O 3º capítulo de gênesis é
um dos mais importantes em toda a Palavra de Deus. Freqüentemente,
o que se diz de Gênesis como um todo, é peculiarmente
verdadeiro deste capítulo: é o plano das gerações.
Aqui estão os fundamentos sobre os quais se apóiam
muitas das principais doutrinas da nossa fé. Aqui, voltamos
até a fonte de uma grande quantidade de verdade Divina.
Aqui, começa o grande drama que está sendo desempenhado
no palco da história humana, e nem ainda 6 mil anos foram
completados. Aqui, encontramos a explicação Divina
da presente queda e da condição arruinada da nossa
raça. Aqui, tomamos conhecimento dos planos sutis do
nosso inimigo, o Diabo. Aqui, observamos a total impotência
do homem para andar no caminho da justiça, quando a graça
Divina lhe é retida. Aqui, descobrimos os efeitos espirituais
do pecado – o homem procurando fugir de Deus. Aqui, discernimos
a atitude de Deus em direção ao pecador culpado.
Aqui, registramos a tendência universal da natureza humana
de cobrir sua própria vergonha moral com algo elaborado
por suas próprias mãos. Aqui, somos ensinados
a respeito da graciosa provisão que Deus tem feito para
atender nossa grande necessidade. Aqui, começa aquela
maravilhosa sucessão de profecias que fluem por toda
a Sagrada Escritura. Aqui, descobrimos que o homem não
pode se aproximar de Deus, exceto por um mediador. Agora, daremos
atenção a alguns desses assuntos profundamente
importantes.
 
