"E
vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,
em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo
o príncipe das potestades do ar, do espirito que agora
opera nos filhos da desobediência, entre os quais todos
nós também antes andávamos nos desejos
da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos;
e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.
" - Efésios 2:1-3
(...) Continuação.
Basta para a primeira expressão, mas examinemos a segunda.
Esta se acha no fim do versículo três: "e
éramos por natureza filhos da ira, como os outros também".
Destaco as palavras "por natureza". Esta, obviamente,
é uma expressão sumamente importante. É
isso que explica por que somos filhos da desobediência
e por que temos esta atitude particular com relação
a Deus. O apóstolo a usa primariamente aqui, na explicação
do seu ensino de que estamos sob a ira de Deus . Estamos sob
a ira de Deus, diz ele, por natureza . Espero tratar disso mais
adiante. Agora quero mostrar que a expressão significa
algo mais que aquilo. Somos o que somos, em todos os aspectos,
"por natureza". Se vocês preferirem outra tradução,
poderiam usar em seu lugar a expressão "por nascimento",
"e éramos por nascimento filhos da ira, como os
outros também".
Noutras palavras, o ensino aqui é o mesmo ensino da Bíblia
toda concernente ao homem em pecado, ensino segundo o qual nascemos
neste mundo com uma natureza desobediente. Não nascemos
com equilíbrio justo, com a possibilidade de ir por este
ou aquele caminho. Nascemos com forte inclinação
unilateral . Davi o expressa memoravelmente no Salmo cinqüenta
e um, versículo cinco: "Eis que em iniquidade fui
formado, e em pecado me concebeu minha mãe". Que
profunda peça de auto-análise e de psicologia!
Se vocês querem psicologia, vão às Escrituras.
Aí está um homem, Davi, examinando-se. Tinham-no
feito lembrar-se do que ele fizera, o adultério e o homicídio
que se lhe seguiu . Ele é despertado e se examina a si
mesmo, e parece estar dizendo a si próprio: como pude
fazer isso? Como pode alguém fazer tal coisa? Que é
que torna um homem capaz disso? Que será? E, diz ele:
há somente uma resposta, e é tão profunda
como isto: em iniqüidade fui formado - "formado"
em iniqüidade - e "em pecado me concebeu minha mãe".
Esta doutrina não é popular hoje. O homem em pecado
jamais gostou dela. O que ele gosta de dizer, naturalmente,
é que todos nós nascemos neutros. Vejam aquela
criança, quão maravilhosa e perfeita! Bem, porque
é que ela peca quando cresce? Ora, dizem eles, vocês
vêem aqui qual é o problema; é o mundo pecaminoso
ao qual ela vem: ela vê coisas más, vê maus
hábitos, e aos poucos vai sendo influenciada por eles.
Dizem eles que com a criança tudo está bem, mas
com o ambiente não. Se tão-somente a criança
fosse colocada num mundo perfeito, ela permaneceria perfeita;
entretanto, vem a um mundo imperfeito e vê e pega hábitos,
ouve falar e vê as coisas que as pessoas fazem, e gradativamente
assimila essas coisas e as pratica. É tudo questão
de ambiente, mau exemplo, má influência. Não,
diz a Bíblia, não é não. Essa criança
foi formada em iniqüidade, e foi concebida e nasceu em
pecado. Quando vimos a este mundo, a nossa natureza já
está corrompida. Herdamos uma natureza pecaminosa dos
nossos antepassados e dos nossos pais; começamos com
isso. As tendências e os desejos estão todos ali,
e tudo o que o mundo faz é dar-nos um canal de escoamento.
Há dentro de nós uma rebelião, um desejo
de ter as coisas proibidas. Isso aparece logo no início.
É uma das primeiras coisas que manifestamos, todos nós.
Por quê? Bem, "por natureza".
