Em nossa primeira meditação sobre este maravilhoso
livro das origens, apontamos para algumas das surpreendentes
analogias que existem entre a ordem seguida por Deus em Sua
obra da criação e Seu método de ação
na “nova criação”, a criação
espiritual do crente. Primeiro houve trevas, depois a ação
do Espírito Santo, então, a palavra de poder entrou
em ação, e depois, luz como resultado, e mais
tarde, ressurreição e frutos. Há também
uma surpreendente prefiguração do grande tratamento
dispensacional da nossa raça neste registro de Sua obra
em seis dias, mas como isso já recebeu atenção
de canetas mais capazes que a nossa, passamos para ainda outra
aplicação prática desta escritura. Há
muito sobre Cristo neste primeiro capítulo de Gênesis
se somente tivermos olhos para ver, e é à típica
inferência prática de Gênesis 1 em relação
a Cristo e Sua obra que vamos, aqui, dirigir a atenção.
    Cristo é a chave que abre as portas de ouro
do templo da verdade Divina. “Examinai as Escrituras”,
é Sua ordem, “pois são elas que testificam
de Mim”. E novamente, Ele declara, “No rolo do Livro
está escrito de Mim”. Em cada seção
da Palavra escrita, a Palavra Pessoal está preservada
como sagrada – tanto em Gênesis como em Mateus.
E, agora, vamos afirmar que na fachada da Revelação
Divina, temos um “ plano de ação simbólico
de todo o trabalho de Redenção”.
    Nas afirmações iniciais deste capítulo
descobrimos, em símbolo, a grande necessidade de Redenção.”
No início, Deus criou os céus e a terra”.
Isto nos leva de volta à criação primeira
a qual, como tudo que vem da mão de Deus, deve Ter sido
perfeita, maravilhosa, gloriosa. Assim também foi a condição
original do homem. Feito à imagem do Seu Criador, enriquecido
com o sopro de Elohim, ele foi declarado como “ muito
bom”.
    Mas as palavras seguintes apresentam um quadro muito
diferente -“E a terra era sem forma e vazia”, ou,
como no original Hebraico, poderia ser traduzido mais literalmente
como : “A terra tornou-se um caos”. Entre os dois
primeiros versos de Gênesis 1, uma terrível calamidade
aconteceu. O pecado entrou no universo. O coração
do mais poderoso de todas as criaturas de Deus encheu-se de
orgulho – Satanás ousou opor-se à vontade
do Todo-Poderoso. Os efeitos desastrosos de sua queda alcançaram
a nossa terra, e o que foi originalmente criado por Deus como
perfeito e maravilhoso, tornou-se em ruína. Os efeitos
do seu pecado, do mesmo modo, atingiram muito mais do que a
si mesmo – as gerações de uma humanidade
ainda por nascer foi amaldiçoada como a consequência
de seus primeiros pais. “Havia trevas sobre a face do
abismo”. Trevas são o oposto de luz. Deus é
Luz. Trevas são o emblema de satanás.
    Essas palavras descrevem bem a condição
natural da nossa raça caída. Judicialmente separada
de Deus, moral e espiritualmente cega, experimentalmente escravos
de satanás, uma terrível mortalha de trevas está
colocada sobre a massa de uma humanidade não-regenerada.
Mas isto somente preenche um pano de fundo negro sobre o qual
podem ser colocadas as glórias da Graça Divina.
“Onde abundou o pecado, superabundou a graça”.
O método desta “superabundância de graça”
está simbolicamente delineado na obra de Deus durante
os seis dias. No trabalho dos quatro primeiros dias, temos uma
memorável prefiguração dos quatro grande
estágios na obra de Redenção. Agora não
podemos fazer muito mais do que chamar a atenção
para os contornos deste maravilhoso quadro primitivo. Mas, à
medida que dele nos aproximamos, para observá-lo em temor
e admiração, possa o espírito de Deus selecionar
as realizações de Cristo e mostrá-las a
nós.
 
  I – No trabalho do primeiro dia, a Encarnação
Divina é , simbolicamente declarada.
 
  Se homens caídos e cheios de pecado devem ser reconciliados
com o Santo Deus Triuno, o que deve ser feito? Como pode ser
transposto o infinito abismo que separa a Divindade da humanidade?
Que escada poderá ser colocada aqui na terra para se
chegar precisamente no céu? Só uma resposta é
possível a essas perguntas. O passo inicial na obra da
redenção humana deve ser a Encarnação
da Divindade. Necessariamente, este deve ser o ponto de partida.
