Vivemos
num mundo em crise e aquilo que Deus planejou como solução
( a Igreja ) em vez de ser reposta para os problemas da humanidade
faz parte do problema! Apesar de todos os avanços na
restauração da igreja com a Reforma Protestante
e o derramamento do Espírito Santo no Sáculo XX,
em vez da igreja representar Jesus vivo ao mundo, ela, além
de sofrer os mesmos problemas (pecado, ciúme, desordem
nas famílias, divórcio, ódio, contendas,
ambição, depressão e doença), agrava
ainda mais a situação com sua hipocrisia e presunção,
apresentando fórmulas teológicas, doutrinas humanistas
e preceitos religiosos como solução e recusando-se
a admitir que tudo isso não está funcionando.
Temos de
admitir: apesar de todos os toques cosméticos atuais
(mudanças de estrutura, metodologia, liturgia ou títulos
ministeriais) que tentam melhorar o desempenho da igreja, algo
fundamental está errado. Se for para a igreja atingir
o sonho de Deus, e desafiar as portas do inferno (Mt 16.18),
manifestar a multiforme sabedoria de Deus aos principados e
potestades nos lugares celestiais (Ef 3.10) e tornar-se gloriosa,
sem mácula nem ruga, na vinda do seu Noivo (Ef 5.27),
ela precisará sofrer uma reforma profunda e radical.
Todos que
receberam o penhor da herança, o batismo no Espírito
Santo; muitas vezes mesmo sem um claro entendimento da situação,
sentem dentro de si os gemidos do Espírito Santo para
que isto aconteça. No mais interior do nosso ser, o Espírito
testifica com o nosso espírito que a igreja não
é como devia ser e que não estamos fazendo o que
devíamos fazer. Deus e o mundo clamam pelo aparecimento
de uma igreja santa e unida, que goza da plena autorização
de Deus para executar suas obras na terra.
Se realmente
quisermos contribuir para uma restauração plena
da pureza e poder da igreja, teremos que tirar todo o entulho
que séculos de influências humanas depositaram
sobre ela. Precisamos discernir qual é a sua essência
e para isto teremos de voltar à sua origem.
A primeira
vinda de Jesus foi o evento mais cataclísmico que este
mundo já viveu. Apesar da maioria dos seus contemporâneos
não perceberem, foi uma mudança de marcha em toda
a história do planeta, de proporções e
conseqüências inimagináveis. Desencadeou a
mudança da lei para a graça, trouxe a inédita
revelação de que o único Deus, Jeová,
do Velho Testamento, na verdade era um Pai que tinha um Filho
por meio do Espírito Santo, e que este Filho se encarnou
e viveu entre nós. Abriu a porta para a entrada dos gentios
no plano de redenção de Deus e trouxe a destruição
da nação de Israel e de Jerusalém por causa
da sua rejeição do Messias.
Dentre todas
estas mudanças, porém, queremos destacar uma que
precisamos compreender melhor. Apesar de ser de conhecimento
geral de que foi Jesus quem fundou a igreja, a maneira como
ele o fez contradiz a maioria das teorias atuais sobre a natureza
e prática da igreja.
Em primeiro
lugar, a ênfase da sua mensagem não era a igreja
e sim a vinda do Reino de Deus. Neste sentido, ele não
trouxe novidades, mas continuou a ênfase dos profetas
do Velho Testamento. Deus havia falado por séculos por
meio dos profetas que a sua solução para a humanidade
seria a vinda do Ungido, do Cristo, do Messias, do Príncipe
que se assentaria no trono de Davi e que traria o Reino eterno
de paz e justiça.
A grande
mudança que Jesus trouxe foi sobre a natureza deste reino
e a maneira como seria estabelecido. E é bem aí
que encontraremos a origem da igreja. Jesus disse que o Reino
não começaria exteriormente mas interiormente
( Lc 17.20,21). Os próprios discípulos não
entenderam isto durante todo o ministério de Jesus. Viviam
na expectativa da manifestação do reino exterior
a qualquer momento (Mt 20.20,21 ; At 1.6)
Nos quatro
evangelhos que relatam a vida de Jesus, só encontramos
duas menções da igreja. Isto mostra que não
é o enfatizando a igreja ou falando sobre ela que a faz
surgir. Ela não é uma instituição
organizada com vida própria e uma agenda a cumprir. Podemos
encontrar na primeira referência de Jesus à igreja
o seu elemento mais intrínseco e essencial.
