
quanto do trabalho da cruz arando sobre nossas almas, quanto
de disciplina espiritual necessitamos para andar com Deus !
Sabemos que, o altar
no Velho Testamento é uma figura da cruz no Novo Testamento,
onde o verdadeiro cordeiro pascal foi imolado. O nosso Senhor
Jesus Cristo e a cruz são inseparáveis. Sem a
cruz Cristo não é Cristo, Ele não pode
salvar-nos. A cruz, mais do que um simples objeto de tortura
para alguns, ou um simples objeto de adorno para outros, define
a própria natureza de Cristo ! E quanto a nós
? Um cristianismo sem cruz não é cristianismo
de forma alguma, mas uma pobre imitação da doutrina
de Cristo. Uma vida cristã sem cruz não é
vida cristã de forma alguma, mas apenas um “ego”
adornado com os ensinos de Cristo ! Nós necessitamos
da cruz tratando profundamente conosco, para que possamos ser
homens e mulheres espirituais, vivendo vidas espirituais e andando
com Deus.
Durante a vida de fé
de Abraão nós constatamos a edificação
de 4 altares, erguidos no processo de sua jornada interior de
conhecimento de Deus e amizade com Ele. Cada um destes altares
aponta para um aspecto do trabalho da cruz em nossas almas,
ampliando nossa consagração, ou seja, o nosso
relacionamento com Deus e nossa verdadeira espiritualidade.
O 1º altar foi edificado
em Siquém ( Gn 12:6-7) , e podemos chamá-lo de
altar da revelação. Deus revelou-se ali a Abraão:
“Apareceu o Senhor a Abraão”. Precisamos
saber que a cruz e a revelação andam juntas. Na
medida em que a cruz trata conosco, é que teremos genuína
revelação de quem Deus é, de quem nós
somos, do que a igreja é e, do que o mundo é.
Carecemos da visão real destas 4 coisas para que vivamos
uma vida que seja verdadeiramente espiritual !
Por causa da cruz o apóstolo
João sabia quem Deus era: “Deus é Amor”,
e, “Deus é luz”( I Jo 4:8 e 1:5). Por causa
da cruz, ele sabia quem ele próprio era: “...seu
servo ( escravo ) João” ( Ap 1:1 ), e, “Eu,
João, irmão vosso e companheiro na tribulação,
no reino e na perseverança “( Ap1:9 ) Pela cruz,
ele sabia o que era a igreja: “Vem, mostrar-te-ei a noiva,
a esposa do cordeiro”. Pela cruz, ele sabia o que era
o mundo: “Não ameis o mundo”. Por outro lado,
toda genuína revelação de Deus a nós
implicrá em cruz, ou seja, requererá que depositemos
nossos corpos como sacrifício, no altar de Deus, para
que aquilo que de Deus foi revelado a nós, seja “formado”em
nós, e não fique apenas em nosso intelecto como
informação a respeito de Deus. Este oferecer do
nosso ser ao Senhor, diariamente, a fim de que o trabalho da
cruz possa reduzir-nos a cada vez mais, fazendo Cristo aumentar
em nós, isto é consagração.
Lembremo-nos ainda que,
embora seja a regeneração, o nascer de novo, que
marca o início de nossa vida cristã, é
a consagração que marca o início do nosso
crescimento até a maturidade cristã !
2º altar na história
de Abraão foi edificado entre Ai e Betel ( Gn 12:8 ),
e podemos chamá-lo de altar da separação.
Abraão deixou Ai para trás e tinha Betel diante
dele. Ai significa, literalmente, " monte de ruínas"
e Betel significa “Casa de Deus”. Aqui podemos dizer
que é a vida de altar, a consagração, que
permite que a cruz separe-nos do mundo, do amor ao mundo, de
“tudo o que há no mundo” ( cobiças,
concupiscências e soberba ). A cruz coloca o mundo para
trás de nós e mantém viva e clara diante
de nós a visão da Casa de Deus ( Betel ) ! E não
somente a visão de Betel, mas a cruz operando em nós
habilita-nos a participar de Betel, a “sermos edificados
casa espiritual, para sermos sacerdócio santo...”
( I Pe 2:5 ):
A cruz introduz-nos na
igreja. Cristo passou pela cruz e a igreja surgiu, nós
também precisamos “passar pela cruz” para
que a igreja, em sua realidade prática e viva, possa
surgir. Só a cruz pode separar-nos do mundo e introduzir-nos
na Casa de Deus. Diante de Deus, por causa da obra da cruz de
Cristo no calvário; nós já somos a Casa
de Deus, a igreja, o corpo de remidos. Mas, o lado subjetivo
desta verdade, ou seja, refletir em nosso viver, conduta e relacionamentos
o fato espiritual de sermos Casa de Deus, depende do trabalho
da cruz em nossas vidas.
