Cap.
3: Buscai o Reino
INTRODUÇÃO
A vida espiritual é um dom. É o dom do Espírito
Santo, que nos introduz no reino do amor de Deus. Mas dizer
que ser introduzido no reino de Deus é um dom divino
não quer dizer que esperamos passivamente até
que o dom se nos ofereça. Jesus nos fala para buscar
o reino. Buscar alguma coisa envolve não somente aspiracão
séria mas também determinacão forte. A
vida espíritual requer esforço humano. As forças
que sempre nos puxam de volta a uma vida cheia de preocupação
não são fáceis de se vencer. "Quão
dificilmente", Jesus exclama, "entrarão no
reino de Deus ..." (Mc 10:23). E para nos convencer da
necessidade de trabalho duro, ele diz: "Se alguém
quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz
e siga-me" (Mt 16:24)
Neste
ponto tocamos a questão de disciplina na vida espiritual.
A vida espiritual sem disciplina é impossível.
Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática
de uma disciplina espiritual nos torna mais sensíveís
à voz tranqüila e suave de Deus. O profeta Elias
não encontrou Deus no vento forte nem no terremoto e
nem no fogo, mas no cicio tranqüilo (1 Rs 19:11-13). Através
da prática de uma disciplina espiritual tornamo-nos sensíveís
à essa voz tranqüila e prontos a responder quando
a ouvimos.
Em
relação a tudo que eu disse sobre nossas vidas
preocupadas e sobrecarregaras é claro que geralmente
estamos envolvidos, interior e exterior que fica realmente difícil
ouvir a voz de Deus quando Ele nos está falando. Muitas
vezes tornamo-nos surdos, incapazes de saber quando Deus nos
chama, incapazes de entender em que direção nos
chama. Desta forma nossas vidas se tornam um absurdo. Na palavra
absurdo encontramos a palavra latina surdus, que significa "surdo".
A vida espiritual requer disciplina porque precisamos aprender
a ouvir a Deus. que constantemente fala mas a quem raramente
ouvimos. Porém, quando aprendemos a ouvir, nossas vidas
se tornam vidas obedientes. A palavra obediente vem da palavra
latina obaudire, que significa "ouvir". É necessário
ter uma disciplina espiritual se quisermos mudar lentamente
de uma vida absurda para uma vida obediente, de uma vida cheia
de preocupações agitadas para uma vida em que
há espaço livre no nosso interior para ouvir nosso
Deus e seguir sua orientaçao. A vida de Jesus foi uma
vida de obediência. Estava sempre escutando o Pai, sempre
atento a sua voz, sempre alerta as suas direções.
Jesus era "todo ouvidos". Isto é a verdadeira
oração: ser todo ouvido para Deus. O cerne de
toda oração é realmente ouvir, permanecer
obedientemente na presença de Deus.
Uma
disciplina espiritual, portanto, é um esforço
concentrado para criar um pouco de espaço interior e
exterior em nossas vidas, onde esta obediência pode ser
praticada. Através de uma disciplina espiritual impedimos
que o mundo preencha nossas vidas de tal forma que não
haja mas lugar para ouvir. Uma disciplina espiritual nos liberta
para orar, ou melhor dizendo, liberta o Espírito de Deus
para orar em nós.
Vou
apresentar agora duas disciplinas pelas quais podemos "buscar
o reino". Podem ser consideradas como disciplinas de oração.
São a disciplina de solidão e a disciplina de
comunidade.
SOLIDÃO
Sem solidão é virtualmente impossível viver
uma vida espiritual. Solidão começa com um tempo
e lugar para Deus e somente para ele. Se realmente cremos que
Deus não somente existe mas também está
ativamente presente em nossas vidas - curando, ensinando, e
dirigindo - precisamos reservar um tempo e um espaço
para lhe dar nossa atenção ininterrupta. Jesus
disse: "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto,
e fechada a porta orarás a teu Pai que está em
secreto..." (Mt 6:6).
Produzir
um elemento de solidão em nossas vidas é uma das
disciplinas mais necessárias mas também mais difíceis.