“Tendo
Jesus chegado às regiões de Cesaréia de
Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem
dizem os homens ser o Filho do homem? Responderam eles: Uns
dizem que é João, o Batista; outros, Elias; e
outros, Jeremias, ou algum dos profetas. Mas vós, perguntou-lhe
Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro:
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, Disse-lhe Jesus:
Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não
foi carne e sangue quem te revelou, mas meu Pai, que está
nos céus. Pois também eu te digo que tu és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas
do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei
as chaves do Reino dos céus; o que ligares, pois, na
terra será ligado nos céus, e o que desligares
na terra será desligado nos céus” (Mt 16.13-19)
Pedro como
sempre era rápido para responder, mas desta vez acertou.
Ele disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
O nome Cristo significa “Ungido” e “Jesus”
significa “Deus salva”. Deus salva pelo Ungido.
“Cristo” é grego e “Messias”
é a mesma palavra em hebraico. Para Pedro dizer que Jesus
era o Messias ou o Cristo não é muito surpreendente,
pois era baseado nesta fé que os discípulos haviam
abandonado suas redes para segui-lo (Jo 1.40-41). Os discípulos
criam que Jesus era o ungido anunciado pelos profetas para trazer
o Reino de Deus. (Veja como quase cada versículo de Daniel
9.24-27 menciona o ungido, o príncipe – Jesus Cristo).
Mas Pedro
não pára aí. Ele faz a afirmação
inédita que só poderia ter vindo por revelação
direta de Deus, e cujas implicações e conseqüências
ele mesmo não entendia nem imaginava: “Tu és
o filho do Deus vivo”. Além de ser o ungido, o
rei, Jesus é o Filho de Deus, e o Filho de Deus é
Deus! (Jo 1.1). É neste ponto que o judaísmo e
o cristianismo partem caminhos distintos. É neste ponto
que nasce a igreja. Ou é a maior blasfêmia possível
de ser proferida por um homem (rebaixar Deus a um corpo humano)
ou a maior verdade e esperança de toda a humanidade.
Isso tem causado muitas polêmicas durante a história
da igreja porque é um mistério e precisa-se de
revelação para entendê-lo. Naquele momento,
Pedro foi inspirado par dizer: “Filho do Deus vivo”.
E é precisamente neste momento que Jesus fala sobre a
igreja pela primeira vez.
Pedro teve
revelação e falou: “Tu és o Cristo,
o Filho do Deus vivo” e Jesus virou para Pedro e falou:
“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja”. Jesus falou que edificaria sua igreja sobre esta
revelação porque a revelação da
palavra produz a igreja. O fundamento da igreja pela palavra
viva. Palavra não é só doutrina, é
uma pessoa que se encarnou.
Os católicos
erram quando dizem que Jesus edificaria a igreja sobre a pessoa
de Pedro. Mas os protestantes também erram quando dizem
que ele edificaria a igreja sobre a declaração
de Pedro. As provas destes erros estão escritas na história
da igreja: Unidade pela força em torno do papa, suposto
sucessor de Pedro (erro católico) e a heresia protestante
de que se pode dividir quantas vezes for necessário e
ainda ser abençoado por Deus.
Realmente
existe uma sucessão apostólica, mas não
de um apóstolo para o outro, mas de uma revelação
para outra. A chave não está no homem delegando
misticamente sua posição privilegiada diante de
Deus para outro através da imposição de
mãos, mas também não está na repetição
de uma fórmula doutrinária mágica que contém
a verdade. A chave está em receber revelação
novamente desta verdade fundamental: Jesus é o Filho
de Deus, portanto é Deus, e se ele nasceu pelo Espírito
de Deus, nós também podemos nascer pelo Espírito
–novo nascimento- e encarnar Jesus em nossas vidas. Toda
vez que uma pessoa recebe esta revelação, não
por meio de carne e sangue mas do Pai, os céus e a terra
fazem contato como numa faísca elétrica, o nome
da pessoa muda como aconteceu com Pedro , e ela se torna parte
da igreja. Não há outra maneira de entrar na igreja.