Noutras palavras, o defeito central surge neste ponto da seguinte
maneira: inclinamo-nos a pensar no pecado em termos de atos
específicos da vontade; e daí nos inclinamos a
estar cegos para o fato de que somos pecadores independentemente
das nossas ações, de que o pecado está
em nós e é parte integrante da nossa natureza.
Devemos livrar-nos da idéia de que tudo está bem
conosco enquanto não chega a tentação e
caímos. Isso é verdade quanto a um pecado, uma
ação pecaminosa. Neste caso, eu exerci a minha
vontade e fiz o que não devia! Mas essa explicação
não é completa. A real questão é
esta: o que foi que me levou a esta ação? A resposta
é que foi "algo" que está dentro de
mim. Vejam as palavras do nosso Senhor, que falou disso uma
vez por todas: "O que contamina o homem não é
o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o
que contamina o homem. . . Porque do coração procedem
os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição..."
e tudo o mais (Mateus 15:11,19). A dificuldade está no
coração do homem. É esta natureza decaída,
pecaminosa. É o que Paulo chama, no capítulo sete
de Romanos "a lei do pecado que está nos meus membros";
"em mim, isto é, na minha carne, não habita
bem algum". Ela é corrupta, é má,
por natureza. "Somos por natureza filhos da ira, como os
outros também."
Isso é de vital importância. Se a outra teoria
estiver certa e o homem nasce mais ou menos neutro, e se os
seus problemas forem causados pelo fato de que as coisas más
ou um mau ambiente o levam a extraviar-se, então, tudo
o que você terá que fazer é tratar do ambiente.
E essa tem sido a filosofia dominante nos últimos sessenta
a setenta anos. Tem-se considerado o problema como sendo um
problema de educação, de moradia e de melhoria
econômica, quase exclusivamente. Só tínhamos
que dar ao homem as condições certas, e dar-lhe
o ambiente certo e o conhecimento adequado, e ele estaria totalmente
bem. No entanto, hoje em dia, seguramente, temos que começar
a compreender que a verdade não é essa, que isso
não funciona. Vocês podem dar ao homem as condições
mais ideais, e ele irá mal. Foi no Paraíso que
o homem caiu! E se o homem, em suas perfeitas condições
originais, pôde cair em pecado, quanto mais o homem já
decaído! Este é um princípio que por si
mesmo se demonstra em todas as relações humanas,
em toda parte. É uma lástima, mas o problema e
a tragédia estão em um nível muito profundo.
A Bíblia não está sozinha neste ensino.
Shakespeare o expôs de maneira memorável: "O
defeito caro Brutus, não está em nossas estrelas,
mas em nós, que somos desprezíveis. "Por
natureza"! Começamos com isso, com uma tendência
para o mal, tendo a vontade em escravidão, sob o domínio
de satanás, com cobiças e maus desejos, como veremos,
já ali e esperando por uma oportunidade para demonstrar-se
e manifestar-se.
Passamos a seguir à palavra muito importante "todos".
"Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo,
segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito
que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os
quais todos nós também antes andávamos
nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos
pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira"
- e de novo ele o diz - "como os outros também."
Ou, se vocês preferirem outra tradução -
"como o restante da humanidade";. "Todos",
é universal. Ora, isso é uma coisa impressionante.
Este ponto era muito apropriado para o argumento particular
do apóstolo precisamente aqui. Seu tema é, vocês
se lembram, como Deus em Cristo, na plenitude dos tempos, vai
reunir as coisas em Cristo, "tanto as que estão
nos céus como as que estão na terra" . E
diz o apóstolo que Ele já começou a fazê-lo.
No capítulo primeiro, versículo onze, ele afirma
que alguns que são judeus creram no evangelho e estão
no reino. Ele prossegue, dizendo que alguns que eram gentios
também obtiveram herança. Aqui ele retoma o ponto
- "E vos vivificou". Ele fez a mesma coisa com vocês,
gentios. Mas seu grande desejo é que ninguém pense
que ele está dizendo estas coisas somente acerca dos
gentios. Não, "todos" nós andávamos
nos desejos da nossa carne, "todos" nós éramos
filhos da ira, como os outros também. O que ele diz aqui
sobre o homem em pecado é verdade com relação
ao judeu, como também com relação ao gentio.