O Verbo deve se tornar carne. O próprio Deus deve descer
até o fundo do poço onde, desprotegidamente, se
encontra a humanidade arruinada, se é que deve ser resgatada
do barro grudento e transportada para lugares celestiais. O
Filho de Deus deve assumir, em si mesmo, a forma de servo e
ser feito em semelhança de homens.
    Isto é precisamente o que a obra do 1º
dia tipifica na prefiguração do passo inicial
da Obra de Redenção, também chamado de
Encarnação do Divino Redentor. Observe, agora,
5 pontos:
    1:
há o trabalho do “Espírito Santo”.
“O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”
(v 2). Do mesmo modo foi a ordem seguida na Encarnação
Divina. Em relação à mãe do Salvador
lemos: “Descerá sobre ti o Espírito Santo,
e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua
sombra; por isso também o ente santo que há de
nascer será chamado Filho de Deus” Lc 1:35.
    2:
a palavra se manifesta como Luz. ”Disse (palavra) Deus:
Haja luz; e houve luz” (v3) . Do mesmo modo, quando Maria
mostra a Santa Criança: “A glória do Senhor
brilhou ao redor deles” Lc 2:9. E quando Ele é
apresentado no templo, Simeão foi movido pelo Espírito
Santo para dizer: “Porque os meus olhos já viram
a tua salvação, a qual preparaste diante de todos
os povos; luz para revelação dos gentios, e para
glória do teu povo de Israel” Lc 2:30.
    3:
a luz é aprovada por Deus, “E viu Deus que a luz
era boa”(v4). Nós não podemos, agora, ampliar
muito a profunda importância simbólica desta declaração,
mas gostaríamos de observar que a palavra hebraica aqui
traduzida “boa” também aparece em Eclesiastes
3:11 como “formosa” – “Tudo fez Deus
formoso no seu devido tempo. Deus viu que a luz era boa, formosa!
Como é obvia esta aplicação prática
do nosso Senhor Encarnado! Depois de Sua chegada neste mundo,
ficamos sabendo que “Jesus crescia em sabedoria, estatura
e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2:52),
e que as primeiras palavras do Pai em relação
a Ele foram, "Este é o Meu Filho amado em quem me
comprazo”. Sim, boa e formosa foi a luz na percepção
espiritual do Pai. Quão cego estava o homem para não
ver Nele nenhuma formosura para desejá-lo!
    4:
a luz foi separada das trevas, ”E (Deus) fez separação
entre a luz e as trevas” (v4). Como o Espírito
Santo é vigilante ao proteger os tipos! Como Ele é
cuidadoso ao chamar nossa atenção para a diferença
imensurável entre o Filho do Homem e os filhos dos homens!
Embora em Sua infinita condescendência Ele se visse apto
para participar de nossa humanidade, contudo Ele não
experimentou nossa depravação. A luz de Cristo
foi separada das trevas (humanidade caída). “Com
efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável,
sem mácula, separado dos pecadores” (hb 7:26).
    5:
a luz foi chamada por Deus – “Chamou Deus à
luz Dia” (v5). Portanto, a luz também estava com
Ele que é a Luz do Mundo. Não foi permitido a
José e Maria escolherem o nome da Santa Criança.
No Antigo Testamento, o profeta havia declarado, “Ouvi-me,
terras do mar, e vós, povos de longe, escutai! O Senhor
me chamou desde o meu nascimento, desde o ventre de minha mãe
fez menção de meu nome”; (Is 49:1). E para
o cumprimento desta profecia, enquanto ainda no ventre de Sua
mãe, um anjo é mandado por Deus a José
dizendo: “Ela dará à luz um filho e lhe
porás o nome de Jesus” (Mt 1:21).
 
  II – Na obra do segundo dia a Cruz de Cristo
é simbolicamente apresentada.
    Qual foi a etapa seguinte necessária à
realização da Obra de Redenção?
A Encarnação em si não satisfaria a nossa
necessidade. “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão
de trigo, caindo na terra , não morrer, fica ele só;
mas, se morrer, produz muito fruto”. (Jo 12:24). O Cristo
encarnado revela a vida perfeita e imaculada que por si só
entra em contato com a mente de Deus, mas não ajuda a
atravessar o espaço intransponível entre um Deus
Santo e um pecador arruinado. Para tal, o pecado deve ser afastado,
e isto não pode ser feito a não ser que a morte
entre em cena. “Pois sem o derramamento de sangue não
há remissão”. O cordeiro deve ser morto.
