(continuação...)
Todas
as OBRAS independentes de Deus são pecado.
Por favor, tenha em conta
que podemos pecar até mesmo enquanto salvamos almas.
Se não dependermos de Deus, mas confiarmos em nosso próprio
entendimento e experiência do evangelho, à vista
de Deus estaremos pecando, e não salvando almas, ainda
que gastemos tempo e energia persuadindo as pessoas a crerem
no Senhor!
Se em vez de perceber
nossa total fraqueza e depender inteiramente do poder do Senhor,
tentarmos edificar os santos com a força de nosso conhecimento
bíblico e da excelência de nossa sabedoria, aos
olhos de Deus estaremos pecando enquanto pregamos! Por melhores
que todos os atos de amor e compaixão possam parecer
ao público, - se forem realizado por nosso impulso ou
força – aos olhos de Deus são pecaminosos.
O Senhor não pergunta se fizemos um bom trabalho; somente
examina se confiamos nele. Tudo o que é feito por nossa
própria vontade será queimado no dia do juízo
de Cristo, mas o que é realizado em Deus permanecerá.
O significado do fruto
da árvore do conhecimento do bem e do mal não
é outro senão o estar ativo fora de Deus, procurar
o que é bom segundo o entendimento da própria
pessoa, estar com pressa e ser incapaz de esperar a fim de obter
o conhecimento que Deus ainda não deu; não confiar
no Senhor, mas procurar avançar pelo nosso próprio
caminho.
Tudo isso pode ser resumido
numa frase:
Independência
de Deus
Deus
não tem prazer no homem que se aparta Dele e age independentemente.
Pois Ele deseja que o homem confie Nele.
O propósito do
Senhor ao salvar o homem e também ao criá-lo é
que o homem cofie Nele. Eis o significado da árvore da
vida: confiança. "De toda árvore do jardim
comerás livremente", disse Deus a Adão; "mas
da árvore do conhecimento do bem e do mal não
comerás". Dentre todas as árvores cujos frutos
podiam ser comidos, Deus menciona especialmente a árvore
da vida em forte contraste com a árvore do conhecimento
do bem e do mal. "E também a árvore da vida
no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem
e do mal". Ao notarmos a menção particular
de Deus à árvore da vida, devemos reconhecer que
de todas as árvores comestíveis, esta é
a mais importante. É desta árvore que Adão
devia ter comido primeiro. Por que é isto assim?
A árvore da vida
representa a vida de Deus, a vida não criada de Deus.
Adão é um ser criado, portanto, não possui
esta vida não criada. Embora a esta altura ele ainda
esteja sem pecado, não obstante, é apenas natural,
uma vez que não recebeu a vida santa de Deus. O propósito
de Deus é que Adão escolha o fruto da árvore
da vida por sua própria vontade para que se relacione
com Deus pela vida divina. Assim, Adão, de simples criatura
de Deus, chegaria ao novo nascimento. O que Deus requer de Adão
é que negue sua vida natural e se una a Ele pela vida
divina, destarte vivendo diariamente pela vida de Deus. Este
é o significado da árvore da vida. O Senhor queria
que Adão vivesse por essa vida que não era dele
originariamente.
Logo, temos aqui o sentimento
distinto da independência, confiança. Pois, quando
o ser criado vive por sua vida natural, não precisa depender
de Deus. Esta vida criada é autônoma e autopreservadora.
Mas, para que o ser criado via pela vida do Criador, ele tem
que ser totalmente dependente, pois a vida que levaria então
não seria sua, mas de Deus. Ele não poderia ser
independente de Deus, mas teria que manter constante comunhão
com Ele e confiar completamente Nele. Essa é a vida que
Adão não tem em si mesmo, e logo, deve confiar
em Deus a fim de recebê-la. Além disso, essa vida
- se recebida por Adão – é a que ele não
poderia levar por seu próprio esforço; por isso
teria que depender de Deus continuamente a fim de conservá-la.
Assim, a condição para conservá-la tornar-se-ia
a mesma condição para recebê-la. Adão
teria de depender dia a dia, a fim de viver esta vida santa
de uma maneira prática.
Tudo isto que temos dito
com respeito a Adão, Deus também o exige de nós.
Na época de Adão, a vida de Deus e a vida do homem
estavam presentes no jardim. Hoje, a vida divina e a vida humana
estão presentes em nós. Nós os que cremos
no Senhor e somos salvos, nascemos de novo – isto é,
nascemos de Deus; e assim temos uma vida de relacionamento com
Deus. A vida da criatura está em nós, mas também
está a vida do Criador. O problema atual então
é se vivemos ou não pela vida divina – se
nossa vida depende ou não totalmente de Deus. Assim como
nossa carne não pode viver se estiver separada de sua
vida natural, da mesma forma nossa vida espiritual não
pode prosseguir se estiver separada da vida do Criador.