  I – A QUEDA
 
  O registro Divino da Queda do homem é uma refutação
evidente da hipótese Darwiniana da evolução.
Ao invés de ensinar que o homem começou na base
de uma escada moral e está agora, vagarosamente, mas,
com certeza, subindo em direção aos céus,
o registro Divino declara que o homem começou no topo
e caiu para a base. Além disso, rejeita enfaticamente
a teoria moderna sobre Hereditariedade e Meio Ambiente. Durante
os últimos 50 anos, filósofos socialistas tem
ensinado que todas as doenças das quais o homem é
herdeiro, são unicamente atribuíveis à
hereditariedade e ao meio ambiente. Este conceito é uma
tentativa de negar que o homem é uma criatura caída
e de coração desesperadamente pecaminoso. Dizem
que, se os legisladores tornarem possível um meio ambiente
perfeito, o homem será, então, capaz de realizar
seus ideais e a hereditariedade será purificada. Mas,
o homem já tem sido posto à prova sob as condições
mais favoráveis e não correspondeu às expectativas.
Sem hereditariedade pecaminosa, nossos primeiros pais foram
colocados no mais belo ambiente imaginável, um ambiente
que o Próprio Deus declarou “muito bom”.
Somente uma única restrição foi colocada
sobre a sua liberdade, mas eles falharam e caíram. O
problema com o homem não é exterior, mas interior.
O que ele precisa não é de um novo lugar, mas
de um novo nascimento.
Uma única restrição foi colocada sobre
a liberdade do homem que advém da necessidade e natureza
da circunstância. O homem é um ser responsável,
responsável para servir, obedecer e glorificar seu Criador.
O homem não é uma criatura independente, pois
ele não se criou. Tendo sido criado por Deus, ele tem
um débito para com seu Criador. Repetindo, o homem é
uma criatura responsável, e, como tal, sujeito ao governo
Divino. Este é o grande fato que Deus imprimiria sobre
nós desde o começo da história humana.
“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal,
não comerás”. (Gn 2:17). Não havia
nenhuma outra razão pela qual o fruto desta árvore
não devesse ser comido, salvo a evidente ordem de Deus.
E, assim, como temos procurado mostrar, esta ordem não
foi dada arbitrariamente, no real sentido da palavra, mas enfatizou
o relacionamento no qual o homem permanecesse em Deus. Como
uma criatura inteligente, responsável, o homem está
sujeito à ordem Divina. Mas a criatura se tornou egoísta,
egocêntrica, teimosa, e como resultado, desobedeceu, pecou,
caiu.
    O registro da Queda merece o mais completo estudo.
Canetas mais competentes do que a nossa, tem chamado atenção
para os diferentes passos que levam a ações manifestas.
Primeiro, a voz do tentador foi acatada (atendida). Ao invés
de dizer, “Afasta-te de mim, Satanás”, Eva
ouviu silenciosamente ao Maligno, desafiando a palavra de Jeová.
Não somente isto, mas ela prossegue a negociar com ele.
Em seguida, há uma adulteração da palavra
de Deus. Eva começa a acrescentar o que Deus disse –
sempre um caminho inevitável a perseguir. “Dele
não comereis, nem tocareis nele” (v3). Esta última
oração foi adição de Eva, e Prov
30:6 recebeu seu primeiro exemplo, “Nada acrescentes às
suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado
mentiroso”. Em seguida, ela continua a alterar a Palavra
de Deus, “para que não morrais” (v3). A ponta
afiada da Espada do Espírito estava cega. Finalmente,
ela omite completamente o solene prenúncio de Deus, “certamente
morrerás”. Quão verdadeira é a frase
“E a história se repete”. Os inimigos de
Deus hoje, estão trilhando o mesmo caminho: Sua Palavra
ou é acrescida, alterada, ou categoricamente negada.
Tendo renunciado a única fonte de luz, o ato da transgressão
se tornou a conseqüência natural. O fruto proibido
é, agora, considerado desejado, apanhado, comido e, dado
ao seu esposo. Esta é a ordem lógica. Assim é,
em resumo, a explicação Divina da entrada do pecado
no nosso mundo. O homem resistiu à vontade de Deus, rejeitou
a Palavra de Deus, e abandonou o caminho de Deus.
    O registro Divino da Queda é a única
explicação possível da atual condição
da raça humana. Só ele já explica a presença
do mal num mundo feito por um Criador beneficente e perfeito.
Fornece a única explicação adequada para
a universalidade do pecado. Por que é que o filho do
Rei, no palácio, e a filha de um regenerado, num casebre,
apesar de toda proteção que o amor e atenção
do homem possam imaginar, manifestam, desde a infância,
uma inconfundível inclinação ao mal e tendência
para pecar? Por que é que o pecado é universal,
e não há império, nem nação,
nem família livre desta terrível doença?
Rejeite a explicação Divina e nenhuma resposta
satisfatória é possível para estas perguntas.
Aceite e, vemos que o pecado é universal porque todos
compartilham de uma linhagem comum, todos nascem de um mesmo
tronco, “Em Adão todos morrem”. Somente o
registro Divino da Queda explica o mistério da morte.
O homem possui uma alma imortal, por que, então, ele
deveria morrer? Ele (Deus) tinha soprado no homem o Sopro do
Eterno, então, por que o homem não deveria viver
neste mundo para sempre? Rejeite a explicação
Divina e nos deparamos com um enigma insolúvel. Aceite,
receba o fato de que, “Portanto, assim como por um só
homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim
também a morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram” (Rom 5:12), e temos uma explicação
que vai ao encontro de todos fatos do caso.
 