“Então
ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem
que ele era o Cristo” (Mt 16.20). Depois deste momento
extraordinário de revelação, quando Pedro
diz: “Tu és o Cristo” e Jesus diz: “Tu
és Pedro”, Jesus proíbe, seus discípulos
de ficar falando com os outros sobre o assunto. Por quê?
Ele não queria uma nova doutrina sobre o fato dele ser
o Filho de Deus. Ele sabia que isto não produziria nada,
como de fato vemos na igreja hoje. O fundamento da igreja não
é a palavra aprendida num seminário, mas esta
palavra que habita em nós. Quando o Espírito Santo
desceu no dia de Pentecostes, os discípulos começaram
a falar porque experimentaram a realidade e a autoridade desta
revelação.
A igreja
só vai encontrar sua verdadeira identidade e seu verdadeiro
nome quando conhecer verdadeiramente quem Jesus é. E
isto só vai acontecer quando ela reconhecer que ainda
não O conhece verdadeiramente. Conhecemos doutrinas sobre
Ele, e sabemos o que os homens dizem sobre Ele, mas precisamos
ouvir a voz do Pai como Pedro ouviu, e declara-lo como Pedro
declarou. Quando isto acontecer a igreja verdadeira aparecerá,
edificada por Jesus, não de métodos e modismos
humanos, mas baseada inteiramente na palavra viva que é
a pessoa de Jesus gerada em nós pelo Espírito.
A primeira
igreja “perseverava na doutrina dos apóstolos”
(At 2.42). E que doutrina era essa? “ E todos os dias,
no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar
a Jesus, o Cristo” (At 5.42). A doutrina apostólica
não era uma teoria nem uma instituição
mas uma palavra viva de revelação que gerava Cristo
nas pessoas que a recebiam. Elas se sentiam verdadeiramente
transportadas “do poder das trevas para o reino do seu
Filho amado”. Pregar o evangelho não era nada mais
do que “anunciar a Cristo”. Quem ouvia esta palavra
“recebia o poder para se tornar filho de Deus” (Jo
1.12-13). Os apóstolos sentiam que o termo “em
Cristo” era o que melhor expressava sua nova condição,
razão porque o repetiam tanto em todas suas epístolas.
É
triste admitir, mas tenho que reconhecer que esta não
é a situação hoje. Podemos repetir este
termo pra ser teologicamente corretos, mas não é
o que sentimos naturalmente como a expressão da nossa
experiência. É mais fácil dizer que somos
de tal e tal denominação ou linha teológica
ou que estamos em tal e tal movimento que está experimentando
novas formas de se reunir, evangelizar ou discipular novos convertidos.
Isto é porque perdemos a essência da doutrina apostólica
e precisamos reencontrá-la.
Quando Jesus
fundou a igreja, Ele não se preocupou em dar-lhe claras
diretrizes de funcionamento, ensinamento ou governo. Ele nem
se preocupou em falar sobre a igreja. Ele simplesmente apontou
para sua origem, a revelação da Sua identidade
como Filho de Deus, dada pelo Pai que está nos céus.
Ele sabia que toda vez que este encontro entre os céus
e a terra ocorresse durante toda a história a seguir,
a igreja surgiria, pessoas nasceriam de novo e revolucionariam
suas sociedades e culturas. Não importava que depois
estas explosões de revelação se cristalizariam
em movimentos institucionais e humanos. Novamente, em algum
lugar, dentro ou fora dos sistemas religiosos, alguém
entraria novamente em contato com Deus, e nova explosão
ocorreria. Haveria muita mistura com elementos espúrios,
mas isto não impediria o avanço dos propósitos
de Deus. Nas suas parábolas, Jesus deixou muito claro
de antemão, que esta mistura ocorreria, mas também,
deixou claro que no fim Deus purificaria sua igreja de toda
mistura e a apresentaria a si mesmo igreja gloriosa, pura e
sem mácula.