Note que após
este 2º altar, Abraão desce ao Egito “para
aí ficar” ( Gn 12:10 ), contrariamente à
vontade de Deus. Como acontece conosco, também Abraão
tinha já alguma experiência do altar, mas tinha
também seu “homem natural” não profundamente
tratado pelo Senhor. As suas escolhas, maneiras, idéias
e caminhos eram ainda bem independentes de Deus.
O Senhor tratou com ele,
misericordiosamente, como vemos em Gn 12:10 – 20, e o
trouxe de volta. Ele “fez as suas jornadas do Neguebe
até Betel, até ao lugar onde primeiro estivera
a sua tenda, entre Betel e Ai; até ao lugar do altar,
que outrora tinha feito...”. Abraão voltou ao mesmo
ponto de onde se desviou! Deus não pula etapas em nosso
discipulado. O trabalho da cruz em nós tem 2 lados: o
negativo e o positivo. Do lado negativo, “despe-nos do
velho homem”; do lado positivo, reveste-nos do novo homem”.
Mas atente para este fato: Quando Deus trata com as coisas negativas
de nossa vida diante d’Ele, este tratar não é
a essência da santificação, pois esta é
essencialmente positiva ! Deus reconduz-nos do ponto de onde
nos desviamos d’Ele para, a partir dali, com a vida de
altar restaurada, andarmos novamente com Ele e assim prosseguirmos
compartilhando do Seu caráter em amizade com Ele. Ainda
acrescentamos que, este tratar de Deus conosco em uma área
específica de nossa vida ( como esta da escolha de Abraão
de ir ao Egito ), é um tratar progressivo e cada vez
mais profundo,pois, veja que anos depois, Abraão novamente
escolhe erradamente um caminho natural, uma maneira e idéia
naturais, para ajudar a Deus a gerar Isaque, e gera Ismael !
O 3º altar erguido
por Abraão, foi levantado logo após a sua separação
de Ló ( Gn 13:14–18 ).
Aqui temos mais um degrau
na vida consagrada de Abraão. Este faz a escolha, mas
por causa da contenda entre seus pastores e os de Ló,
ele pede a Ló que se aparte dele escolhendo seu próprio
caminho. Ló faz uma escolha de alguém que realmente
não conhecia o altar ! Ele escolhe “a campina do
Jordão”, uma terra boa para sua prosperidade econômica,
e vai armando suas tendas até Sodoma, um lugar de julgamento,
figura do mundo !
Podemos chamar este 3º
altar de altar da comunhão. Ele foi edificado em Hebrom
que significa “comunhão, união”. A
cruz habilita-nos a ter aquela incessante comunhão com
Deus, aquela amizade com Deus, aquela vida de união com
Deus ! Como já disse Madame Guyon: “O Senhor se
coloca no exato lugar daquilo que Ele põe à morte
em nossas vidas”.
Já compreendemos
isso diante do Senhor ? Ele substitui para adicionar e Ele divide
para multiplicar. Quem conhece o Seu coração pode
confiar em suas mãos !
O 4º altar na vida
de Abraão foi erguido no Monte Moriá. Podemos
chamá-lo de altar da adoração ( Gn 22:1-14).
Este altar reflete a vida madura de Abraão, o quanto
ele já tinha aprendido diante do Senhor. É de
aceitação geral entre os estudiosos de tipologia,
que aqui Abraão até mesmo tipifica Deus, o Pai
eterno. O que vemos aqui é um homem absolutamente rendido
a Deus, a ponto de sacrificar seu único e amado filho,
um homem que amava a Deus a ponto de confiar em Seus caminhos,
um homem tão sensível à voz de Deus que
pôde discernir cada instrução de Deus em
cada passo do doloroso processo de sacrifício, um homem
que adorou no momento em que oferecia o que tinha de mais precioso
! Só a cruz nos torna verdadeiros adoradores do Pai.
Sem as marcas da cruz
em nossas vidas nós adoramos a nós mesmos, nós
consideramos nossas vidas e tudo que temos por demais preciosos
para serem oferecidos a Deus.
Na
verdade, neste altar, Deus coloca aquela parte mais íntima
e preciosa de Abraão, o próprio coração
de Abraão: Isaque. Deus assim tratou com o ser mais interior
de Abraão, e tornou-o um adorador. Que nosso querido
e fiel salvador faça o mesmo conosco, pela sua misericórdia
e para sua própria glória e honra.
É permitido
baixar este arquivo, copiar, imprimir e distribuir este material,
desde que explicite a autoria do mesmo.