A
igreja é a casa do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade.
Esta afirmação
bíblica, apresentada por Paulo a Timóteo, é
cheia de significado e traz consigo grandes implicações,
privilégios e responsabilidades (ver I Tm 3:14-16). A
cada geração de santos, é confiada a responsabilidade
de ser o “testemunho de Deus”, a uma geração
pervertida e corrupta, na qual devem resplandecer como luzeiros
no mundo (Fl 2:15). Uma tradução alternativa de
Sl. 90:16 e 17, ‘a’, diz: “Aos teus escravos
apareçam as tuas obras, e a seus filhos, a tua glória
. Seja sobre nós a beleza do Senhor nosso Deus”
(grifo meu ). Esse é o nosso privilégio. E responsabilidade!
Hoje, os desafios da
igreja no sec. XXI, não são diferentes daqueles
já enfrentados em seu passado histórico de conflitos,
que tanto nos encorajam a também “batalharmos diligentemente
pela fé que uma vez por todas, foi entregue aos santos”
( Jd 3).
Gostaria de considerar
aqui, o que, a meu ver, está no cerne do conflito da
igreja de todos os tempos, e ao mesmo tempo, representa um grande
desafio para nós, nestes tempos de densas trevas no mundo
e de superficialidade na vida da igreja.
Os mestres cristãos
sempre tiveram em seus ministérios, a difícil
tarefa de combinar contrapartes, para que a verdade de Deus
fosse mantida em equilíbrio divino. Sempre houve por
exemplo, a necessidade de combinar graça e verdade, privilégio
cristão e responsabilidade cristã, realidade interior
e conduta externa, amor e liberdade; apenas para citar alguns
exemplos.
Consideraremos aqui umacombinação
que penso ser vital até mesmo para a expressão
de todas as demais: é o equilíbrio entre reflexão
teológica e espiritualidade cristã. É uma
combinação fundamental porque significará
a harmonia entre mente e coração, entre verdade
teológica e verdade “encarnada”, entre fé
e experiência.
Note, por exemplo, que
o apóstolo Pedro sugeriu a eleição de diáconos
na igreja primitiva, para eles (os apóstolos) se dedicarem
à “oração e ao ministério
da palavra” (At 6:4), refletindo assim, a importância
desse equilíbrio, entre a palavra e a oração,
no serviço cristão .
Considerando primeiramente
o desafio à reflexão teológica, vemos sua
necessidade e importância em pelo menos 4 aspectos :
1) A fé deve ser
fundamentada na palavra de Deus
A igreja foi chamada
para ser um “povo da palavra”. Em todos os movimentos
de genuíno avivamento na história da igreja, vemos
sempre o retorno às Escrituras como um dos pontos nevrálgicos.
Observe também um relato de avivamento, na narrativa
de Neemias 8: 1-10. O povo de Deus havia retornado do cativeiro
babilônico de 70 anos. Esdras toma a lei e a lê
para o povo. Os levitas ensinavam o povo na lei. Liam e davam
explicações para que se entendesse o que era lido.
O povo chorava em arrependimento e adoração! Esdras,
Neemias e os levitas disseram então: “... não
vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é
a vossa força”. Onde estava a “alegria do
Senhor” ali? No fato da palavra ter sido aberta, lida,
explicada, entendida e frutificada em arrependimento contrito!
A palavra aberta, estudada,
conhecida e pregada é o meio para que a fé seja
gerada, renovada e fortalecida nos corações dos
homens.
Precisamos resgatar uma
fé bíblica por meio da revelação
viva e ardente da teologia bíblica e do Deus da Bíblia.
2) A centralidade da
Pessoa e obra de Cristo
É fácil
verificar com que frequência e agilidade nós perdemos
este foco divino, e não sem sérias consequências.
Com que facilidade nos volvemos de Cristo para outros “centros”.
Parece que, à semelhança da geração
do deserto, nossa alma tem fastio do “pão vil”
( o maná do céu, figura de Cristo ).