Como era difícil para o judeu acreditar nisso! Durante
séculos ele tinha acreditado que estava completamente
separado: o judeu! Fora estavam os cães, os gentios,
os estrangeiros. Estes estavam fora da "comunidade de Israel".
O judeu era filho de Deus, estava a salvo porque era judeu.
Ele era totalmente justo e melhor do que todos os outros que
eram pecadores, os cães dos gentios, os quais estavam
fora. Como lhe era difícil aceitar uma doutrina que afirma
que ele era tão pecador como o gentio! Essa era a pedra
de tropeço para o judeu ; ele não gostava disso.
E esta classificação da humanidade ainda se vê
em diferentes formas e moldes. No entanto, aqui o apóstolo
diz, "não somente os gentios", mas "também
os judeus". E vocês notam que até a si mesmo
ele inclui. Tendo começado com vós , agora diz
"nós". Essa é a verdade a respeito de
Paulo, o apóstolo ! É inimaginável, não
é? Mas essa fora a tragédia da sua vida antes
da sua conversão. Como Saulo de Tarso, ele estava satisfeito
com a sua vida; "segundo a justiça que há
na lei, irrepreensível" (Filipenses 3:6). E (em
Romanos, capítulo 7) ele nos conta como foi que veio
a enxergar o seu erro. Foi quando ele entendeu a lei, que dizia:
"Não cobiçarás". Então
"reviveu o pecado, e eu morri". Quando se deu conta
de que a lei dizia "você não pode desejar",
"você não pode cobiçar", ele viu
o real significado da lei e viu que ele era um terrível
pecador. Escrevendo a Timóteo, ele diz: "Esta é
uma palavra fiel, e digna de toda aceitação, que
Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais
eu sou o principal" (I Timóteo 1 : l 5). Ele se
considera o principal dos pecadores. "Todos nós
também antes andávamos nos desejos da nossa carne...".
Esta é a verdade com referência a "todos".
Todavia, as pessoas ainda são muito lerdas para ver isso.
Dizem elas: veja esta descrição do pecado que
você faz naqueles três versículos. É
claro, diz o homem, que eu posso ver muito bem que isso se aplica
a certas pessoas. Eu ando pelas ruas e vejo aquele pobre bêbado,
e aquela mulher decaída. Vejo pecado em seus trapos e
em seus vícios. Você está totalmente certo
no que diz com relação a tais pessoas e quando
fala de uma natureza má e das luxúrias da carne,
das luxúrias da mente, e assim por diante. Concordo plenamente
com você. Mas nós não somos daquele tipo
de gente. Porventura não existe gente boa, de boa moral,
e decente, gente íntegra e religiosa? Você está
falando isso dessa gente? A resposta do apóstolo Paulo
é "todos", "como os outros também";
toda a humanidade, sem uma única exceção.
Todos fomos formados em iniqüidade, concebidos em pecado.
"Todos" nós temos esta natureza pecaminosa.
O erro fatal é pensar no pecado sempre em termos de atos
e ações, e não em termos de natureza e
de disposição. O erro está em pensar nele
em termos de coisas particulares em vez de pensar nele, como
devíamos, em termos de nossa relação com
Deus. Vocês querem saber o que é o pecado? Eu lhes
direi. Pecado é exatamente o oposto da atitude e da vida
que se enquadram em , "Amarás ao Senhor teu Deus
de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e
de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento".