Deus não deseja
que tenhamos nenhuma atividade fora Dele. Deseja que morramos
para nós mesmos e sejamos dependentes Dele como se não
pudéssemos nos mover sem Ele. Ele não gosta que
iniciemos nada sem sua ordem. Ele se agrada de que realmente
percebamos nossa inutilidade e confiemos Nele de todo o coração.
Devemos resistir a todas as ações independentes
de Deus. As obras que são feitas sem oração
e espera, sem procurar conhecer claramente a vontade divina,
sem confiar inteiramente em Deus, e sem examinar nossa consciência,
a fim de determinar se o ego ou a impureza estão misturados:
tudo isto provém de nós mesmos e é pecado
à vista de Deus.
O Senhor não pergunta
quão boa é nossa obra; Ele somente pergunta quem
fez a obra. Ele não será movido pelo pequeno bem
que você e eu façamos. Ele não está
satisfeito com nada a não ser a SUA obra. Você
pode estar ativamente engajado na obra Dele e trabalhar muito.
Você pode até mesmo sofrer por causa de Cristo
e de Sua igreja; mas se não tiver certeza de que é
Deus que deseja que você realize a obra, ou, se não
compreender completamente sua própria ignorância
e incompetência, e com muito temor e tremor se lançar
sobre o Senhor, então, como Adão, você estará
pecando à vista de Deus. Oh! Cesse sua própria
obra! Não pense que pode fazer tudo o que seja bom. Você
pode labutar e se esforçar segundo seu próprio
prazer, mas terá pouca ou nenhuma utilidade espiritual.
Todos nós sabemos
que o incrédulo, não importa quão boa seja
sua conduta, não pode ser salvo por ela. Não conhecemos
nós tantos não-crentes cuja conduta é recomendável?
São amáveis, gentis, humildes, pacientes; muitas
vezes ultrapassam a média dos cristão em virtude.
Por que, apesar da conduta invejável, ainda não
são salvos? Porque todo este bem provém de sua
vida natural, logo, não podem obter a aprovação
de Deus. Deus somente se agrada do que pertence a Ele; do que
procede Dele. Consequentemente, incrédulo algum pode
agradar a Deus com seus próprios feitos.
O mesmo se aplica ao
crente. Pensamos poder agradar ao Senhor com nossas obras boas
e zelosas? Precisamos compreender que, a não ser pela
vida que Deus nos deu, não existe a mínima diferença
entre o nosso ego e o ego dos incrédulos. Os egos são
absolutamente os mesmos. A vida natural do pecador e a vida
natural do santo não diferem uma da outra. Se as boas
ações realizadas pelos incrédulos mediante
esta vida natural são rejeitados por Deus, também
o será o bem praticado mediante a vida natural pelos
crentes.
É triste que esqueçamos
tão prontamente a lição que antes tínhamos
aprendido! Quando cremos no Senhor Jesus, Deus convenceu-nos
por Seu Espírito Santo de que nossa justiça, a
seus olhos, para nada servia. Depois de sermos salvos, entretanto,
de alguma forma, voltamos a imaginar que agora nossa própria
justiça é útil e agradável a Deus.
Devíamos saber que pelo fato de sermos salvos e nascidos
de novo nossa velha vida não melhorou nem mudou em nada.
A não ser pela vida nova recém obtida, nosso antigo
ego permanece o mesmo.
O princípio que
aprendemos na regeneração devia ser mantido continuamente.
Uma vez que nós, quando incrédulos, não
fomos salvos por nossas obras independentes, da mesma forma,
nós os crentes, não ganharemos a aprovação
de Deus por nossas ações independentes. Tudo o
que é feito fora da dependência de Deus é
desagradável a Ele. Quer proceda do pecador, quer do
santo, a ação independente é rejeitada
por Deus.
Você pode se gloria
de quanto, como crente, tem feito; o quanto tem trabalhado,
e até mesmo quanta benção e fruto tem experimentado;
ainda assim, aos olhos de Deus estas não passam de obras
mortas e sem utilidade alguma, pois todas elas são realizadas
por você mesmo, e não pela operação
divina em você.
Quão difícil
é depender de Deus! Quão difícil é
para os sábios confiarem! Quão árduo é
para os talentosos confiar em Deus! Muitas vezes tornamo-nos
ativos sem esperar que Deus nos dê força especial.