Mesmo que tenhamos um desejo profundo por solidão verdadeira,
também experimentamos uma certa apreensão quando
nos aproximamos deste lugar e tempo solitários. Uma vez
que estamos sós, sem pessoas com quem conversar, livros
para ler, TV para assistir, ou telefonemas para fazer, um caos
interior se revela em nós. Este caos pode ser tão
perturbador e tão confuso que não vemos a hora
de nos ocuparmos novamente. Portanto, entrar num quarto à
parte e fechar a porta, não significa que
Imediatamente
excluímos todas nossas dúvidas interiores, ansiedades,
medos, maus pensamentos,
Conflitos
insolúveis, sentimentos de ira, desejos impulsivos. Ao
contrário, quando nos afastamos de nossas distrações
exteriores, frequentemente descobrimos que nossas distrações
interiores se manifestam a nós com toda a sua força.
Muitas vezes usamos as distrações exteriores para
nos proteger dos barulhos interiores. Desta forma não
é de se admirar que tenhamos dificuldade para ficar sozinhos.
A confrontação com nossos conflitos interiores
pode ser dolorosa demais para ser suportada.
Isto
torna a disciplina de solidão ainda maís importante.
Solidão não é uma resposta espontânea
a uma vida ocupada e preocupada. Há razões de
sobra para não ficar sozinho. Portanto, devemos começar
planejando cuidadosamente um tempo de solidão. Cinco
ou dez minutos por dia pode ser o máximo que toleramos.
Talvez estejamos prontos para uma hora todo o dia, uma tarde
toda semana, um dia
todo
mês, ou uma semana todo ano. A quantidade de tempo vai
variar para cada pessoa de acordo com o temperamento, idade,
trabalho, estilo de vida e maturidade. Mas não estamos
levando a vida espiritual a sério se não reservamos
algum tempo para estar com Deus e ouvi-lo. Talvez tenhamos que
escrever isto em preto e branco em nossa agenda diária
para que mais ninguém possa nos roubar este período
de tempo. Então poderemos dizer aos nossos amigos, vizinhos,
alunos, fregueses, clientes, ou pacientes: "Desculpe, mas
já fiz um compromisso neste horário que não
pode ser mudado".
Uma
vez que nos comprometemos a gastar tempo em solidão,
desenvolvemos uma sensibilidade à voz de Deus em nós.
No início, durante os primeiros dias, semanas, ou até
meses, podemos ter o sentimento de que estamos simplesmente
perdendo tempo. Tempo em solidão no início pode
parecer nada mais que um tempo no qual somos bombardeados por
milhares de pensamentos e sentimentos que emergem das áreas
escondidas de nossa mente. Um dos mais antigos escritores cristãos
descreve o primeiro estágio de oração solitária
como a experiência de um homem que, depois de viver anos
com as portas abertas, de repente decidiu fechá-las.
Os visitantes que costumavam vir e entrar em sua casa começam
a bater nas suas portas, indagando porque não se lhes
permite a entrada. Somente quando compreendem que não
são bem vindos, aos poucos param de vir. Esta é
a experiência de alguém que decide entrar em solidão
depois de uma vida sem muita disciplina espiritual. No início,
as muitas distrações continuam se apresentando.
Depois, à medida que recebem menos e menos atençao,
lentamente se retiram.
É
claro que o importante é a fidelidade à disciplina.
No início, solidão parece tão contrária
aos nossos desejos que somos constantemente tentados a nos esquivar
disso. Uma maneira de se esquivar é divagar na mente
ou simplesmente cair no sono. Mas quando nos dedicamos à
nossa disciplina, na convicção que Deus está
conosco mesmo quando ainda não o escutamos, lentamente
descobrimos que não queremos perder nosso tempo à
sós com Deus. Apesar de não experimentarmos muita
satisfação em nossa solidão, compreendemos
que um dia sem solidão é menos "espiritual"
do que um dia com solidão.
Intuitivamente,
compreendemos que é importante gastar tempo em solídão.