No viver da igreja,
Cristo é o centro. Ele é o alvo e o caminho. Ele
é o motivo e o sentido do viver comunitário.
A visão de sua
Pessoa gloriosa é plena satisfação e realização.
A visão de Sua obra consumada é fonte perene de
segurança e alegria. “Cristo formado em vós”
é a ambição de todo serviço na casa
de Deus. “Cristo é tudo, e em todos” é
o próprio fundamento sobre o qual a vida da igreja se
move e se edifica. Todo movimento do inimigo de Deus é
no sentido de colocar uma “boa coisa” ou uma “boa
causa” no centro de nossos corações.
Parece que a igreja não
mais tem expectativa de ver a Cristo na sua convivência
e no seu reunir, tantas são as distrações
e falsos centros que entulham o seu coração.
3) Uma visão do
desejo do coração de Deus - um fardo
A reflexão teológica
é o primeiro passo para virmos a participar das “dores
de parto” de Deus. Deus tem um fardo, um anseio em Seu
coração. Ele o revelou aos seus santos. Como interpretar
esse anseio na vida pessoal, relacional, funcional, enfim, em
todos os aspectos da vida de cada um de nós? Como viver
para o Seu inteiro agrado?
A meditação
nas Escrituras é o primeiro passo.
A reflexão teológica
visa ouvirmos a Deus e encararmos as mais penetrantes perguntas
da vida, sem fugir das respostas. Um dos problemas do academicismo
moderno, por exemplo, é fornecer respostas antes que
o aprendiz tenha entendido bem as perguntas!
A reflexão teológica
lança sementes que germinarão no solo de uma espiritualidade
cristã.
A.W. Tozer disse: “Somos
como crianças apressadas, correndo pelos corredores do
reino, sem saber o real valor de nada”. Isso está
tão aquém de nossa vocação celestial!
Fomos chamados não apenas para sermos beneficiários
da salvação de Deus, mas também cooperadores
no cumprimento do anseio do Seu coração. Sem verdadeira
reflexão teológica nunca seremos profetas, apenas
escribas repetindo a lei. Nunca seremos uma “voz que clama
no deserto”, apenas um eco que transmite impressões
de “segunda mão”.
Um dos maiores perigos
na vida cristã é o da palavra de Deus tornar-se
familiar e conhecida de nós, sem que participemos do
fardo de Deus, pelo cumprimento de Seus planos eternos, com
relação a nós e nossos irmãos.
4) Uma mente edificada
com a verdade
Apenas uma mente estruturada
com a palavra e pela palavra de Deus, pode eliminar a caminhada
inconstante de cada um de nós. A palavra de Deus precisa
ser aplicada à vida cotidiana: conflitos, temores, ansiedades,
tentações e cobiças, ambições,
etc.. Nunca eliminaremos a dicotomia entre o que “sabemos”
e o que vivemos de outra maneira que, não pela edificação
de uma mente evangélica em nós.
A reflexão evangélica
abrirá caminho para que tenhamos a “mente de Cristo”.
Lutero disse: “A graça é a experiência
de sermos libertos da experiência”. Sem a reflexão
teológica, sempre seremos escravos da experiência,
quer seja boa, quer seja má. Construiremos nossa “teologia
experimental”, baseada em nossos sentimentos e vivências,
e tentaremos encaixar Deus e os outros em nosso sistema filosófico
fixo de pensamento, que acabará nos afundando num abismo
de frustração, e vazio e incredulidade, pois Deus
não se deixará ser manipulado por nossos pensamentos
egocêntricos. Nossa mente natural é um cárcere,
e nossos pensamentos, os carcereiros. Apenas a luz de uma reflexão
teológica e bíblica, que nos revele o Deus vivo,
pode “guardar os nossos corações e mentes
em Cristo Jesus”.
Na ênfase à
reflexão teológica, enfatizamos o lugar da palavra
de Deus como centro da vida individual e comunitária
dos santos.