É-nos tremendamente difícil negar o nosso talento,
tornar-nos totalmente inúteis perante Deus e não
depender de nossa capacidade, mas totalmente do Senhor. O Senhor
deseja que neguemos a nós mesmos e a nosso poder e que
reconheçamos a nossa fraqueza e a inutilidade de nossas
palavras e ações. A não ser que primeiro
chegue o suprimento de Deus, não podemos dizer palavra
alguma nem realizar nada. É assim que Ele deseja que
dependamos Dele, pois o que temos em nós mesmos sem dúvida
nos afastará de Deus. Nosso talento, nossa sabedoria,
nosso poder e nosso conhecimento, tudo tenderá a fortalecer
nossa autoconfiança excluindo nossa confiança
Nele. A menos que propositada e persistentemente neguemos nossa
capacidade, jamais dependeremos de Deus.
Quando pequena, a criança
depende de seus pais para tudo; mas quando cresce possui em
si mesma tal poder e sabedoria que procura a independência
em vez da dependência. Nosso Deus deseja que tenhamos
com ele um relacionamento permanente como crianças para
que possamos continuamente confiar Nele.
Você acha que agora
tem poder? Que já foi santificado? Que já foi
enchido permanentemente com o Espírito Santo? Que suas
obras já produziram frutos? Se assim for, essa maneira
de pensar priva-lo-á de um coração dependente.
É preciso que você mantenha a atitude e a postura
de desamparo perante os homens a fim de fazer real progresso
no caminho de Deus. Se permitir que o ego penetre sutilmente
de modo que você considere a si mesmo com tendo tudo,
deve compreender que não mais estará dependendo
de Deus.
Eu, que agora falo com
você, não tenho certeza alguma quanto a meu futuro.
Não sei se ainda estarei pregando o evangelho no ano
que vem. A menos que Deus me conservar até o ano que
vem, pode ser que eu não possa servir; deveras, posso
até mesmo nem seguir a Cristo. Digo isto com um coração
angustiado, pois sei que não tenho meios de conservar
a mim mesmo. Se Deus não me conservar, confesso não
ser por mim mesmo capaz de estar em pé no lugar humilde
de hoje. Lembro-me de como estive a ponto de separar-me de Cristo
muitas vezes desde o dia em que me tornei crente, mas louvo
a Deus por ter-me conservado.
Permita-me dizer-lhe
que, a não ser mediante o depender de Deus e confiar
nele momento a momento, não conheço outra maneira
de viver uma vida santificada. Se não dependermos do
Senhor não podemos saber quanto tempo podemos viver como
crentes por um único dia.
Será que realmente
percebemos isto? Ou será que ainda temos um pequeno poder
com o qual sustentar a nós mesmos e ter sucesso em muitas
coisas? Seja manifesto a todos que a autoconfiança é
o inimigo da dependência de Deus. Deus deve levar-nos
até nosso fim para que saibamos não existir bem
algum em nós.
Não fosse por
sua graça, teríamos derrotas de todos os lados.
Devemos chegar ao ponto que percebamos ser absolutamente indignos
e não ter força alguma. Não ousamos ser
autoconfiantes, nem ousamos tomar qualquer ação
independente, fora de Deus. Devemos continuar prostrados perante
Ele com temor e tremor, buscando Sua graça. De outra
forma, nossa natureza fará com que nos consideremos competentes,
tendo prazer em nossa próprias atividades e recusando-nos
a depender de Deus.
Ao olhar para os anos
passados posso ver que muitos irmãos a quem conheci se
desviaram. Ainda me lembro do que certo irmão me disse
um dia: " senhor, agora conhecemos as Escrituras que o
senhor prega; temos feito grande progresso e não estamos
muito distantes de seus obreiros.". Que autoconfiança!
Mas onde estão esses irmãos hoje? Também
lembro de outro irmão dizer-me recentemente: "Irmão
Nee, pode ser que eu não conheça muita coisa,
mas pelo menos conheço os ensinamentos bíblicos..."
ao ouvir isto, imediatamente percebi que este irmão corria
sério perigo. Hoje, ele também se desviou do caminho
estreito. São muitas as tragédias similares que
podemos recordar durante nossa vida. A causa principal de tais
tragédias é a autoconfiança. A autoconfiança
é a causadora de todas as derrotas.
O que Deus deseja que
saibamos hoje é que não podemos depender absolutamente
de nosso ego. Deseja que confessemos nossa fraqueza e inutilidade
em todo o tempo. Deseja que tenhamos consciência do que
nunca tivemos antes – isto é, deseja que estejamos
cônscios de nossa total insuficiência e que admitamos
que se não fosse por seu poder conservador, não
podíamos permanecer nem um momento, e que se não
fosse por sua fortaleza, nada podíamos fazer. Possamos
nós ser quebrantados pelo Senhor hoje, para que não
ousemos tomar nenhuma ação independente ou abrigar
nenhuma atitude fora Dele. Doutra forma, o fim inevitável
será a vaidade e a derrota.
Que Deus tenha misericórdia
de todos nós!
Watchman Nee (Extraído
do Livro "O Mensageiro da Cruz" - 1926)
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