Até começamos a aguardar com expectativa este
estranho período de inutilidade. Este desejo por solidão
muitas vezes é o primeiro sinal de oração,
a primeira indicação de que a presença
do Espírito Deus não despercebida. Quando nos
esvaziamos de nossas muitas preocupações conseguimos
entender não somente com nossa mente mas também
com nosso coração que nunca estivemos realmente
sós, que o Espírito de Deus estava sempre conosco.
Desta forma conseguimos compreender o que Paulo escreve aos
Romanos: "... a tribulação produz perseverança;
e a perseverança, experiência; e a experiência,
esperança. Ora, a esperança não confunde,
porque o amor de Deus é derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado" (Rm
5:3-5). Em solidão, chegamos a conhecer o Espírito
que já nos foi outorgado. As dores e as lutas que encontramos
em nossa solidão se tornam desta forma o caminho de esperança,
porque nossa esperança não é baseda em
alguma coisa que acontecerá depois que nossos sofrimentos
terminarem, mas na presença real do Espírito de
Deus que nos cura no meio destes sofrimentos. A disciplina de
solidão nos permite gradativamente entrar em contato
com a presença esperançosa de Deus em nossas vidas,
e também nos permite experimentar mesmo agora as primícias
de gozo e paz que pertencem ao novo céu e à nova
terra.
A
disciplina de solidão, como tenho descrito aqui, é
uma das mais poderosas disciplinas para desenvolver uma vida
de oração. É um caminho simples, embora
dificil, para nos libertar da escravidão de nossas ocupações
e preocupações e começar a ouvir a voz
que faz novas todas as coisas.
Deixe-me
dar uma descrição mais concreta de como a disciplina
de solidão pode ser praticada. É uma grande vantagem
ter um quarto ou um canto de quarto ou um quartinho! - reservado
à disciplina de solidão. Tal lugar "arrumadinho"
ajuda-nos a buscar o reino sem gastar tempo com preparativos.
Algumas pessoas gostam de decorar este lugar, mas o importante
é que o lugar de solídão seja um lugar
simples e ordenado. Lá ficamos na presença do
Senhor. "Nossa tentação é fazer alguma
coisa útil: ler algo estimulante, pensar sobre uma coisa
interessante, ou experimentar algo extraordinário. Mas
nosso momento de solidão é exatamente um momento
em que queremos estar na presença de nosso Senhor de
mãos vazias, nus, vulneráveis, inúteis,
sem nada para apresentar, provar, ou defender. É assim
que, lentamente, aprendemos a ouvir a voz tranquila de Deus.
Mas o que fazer com nossas muitas distrações?
Devemos lutar contra estas distrações e esperar
que desta forma nos tornemos mais atentos à voz de Deus?
Isto não parece ser a maneira de se entrar em oração.
Criar um espaço vazio onde podemos ouvir o Espírito
de Deus não é fácil quando colocamos toda
nossa energia na luta contra as distrações. Se
confrontamos as distrações de maneira tão
direta, acabamos lhes dedicando mais atenção que
merecem. Temos porém, as palavras das Escrituras para
dedicar nossa atenção.
Um
salmo, uma parábola, uma hístória bíblica,
uma declaração de Jesus, ou uma palavra de Paulo,
Pedro,Tiago, Judas ou João, pode nos ajudar a focalizar
nossa atenção à presença de Deus
. Desta forma impedimos "todas estas coisas" de Ter
poder sobre nós.Ouando colocamos as palavras das Escrituras
no centro de nossa solidão, tais palavras seja uma pequena
expressão, umas poucas sentenças ou um texto mais
longo - podem funcionar com ponto ao qual retornamos quando
nos desviamos para diferentes direções. Formam
um ancoradouro seguro mum mar tempestuoso. No fim de tal período
na presença tranqüila de Deus podemos, através
de oração intercessória, levar todas as
pessoas que fazem parte de nossa vida, tanto amigos como também
inimigos à sua presença restauradoura. E por que
não concluir com as palavras que o próprio Jesus
nos ensinou: O Pai Nosso?