Considerando agora o
desafio a uma autêntica espiritualidade cristã,
veremos o lugar e significado da oração na vida
individual e coletiva dos santos. Já dissemos que a oração,
ou o solo da espiritualidade cristã, é o terreno
fértil no qual as sementes da palavra irão germinar
e frutificar.
Notemos pelo menos 5
aspectos que compõem e dão significado à
oração:
a) oração
é vida – Oração é uma atitude
do coração e não apenas um ato. É
uma postura do coração diante de Deus , “sem
cessar”( I Ts 5:17 ).
É não
permitir que qualquer coisa se interponha entre a face de Deus
e a nossa. Nunca permitir que um pecado não julgado (
seja ele em pensamento, motivo ou ação ) permaneça
em nós. Não é necessariamente um pensamento
consciente de Deus ou das coisas de Deus durante todo o tempo,
mas significa que nada terá permissão para nos
separar d’Ele.
Nós costumamos
fugir da vida em oração porque fugimos da vida
do coração. Adão fugiu e se escondeu e
nós continuamos escondidos do Onisciente. Davi perguntou:
“Para onde fugirei da Tua face? ( Sl 139 ). O mais impressionante
é que Deus nos convida para nos aproximarmos d’Ele
com as nossas fraquezas, tentações e mesmo pecados
( mesmo porque sem eles nós não seríamos
nós ! ) porque “os sãos não precisam
de médicos...”. Creio ser esse um dos graciosos
significados do “habitai em mim e eu habitarei em vós”(
Jo 15 ). Sem essa atitude do coração, a autêntica
espiritualidade é impossível. Oração
é a vida do coração.
b) Oração
é ser vulnerável – O sublime amor de Deus
sofre e suporta, mas não violenta nossas almas. O gracioso
Deus pede que concedamos a Ele acesso a nós mesmos. Esse
é outro gracioso significado do “habitai em mim
e eu em vós”. O Senhor pede o acesso aos nossos
corações para poder HABITAR em nós ( conforme
Paulo ora pelos Efésios: “e assim habite Cristo
nos vossos corações...”). Isso significa
que Ele ordenará a casa confusa de nossas vidas segundo
a Sua “morada de paz”. Nós costumamos receber
o Senhor em nossos corações como recebemos um
hóspede em nossa casa, ou seja, na sala de estar. Mas,
Ele sabe que nossa casa na verdade está arruinada! Ele
pede as chaves dos seus cômodos, um após o outro,
até chegar nas chaves dos porões. Se eu os conceder,
abrindo o meu ser ao seu amor curativo, vou me surpreender com
o “Deus de toda a graça”, quando vir que,
pelo seu trabalho habilidoso embora doloroso, Ele me “conduz
à Sua glória”( I Pe 5:10), mesmo agora,
nesta vida. Como? Dando-me o privilégio de refletir algo
da Sua beleza.
Isso é parte
do nosso chamamento celestial; isto é parte da glória.
Se não formos
vulneráveis a Deus, castigaremos a nós mesmos
e aos outros com nossos desejos inalcançáveis
e irreais de plenitude, e nos apegaremos a pessoas e coisas
com expectativas messiânicas.
c) Oração
é integração – Somos seres fragmentados.
Nosso coração é dividido em partes inconciliáveis
senão por meio de uma vida em oração. Em
provérbios 20:5 está escrito: “como águas
profundas são os propósitos do coração
do homem”, e no Sl 130:1, “das profundezas clamo
a Ti , Senhor”.
A oração
abre o caminho para a integralidade de nossos corações,
para sermos homens e mulheres integrais na presença de
Deus. Richard Foster, em seu livro “Celebração
da disciplina”, diz: “simplicidade é liberdade.
Duplicidade é escravidão”. A espiritualidade
autêntica resulta em paz, exatamente porque nosso coração
dividido “volta ao lar”. Isso não implica
em isenção de conflitos, mas significa que nossos
conflitos serão vistos sob uma nova perspectiva restauradora,
e vividos em torno de um novo centro: o grande amor do Pai.