Jesus claramente
não estava preocupado com as forças de culto,
governo ou credo de sua igreja. Ele estava preocupado com a
vida transformada dos seus seguidores. Ele sabia que o reino
começa no interior. Desde que o interior fosse radicalmente
transformado através de uma substituição
de vida (não mais eu, mas Cristo), ele sabia que esta
nova vida encontraria os meios próprios para se expressar,
amar, reunir e evangelizar. Por outro lado, sem esta transformação
interior, ele também sabia que todos os sistemas, métodos,
fórmulas ou instituições seriam totalmente
inúteis para adequar os homens para seus propósitos.
Mesmo com sua presença em pessoa, como Deus em carne,
ele não conseguiu mudar os doze que andaram constantemente
com ele. Até o fim eram carnais, egoístas, covardes
e ambiciosos. Nem mesmo Pedro era convertido ainda! ( Lc. 22-31-32)
Logo em
seguida à tremenda revelação de Pedro que
fez Jesus mencionar a igreja pela primeira vez, vemos surgir
um dos maiores empecilhos para a verdadeira igreja aparecer.
Quando Jesus começou a profetizar que o sistema religioso
estabelecido o crucificaria, mas que ele ressuscitaria ao terceiro
dia (Mt 16.21), Pedro começou a repreendê-lo, dizendo
que Deus jamais permitiria que isto lhe acontecesse ( Mt 16.22).
Pedro não escutou nada sobre ressurreição,
pois ficou bloqueado diante da perspectiva de sofrimento e morte,
que todo o seu ser repudiava. E Jesus reagiu fortemente chamando
Pedro de “Satanás” (Mt 16.23).
Veja como
andam paralelos e muito próximos o espírito de
revelação (“não foi carne e sangue
quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus”)
e as ponderações da alma (“para trás
de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque
não estás pensando nas coisas que são de
Deus, mas sim nas que são dos homens”). Se o homem
age na alma, sem direção de Deus, torna-se instrumento
de Satanás. Satanás usa o homem que age com sentimentalidade,
negando a verdade. É como os médicos que mentem
para seus pacientes dizendo que não vão morrer,
dando-lhes falsa esperança. Jesus fechou a porta para
qualquer idéia humana e disse “não!”
para a carne. Isso é a “violência”
do Reino (Mt 11.12)
A vida da
alma que recusa aceitar a morte do eu é o maior empecilho
para o Reino de Deus. As duas coisas não podem conviver
pacificamente. O cerne da vida cristã é a morte
( Mt 16.24). Logo depois de falar sobre edificar igreja vitoriosa
que desafiará as próprias portas do inferno, Jesus
fala que se não negarmos a nós mesmos e tomarmos
nossa cruz cada dia, não podemos ser seus discípulos.
Cruz não é poesia, é morte. “Salvar
sua vida” (Mt 16.25) significa colocar o “eu”
em primeiro lugar. As portas do inferno representam as entradas
pelas quais os poderes das trevas entram neste mundo. Satanás
entrou no mundo por várias portas: árvore do conhecimento
do bem e do mal, psicologia, egoísmo, humanismo, paixões
e carnalidade. Em resumo, através da vida natural do
homem. A própria igreja durante a história tem
aberto as maiores portas para Satanás entrar o mundo.
A solução é a cruz que mata a vida da alma,
a vida natural, fechando estas portas do inferno e abrindo a
porta do céu, a comunicação do Espírito
Santo com o nosso espírito. A cruz é nossa solução.
Ser batizado em Jesus é ser batizado na sua morte (Rm
6.3). É sair do trono, desistir do egocentrismo e entronizar
a Jesus. Não é algo triste nem é adquirido
por muito esforço humano. A palavra de Deus diz que o
Reino de Deus traz justiça, paz e alegria no Espírito
Santo (Rm 14.17). A alegria que vem da cruz ninguém pode
dar ou tirar. Um povo que conhece esta vida do reino no seu
interior manifestará a verdadeira vida da igreja na terra.