Isto
é somente uma das formas especificas nas quais a disciplina
de solidão pode ser praticada. Infinitas variações
são possíveis. Passeios no campo, a repetição
de orações curtas tais como a oração
de Jesus, formas simples de cantochãos, certos movimentos
ou posturas - estes e muitos outros elementos podem se tornar
uma parte útil da disciplina de solidão. Mas temos
de decidir que forma especifica desta disciplina melhor nos
convém, e na qual podemos perseverar. É melhor
ter uma prática diária de dez minutos em solidão
do que ter uma hora completa de vez em quando. É melhor
se tornar familiar com uma postura do que ficar sempre experimentando
novas posturas. Simplicidade e regularidade são os melhores
guias para achar nosso caminho. Permitem-nos fazer da disciplina
de solidão outra parte da nossa vida diária tanto
quanto comer ou dormir. Quando isto acontece, nossas preocupações
barulhentas perderão lentamente seu poder sobre nós
e a atividade renovadora do Espíríto de Deus aos
poucos se manifestará.
Embora
a disciplina de solidão exija que separemos para isso
tempo e espaço, no final de tudo o importante é
que nossos corações se tornem aposentos tranqüilos
e que Deus possa habitar, onde
quer
que vamos e o que quer que façamos. Quanto mais nos treinarmos
a gastar tempo com Deus e unicantente com ele, maís descobríremos
que em todo o tempo e em todo o lugar Deus está conosco
. Então poderemos reconhacê-lo mesmo no meio de
uma vida atarefada e ativa. Depois que a solidão de tempo
e espaço se torna solidão de coração,
nunca haveremos de deixar aquela solidão. Poderemos viver
a vida espiritual de qualquer lugar e em qualquer tempo. Desta
forma a disciplina da solidão capacita-nos a viver uma
vida ativa no mundo, enquanto pernanecemos constantemente na
presença do Deus vivo.
COMUNIDADE
A disciplina de solidão não se mantém sozinha.
Está intimamente relacionada com a disciplina de comunidade.
Comunidade como disciplina é o esforço de criar
um espaço livre e vazio entre pessoas, onde juntos possamos
praticar verdadeira obediência. Através da disciplina
de comunidade nos prevenimos de nos apegar um ao outro com sentimentos
de medo e isolamento, e criamos um espaço livre para
ouvir a voz libertadora de Deus.
Pode
parecer estranho falar de comunidade como disciplina mas sem
disciplina comunidade se torna uma palavra "mole",
referindo-se mais a um lugar seguro, aconchegante e exclusivo
do que ao espaço onde se pode receber vida nova e desenvolvê-la
à sua plenitude. Em qualquer lugar onde se acha verdadeira
comunidade, disciplina é decisivo. É decisivo
não somente nas muitas velhas e novas formas de vida
em comum, mas também nos relacionamentos sustentadores
de amizade, casamento, e família. Criar espaço
para Deus entre nós requer o constante reconhecimento
do Espírito de Deus um no outro. Depois de ter conhecido
o Espíríto vivificante de Deus no centro de nossa
solidão, tornando-nos capazes desta forma a afirmar nossa
verdadeira identidade, passamos a ver também o mesmo
Espírito vivificante falando-nos através de nossos
companheiros humanos. E quando chegamos a reconhecer o Espírito
vivificante de Deus como, a fonte de nossa vida em conjunto,
mais facilmente também ouviremos sua voz em nossa solídão.
Amizade,
casamento família, vida religiosa e toda outra forma
de comunidade é solidão saudando solidão,
espírito falando a espírito, coração
chamando coração. É o grato reconhecimento
do chamado de Deus para compartilhar a vida juntos e o alegre
oferecimento de um espaço hospitaleiro onde o poder recriador
do Espírito de Deus pode se manifestar. Desta maneira
todas as formas de vida em conjunto podem se tornar maneiras
de manifestar um ao outro a presença real de Deus em
nosso meio.
Comunidade
não tem muito a ver com compatibilidade mútua.
Semelhanças em "background" educacional, constituição
psicológica, ou posição social, podem nos
atrair um ao outro, mas nunca podem ser a base para comunidade.
Comunidade é fundamentada em Deus, que nos chama a viver
juntos, e não na atratividade mútua das pessoas.