O Santo deve entregar Sua vida. A Cruz é o único
lugar onde as exigências justas do trono de Deus podem
ser satisfeitas.
    Na obra do segundo dia, esta segunda etapa na realização
da redenção humana é simbolicamente apresentada.
O acontecimento importante na obra deste segundo dia é
a divisão, separação, isolamento. “E
disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e separação
entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento
e separação entre as águas debaixo do firmamento
e as águas sobre o firmamento. E assim se fez”.
(v 6,7 ). É surpreendente perceber aqui que há
uma divisão dupla: primeiro, há um firmamento
no meio das águas e este firmamento divide as águas
das águas e, segundo, o firmamento dividiu as águas
que estavam debaixo dele das que estavam sobre ele. Cremos que
o “firmamento”, aqui, tipifica a Cruz , e apresenta
seu duplo aspecto. Lá, nosso abençoado Senhor
foi dividido ou separado do próprio Deus – “Deus
meu, Deus meu, por que me abandonaste?” e, também
lá (na cruz), Ele foi separado do homem “Cortado
da terra dos viventes” (Is 53:8).
    Que o “firmamento”, aqui, realmente prefigura a
Cruz, está claramente sustentado pela maravilhosa analogia
entre o que aqui é nos contado a seu respeito e a sua
concordância simbólica com a Cruz de Cristo. Observe
quatro aspectos:
    1: o
firmamento foi o propósito de Deus antes de ser realmente
feito. No verso 6, lê-se: “E disse Deus: Haja firmamento...”,
e no verso 7, “Fez, pois, Deus o firmamento...”.
Como é perfeita a relação entre aquilo
que prefigura o tipo e aquilo que é prefigurado no tipo
(antitipo).
    Muito, mas muito tempo antes que a cruz fosse erigida nas alturas
do Gólgota, já era o propósito de Deus.
Cristo foi “O Cordeiro que foi morto desde a fundação
do mundo”. (Ap 13:8).
    2:
o firmamento foi estabelecido no meio das águas. É
bem sabido entre os estudiosos da Bíblia que na Escritura
“águas” simboliza povos, nações
(Ap 17:15). Na sua aplicação simbólica,
portanto, estas palavras poderiam significar “Deixe a
Cruz ser colocada no meio dos povos”. Múltiplas
são as aplicações sugeridas por estas palavras.
Mas, infinitamente mais exato, é o tipo. Nossas mentes,
imediatamente, voltam-se às palavras “onde O crucificaram
e com Ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio”
(Jo 19:18). A situação geográfica do Calvário
é do mesmo modo materialização de uma realidade:
a Palestina é praticamente o centro ou o meio da terra.
    3:
o firmamento dividiu as águas. Portanto, a Cruz dividiu
os “povos”. A Cruz de Cristo é o grande divisor
da humanidade. Foi assim historicamente, o ladrão que
creu, do ladrão impotente (desprotegido). Assim foi desde
aquele dia e assim é hoje. Por um lado, “Certamente,
a palavra da cruz é loucura para os que se perdem”,
mas, por outro lado, “mas para nós, que somos salvos,
poder de Deus”. (I cor 1:18)
    4:
o firmamento foi designado por Deus. “E Deus fez o firmamento”.
Também assim foi anunciado no Dia de Pentecostes em relação
ao Senhor Jesus Cristo. “Sendo este entregue pelo determinado
desígnio e presciência de Deus” (Atos 2:23).
Do mesmo modo foi declarado no tempo antigo, “Agradou
ao Senhor ferí-lo; colocou sobre Ele o sofrimento”.
A Cruz foi desígnio e compromisso divino.
    Também não é profundamente significativo
que as palavras, “E Deus viu que era bom” tenham
sido omitidas no final da obra do segundo dia? Se elas aqui
fossem incluídas o símbolo teria sido destruído.
A obra do segundo dia apontava para a Cruz e, na Cruz, Deus
estava lidando com o pecado. Ali, sua ira estava sendo usada
sobre o Justo, o qual estava morrendo pelo injusto. Embora Ele
não tivesse nenhum pecado, ainda assim Ele “foi
feito pecado por nós.
    Portanto, a omissão, neste ponto, da usual expressão
“Deus viu que era bom” assume um significado mais
profundo do que aquele até então admitido.