Agostinho, em suas Confissões,
diz: “Enquanto não descansar em Ti, sou um peso
para mim mesmo”. Esta é a dura realidade da discrepância
que há dentro de nós, nas partes que constituem
nosso ser: pensamentos, emoções, imaginações
e desejos. Esta divisão escravizante deve ser considerada,
e nossos corações devem ser resumidos e integrados
em Deus, se desejarmos viver uma vida de qualidade espiritual.
d) Oração
é esperança – A separação
de Deus lançou nossos corações numa busca
insana por satisfação instantânea. Agarramo-nos
a tudo o que possa sugerir uma oferta de realização,
mesmo que seja por apenas um pouco de tempo. A oração
nos ensinará a viver na incompletude com serenidade,
e cultivará um espírito de expectativa enquanto
aguardamos as Bodas. Esta viva esperança, nutrida por
um coração de amor ao mestre, nos manterá
na posição de peregrinos em terra estranha. A
busca de satisfação instantânea tira nossos
corações da posição de peregrinos
e transforma-nos em errantes, pois o que caracteriza o peregrino
é “estar procurando uma pátria” (
Hb 11:13-16). Na parábola do tesouro oculto no campo
( Mt 13:44 ) aprendemos que, encontrar o tesouro apenas nos
coloca na busca pelo próprio tesouro. E somente a oração
nos tornará capazes de “vendermos tudo o que temos”,
para possuir o tesouro. “A esperança que se vê
não é esperança: pois o que alguém
vê, como o espera”? ( Rm 8:24). A esperança
mantém nossos corações no caminho, com
paciência, livres do mundanismo, até aquele dia
em que chegaremos ao lar. Uma vida genuinamente espiritual é
marcada pela esperança.
e) Oração
é união – Pela oração, viveremos
uma espiritualidade cristã marcada também pela
união. União com Deus, união com nós
mesmos, e com o próximo.
Já vimos que
a oração é integração pessoal
operada em nosso próprio ser. Oração é
também união com Deus e com o outro, sendo a união
com Deus o próprio fundamento de tudo.
O conjunto de Salmos,
chamados “dos degraus” (Sl. 120 a 134), se divididos
em grupos de 5 em 5, apresentam 3 ênfases diferentes.
A última série ( 130 a 134 ), enfoca o tema da
união: começa com clamor a partir “das profundezas”
( Sl 130 ), prossegue com o “coração desmamado”,
quieto nos braços da mãe ( Sl 131), continua com
o “lugar do repouso” do Senhor ( Sl 132 ), daí
apresenta a união com os irmãos ( Sl 133 ) e termina
com a “casa do Senhor”, o seu santuário (
Sl 134 ). A oração é o veículo que
nos conduz “das profundezas” para o “santuário”
de Deus.
Imagine este quadro:
as bolsas de ar quente que sobem aos céus (chamadas “térmicas”
pelos praticantes de vôo livre), são capazes de
elevar às alturas tanto a águia quanto o urubu.
As “térmicas” não mudam a natureza
do pássaro, assim como a oração, em si
e por si mesma, não nos transforma. Oração
é encontro com Deus, caminhar com Deus. Deus é
o foco, a oração é o meio. Quando a águia
se eleva a grandes alturas, ela coloca seu ninho nas rochas.
Quando o urubu se eleva às alturas, ele ainda busca as
carcaças mortas! A oração e a meditação
de povos que não conhecem a Deus termina no nada. A oração
cristã começa no nada e termina em Deus, onde
Cristo é tudo, ainda que eu continue sendo nada! Viverei
por meio d’Ele.
Busquemos a face do
Senhor com relação a nossa vocação,
privilégio e responsabilidade cristã. Que nós,
a igreja do Deus vivo, busquemos verdadeiro equilíbrio
entre reflexão teológica e espiritualidade; pois
uma conduz à outra e ambas se completam. E que assim,
“seja sobre nós a beleza do Senhor nosso Deus”.
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