Há muitos grupos que se constituíram a fim de
proteger seus próprios interesses, defender sua própria
posição, ou promover suas próprias causas,
mas nenhum destes é uma comunidade cristã. Ao
invés de romper os muros de medo e criar novo espaço
para Deus, fecham-se a intrusos reais ou imaginários.
O ministério da comunidade é exatamente seu envolvimento
de todas as pessoas, quaisquer que sejam suas diferenças
individuais, permitindo-lhes viver juntas como irmãos
e irmãs de Cristo e filhos e filhas do seu Pai celeste.
Eu
gostaria de descrever uma forma concreta desta disciplina de
comunidade. É a prática de ouvir juntos. Em nosso
mundo prolixo geralmente gastamos nosso tempo juntos falando.
Sentimo-nos mais confortáveis compartilhando experiêncías,
discutindo assuntos interessantes, ou argumentando problemas
sociais. É através de uma troca verbal muito ativa
que tentamos nos descobrir um ao outro. Mas muitas vezes descobrimos
que as palavras funcionam mais como muros do que como portões,
mais como formas de manter a distância do que para se
aproximar. Muitas vezes - até contra nossa vontade -
percebemo-nos competindo mutuamente. Tentamos provar um ao outro
que merecemos atenção, que o que temos para mostrar
nos torna especiais- A disciplina de comunidade ajuda-nos a
ficar em silêncío juntos. Este silêncio disciplinado
não é um silêncio embaraçador, mas
um silêncio no qual prestamos atenção juntos
ao Senhor que nos chamou juntos. Desta forma chegamos a nos
conhecer mutuamente não como pessoas que se apegam ansiosamente
a sua auto-instituída identidade, mas como pessoas que
são amadas pelo mesmo Deus de uma forma muito íntima
e singular.
Aqui
- como ocorre com a disciplina de solidão - muitas vezes
são as palavras das Escrituras que podem nos levar a
este silêncio comunal. A fé, como Paulo diz, vem
pelo ouvir. Temos que ouvir a palavra um do outro. Quando nos
reunimos de diferentes contextos geográficos, históricos,
psicológicos, e religiosos, ouvir a mesma palavra falada
por pessoas diferentes pode criar em nós uma abertura
e vulnerabilidade comuns que nos permitem reconhecer que estamos
seguros juntos naquela palavra. Desta forma podemos descobrir
nossa verdadeíra identidade como comunidade, desta forma
podemos experimentar o que significa ser chamados juntos, e
desta forma podemos reconhecer que o mesmo Senhor que descobrimos
em nossa solidão também fala na solidão
do nosso próximo, seja qual for sua linguagem, denominação,
ou caráter. Através de ouvir juntos a palavra
de Deus, um silêncio realmente criativo pode se desenvolver,
Este silêncio é um silêncio impregnado com
a presença amorosa de Deus. Desta forma ouvir juntos
a palavra de Deus pode libertarnos de nossa competição
e rivalidade e permitir-nos reconhecer nossa verdadeira identidade
como filhos e filhas do mesmo Pai amoroso, irmãos e irmãs
do nosso Senhor Jesus Cristo, e conseqüentemente um do
outro.
Este
exemplo de disciplina de comunidade é um dentre muitos.
Celebrar juntos, trabalhar juntos, brincar juntos, todas estas
são maneiras pelas quais a disciplina de comunidade pode
ser praticada. Mas seja qual for seu tipo ou forma concreta,
a disciplina de comunidade sempre leva-nos além dos limites
de raça, sexo, nacionalidade, caráter, ou idade,
e sempre nos revela quem realmente somos diante de Deus e do
nosso próximo.
Através
da disciplina de comunidade nos tornamos pessoas; isto é,
pessoas que estão soando uma à outra (a palavra
latina personare significa "soar") uma verdade, uma
beleza, e um amor que é maior, mais profundo e mais rico
do que nós mesmos podemos compreender individualmente.
Em comunidade verdadeira somos janelas oferecendo constantemente
um ao outro novos panoramas do mistério da presença
de Deus em nossas vidas. Desta forma a disciplina de comunidade
é uma verdadeira disciplina de oração.