Se você não está fazendo isso, você
é um pecador. Não importa quão respeitável
você seja; se você não está vivendo
inteiramente para a glória de Deus, você é
um pecador. E quanto mais você imaginar que é perfeito
em si mesmo e independentemente de sua relação
com Deus; maior será o seu pecado. É por isso
que qualquer um que leia o Novo Testamento objetivamente poderá
ver claramente que os fariseus dos tempos do nosso Senhor eram
maiores pecadores (se se pode empregar tais termos) do que os
publicanos e os pecadores declarados. Por quê? Porque
eles se davam por satisfeitos consigo mesmos, porque eram auto-suficientes.
O cúmulo do pecado é a pessoa não sentir
necessidade da graça de Deus. Não existe pecado
maior do que esse. Infimamente pior do que cometer algum pecado
da carne é você achar que é independente
de Deus, ou achar que Cristo jamais precisou morrer na cruz
do Calvário. Não há maior pecado do que
esse. A auto-suficiência final, a auto-satisfação
final e a justiça própria, é o pecado dos
pecados; é o cúmulo do pecado, porque é
pecado espiritual. Assim, quando você chega a compreender
isso, passa a compreender que o apóstolo não está
exagerando quando diz "todos nós", "como
os outros também".
Esse é o homem em pecado, e é verdade universal
. Há somente uma explicação adequada disso.
É a que nos é dada no começo do livro de
Gênesis. É a doutrina bíblica da Queda e
do pecado original . Não se pode compreender o mundo
moderno à parte da doutrina do pecado original. Tudo
aconteceu da seguinte maneira: um homem, Adão, o representante
da humanidade, pecou, rebelou-se e caiu. E as conseqüências
passaram a toda a sua progênie. Eu os desafio a explicarem
a universalidade do pecado em quaisquer outros termos. Simplesmente
não se pode fazer isso. Todas as outras teorias caem
por terra. É por isso que temos que crer nos primeiros
capítulos de Gênesis, se é que devemos crer
no Novo Testamento. Sem isso não se pode ter uma verdadeira
doutrina da salvação. As duas coisas vão
juntas, como Paulo o prova no capitulo cinco da Epístola
aos Romanos e de novo, e exatamente da mesma maneira, no capítulo
quinze da Primeira Epístola aos Coríntios. Esse
é o problema do homem; e é por isso que o homem
é como é. Adão caiu, Adão pecou;
e o resultado é que toda a semente de Adão nasce
em corrupção, com uma natureza corrupta. É
universal, acontece em toda parte. É isso que "estabelece
o parentesco do mundo inteiro"; é isso que torna
absurdas todas as suas "cortinas", todas as suas barreiras
de cor e todas as suas filosofias. Nisso o mundo inteiro é
um só. Todos nós estamos em pecado, somos filhos
da desobediência, herdeiros de uma natureza decaída
que se expressa e se manifesta da maneira como iremos considerar
- "nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne
e dos pensamentos , estando pois, sob a ira de Deus e completamente
desamparados .
Deixo o assunto nesta altura, porque estou pregando com a suposição
de que me estou dirigindo a cristãos. Mas se eu estivesse
pregando isto a um auditório misto, não pararia
aí, não me atreveria a parar aí. Eu continuaria,
dizendo: "Mas, quando estávamos nesta situação,
em Sua infinita graça e amor e misericórdia, Deus
nos vivificou". Nada menos que isso poderia fazê-lo.
Que outra coisa mais poderia tratar do homem em tais condições?
Nada menos que o soberano poder de Deus - o poder que, como
Paulo dissera ao final do capítulo primeiro, fez o Senhor
Jesus ressuscitar dentre os mortos e O elevou e O colocou "à
sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder,
e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia".
Nada menos que o poder de Deus pode resgatar e redimir e salvar
o homem. Entretanto, Ele o fez em Cristo. E nós, que
somos cristãos, fomos levantados daquela terrível
condição em que estivéramos outrora, unicamente
por causa da Sua maravilhosa graça.
•
• Nota: Extraído, com permissão, do livro
"Reconciliação: Método de Deus"
- Exposição sobre Efésios 2 - Editora PES
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