 
  III – na obra do terceiro dia a Ressurreição
do Senhor é simbolicamente apresentada.
    Nosso artigo já excedeu os limites que originalmente
estabelecemos, portanto, forçosamente devemos abreviá-lo.
    A terceira etapa necessária para a realização
da obra de Redenção foi a Ressurreição
do Crucificado. Um Senhor morto não poderia salvar ninguém.
“Por isso, também pode salvar totalmente os que
por ele se chegam a Deus...”Por que? “vivendo sempre...”
(Hb 7:25).
    Desta maneira está em nosso símbolo. Acima de
qualquer dúvida, aquilo que foi prefigurado na obra do
terceiro dia é a Ressurreição. No registro
concernente ao terceiro dia é que lemos “e apreça
a porção seca” (v 9). Antes disso havia
estado submersa, enterrada sob as águas. Mas, agora,
a porção seca é levantada acima dos mares;
há ressurreição, a terra aparece. Mas isto
não é tudo. No verso 11 lemos, “Produza
a terra relva...”. Até este ponto a morte reinava
suprema. Nenhuma forma de vida aparecia sobre a superfície
da terra devastada. Mas, no terceiro dia, à terra é
ordenado “produzir”. Não no segundo nem no
quarto, mas no terceiro dia, a vida foi vista sobre a terra
devastada! Perfeito é o símbolo para todos que
têm olhos para ver. Maravilhosamente significativas são
as palavras, “produza a terra” para aqueles que
têm ouvidos para ouvir. Foi no terceiro dia que nosso
Senhor ressurgiu dentre os mortos, de acordo com as Escrituras.
De acordo com quais Escrituras? Nós não temos
nestes versos 9 e 11 de Gênesis 1, o primeiro dessas escrituras,
bem como o quadro original da Ressurreição de
nosso Senhor?
 
  IV – Na obra do quarto dia a Ascensão
do Senhor é simbolicamente sugerida.
    A Ressurreição não completou o trabalho
de Redenção de nosso Senhor. Para tal Ele deveria
entrar no Lugar Celestial que não fosse feito por mãos.
Ele deveria tomar Seu lugar à mão direita da Majestade
nas alturas. Ele deveria ir “para o mesmo céu,
para comparecer, agora, por nós, diante de Deus”
(Hb 9:24).
    Mais uma vez vemos que Tipo corresponde ao Antitipo. Na obra
do quarto dia nossos olhos são removidos da terra e todos
seus afazeres se voltam para os céus! (veja os versos
14–19) . À medida que lemos estes versos e deduzimos
algo de sua importância tipológica, não
vimos o Espírito Santo dizer, “Buscai as cousas
lá do alto, onde Cristo vive assentado à direita
de Deus. Pensai nas cousas lá do alto, não nas
que são aqui da terra” (Cl 3: 1,2) .
    E à medida que levantamos nossos olhos em direção
aos céus, o que vemos? Duas grandes luzes – simbolicamente
Deus e seu povo. O sol que nos fala de “Sol da Justiça”
(Ml 4:2), e a lua que fala de Israel e da Igreja (Ap 12:1),
tomando emprestado e refletindo a luz do sol. E observe suas
funções: primeiro, eles existem “para alumiarem
a terra” (v 18). Do mesmo modo acontece com Cristo e seu
povo. Durante o presente intervalo de trevas, a noite do mundo,
Cristo e Seu povo são “a luz do mundo”, mas
durante o Milênio eles vão governar e reinar sobre
a terra.
    Portanto, na obra dos quatro primeiros dias de Gênesis
1, vimos a prefiguração dos quatro grandes estágios
ou crises na realização da Obra de Redenção.
A Encarnação, a Morte, a Ressurreição
e a Ascensão de nosso abençoado Senhor estão,
respectivamente, tipificadas. À luz desta prefiguração,
quão preciosa são as palavras no final da obra
de seis dias: “Assim, pois, foram acabados os céus
e a terra e todo o seu exército. E havendo Deus terminado
no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse
dia de toda a sua obra que tinha feito”(Gn 2:1,2). A obra
da Redenção está completa, e nesta obra
Deus encontrou Seu descanso!
    Como vamos continuar nossas meditações sobre o
livro de Gênesis, possa Deus, em Sua graça misericordiosa,
revelar-nos “os aspectos maravilhosos de sua Lei”.
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a autoria do mesmo.