Faz-nos alertas à presença do Espírito
que clama "Aba", Pai, entre nós, orando assim
do centro de nossa vida em comum. Comunidade desta forma é
obediência praticada juntos. A questão não
é simplesmente. "Para onde Deus me leva como um
indivíduo tentando fazer sua vontade?" Mais básica
e mais significante é a questão, "Para onde
Deus nos leva como um povo?" Esta questao requer que prestemos
cuidadosa atenção à direção
de Deus em nossa vida coletiva e que juntos procuremos uma resposta
criativa. Aqui podemos ver como oração e ação
são realmente unidas, porque o que quer que façamos
como comunidade somente pode ser um ato de verdadeira obediência
quando é uma resposta àquilo que ouvimos da voz
de Deus em nosso meio.
Finalmente,
temos de lembrar que comunidade, como solidão, é
principalmente uma qualidade do coração. Embora
seja verdade que nunca conheceremos o que é comunidade
se não nos unirmos em um lugar, comunidade não
significa necessariamente estar fisicamente juntos. Podemos
muito bem viver em comunidade mesmo estando fisicamente sozinhos.
Em tal situação podemos agir livremente, falar
honestamente, e sofrer pacientemente por causa do vínculo
íntimo de amor que nos une com outros, mesmo quando tempo
e espaço nos separam deles. A comunidade de amor nao
só se estende além dos limites de países
e continentes mas também além dos limites de décadas
e séculos. Não somente a consciência daqueles
que estão longe mas também a memória dos
que viveram no passado podem levar-nos a uma comunidade que
nos cura, sustenta e dirige. O espaço para Deus na comunidade
transcende todos os limites de tempo e lugar.
Desta
forma a disciplina de comunidade libera-nos a ir aonde quer
que o Espírito nos guie, mesmo a lugares onde preferiríamos
não ir. Isto é a verdadeira experiência
pentecostal. Quando o Espírito desceu sobre os discípulos
que estavam trancados juntos com medo, eles foram libertos para
sair do seu quarto fechado para o mundo. Enquanto estavam reunidos
com medo ainda não se constituíam uma comunidade.
Mas quando receberam o Espírito, tornaram-se um corpo
de pessoas livres que podiam permanecer em comunhão um
com o outro mesmo quando estavam tão longe um do outro
quanto Roma está de Jerusalém. Desta forma, quando
é o Espírito de Deus e não o medo que nos
une em comunidade, nenhuma distância de tempo ou lugar
nos pode separar.
CONCLUSÃO
Através da disciplina de solidão descobrimos espaço
para Deus no mais íntimo de nosso ser. Através
da disciplina de comunidade descobrimos um lugar para Deus em
nossa vida em conjunto. Ambas as disciplinas se complementam,
exatamente porque o espaço dentro de nós e o espaço
entre nós são o mesmo espaço.
É
neste espaço divino que o Espírito de Deus ora
em nós. Oração é primeira e principalmente
a presença ativa do Espírito Santo em nossa vida
pessoal, e comunitária. Através das disciplinas
de solidão e comunídade tentamos remover - lentamente,
mas persistentemente - os muitos obstáculos que nos impedem
de ouvir a voz de Deus dentro de nós. Deus nos fala não
somente de vez em quando mas sempre. Dia e noite, durante o
trabalho e durante o lazer, na alegria e na dor, o Espírito
de Deus está ativamente presente em nós. Nossa
tarefa é permitir que esta presença se torne real
para nós em tudo que fazemos, dizemos ou pensamos. Solidão
e comunidade são as disciplinas pelas quais o espaço
se torna livre para percebermos a presença do Espírito
de Deus e respondermos destemidamente e generosamente. Quando
ouvirmos a voz de Deus em nossa solidão também
a ouviremos em nossa vida juntos. Quando ouvirmos a Deus em
nossos companheiros humanos, também o ouviremos quando
estivermos com ele sozinhos. Quer em solidão quer em
comunidade, quer sozinhos quer com outros, somos chamados para
viver vidas obedientes isto é, vidas de oraçao
incessante - "incessante" não por causa das
muitas orações que fazemos, mas por causa de nossa
sensibilidade à oraçao incessante do Espírito
de Deus dentro de nós e entre nós.
Fonte: www.icthus.com.br
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