  II - SATANÁS E A
QUEDA
 
  Aqui, pela primeira vez na Escritura, nós nos deparamos
com aquele personagem misterioso – o Diabo. Ele é
apresentado sem qualquer explicação em relação
à sua história precedente. Para nosso conhecimento
de sua criação, sua existência pré-adâmica,
a posição superior que ele ocupava, e sua terrível
queda, dependem de outras passagens, notadamente Is 14:12-15,
e Ez 28:12-19. No capítulo anterior, lições
importantes foram ensinadas a respeito ao nosso grande Adversário.
Aprendemos qual é a esfera de suas atividades, o método
de aproximação e qual a forma de suas tentações.
E aqui, também, tomamos conhecimento da certeza de sua
irrevogável derrota e destruição.
    Contrário à concepção
popular, que faz Satanás o autor de todos os pecados
da carne, e que atribui a ele algo que nosso Senhor claramente
declarou como assuntos provenientes do coração
humano, nós somos aqui informados, que a esfera de sua
atuação é o “reino religioso ou espiritual”.
Seu objetivo principal é ficar entre a alma e Deus, afastar
o coração do homem do seu Criador e inspirar confiança
em si mesmo. Ele procura usurpar o lugar do Santíssimo,
para fazer de Suas criaturas seus voluntários e filhos.
Seu trabalho consiste em colocar suas mentiras no lugar da Divina
verdade. Gênesis 3 nos dá uma amostra de suas atuações
e do método que ele emprega. Estas coisas são
escritas para nosso aprendizado, pois suas atividades, e o reino
no qual ele trabalha, são o mesmo hoje do que o que eram
no Jardim do Éden.
    O método de aproximação de
Satanás era o mesmo do que é agora. ”Na
verdade, disse Deus?” Ele começa lançando
dúvida sobre Palavra Divina! Ele questiona sua veracidade.
Ele sugere que Deus não queria dizer o que Ele tinha
dito. E assim é hoje. Cada esforço que está
sendo feita para negar a inspiração Divina das
Escrituras, cada tentativa apresentada para desconsiderar a
sua autoridade absoluta, cada ataque à Bíblia
que nós, agora testemunhamos em nome da erudição,
é somente uma repetição desta antiga questão,
“Na verdade, disse Deus?” Em seguida, ele substitui
a Palavra de Deus pela sua própria palavra, “É
certo que não morrereis” (vs4). Vemos o mesmo princípio
ilustrado nas duas primeiras parábolas em Mateus 13.
O Senhor Jesus vai semeando a semente que é a Palavra
de Deus, então o Maligno imediatamente segue e semeia
o joio. E o que é lamentável é que enquanto
os homens se recusam a acreditar na Palavra do Deus vivo, não
obstante eles são suficientemente crédulos para
aceitar as mentiras de Satanás. Assim era no começo,
e assim tem sido sempre. Finalmente, ele ousa repercutir desfavoravelmente
a bondade de Deus, e por em dúvida Suas perfeições.
“Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos
abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do
bem e do mal” (v5). Em outras palavras, o Diabo, aqui,
sugere que Deus estava despoticamente retendo do homem alguma
coisa que seria vantajoso para ele, e, como isca, apresenta
a promessa de que, se Eva crer apenas na sua mentira e não
na Palavra de Deus ela será vencedora, e obterá
o conhecimento e sabedoria negada a ela anteriormente. O mesmo
atrativo está sendo exposto por ele diante dos olhos
dos devotos do Espiritismo e da Teosofia, mas não vamos
adentrar este assunto agora.
    Deve-se observar que na tentação, um triplo apelo
foi feito à Eva, correspondente à natureza tripartida
da constituição humana. “Vendo a mulher
que a árvore era boa para se comer” (v6) - apelando
para os sentidos do corpo; “agradável aos olhos”
– apelando para a natureza dos desejos, as emoções,
que tem seus lugares na alma; “e árvore desejável
para dar entendimento”—apelando à inteligência,
que está centrada no espírito (cf. I Co 2:11).
Assim, tomamos conhecimento aqui de um fato profundamente importante,
isto é, que Satanás trabalha do exterior para
o interior, o que é justamente o contrário da
ação Divina. Deus começa Seu trabalho no
coração do homem, e a mudança causada no
coração reage e transforma a vida exterior. Mas
Satanás começa com o exterior e, através
dos sentidos do corpo e emoções da alma, trabalha
posteriormente o espírito e a razão para tal é
que normalmente ele não tem acesso direto ao espírito
do homem como Deus tem. Esta mesma linha seguiu-se em alusão
ao nosso abençoado Senhor. “Manda que estas pedras
se transformem em pão” (Mt 4:3) – apelando
aos sentidos do corpo; “Atira-te abaixo”, um desafio
à Sua coragem ou um apelo à natureza emocional
da alma. “ ...prostrado me adorares” – um
apelo ao espírito, porque nós adoramos o Pai “em
espírito e em verdade”.
 
  III – A QUEDA E O
HOMEM
    O
primeiro efeito da Queda sobre Adão e Eva foi à
compreensão de sua vergonha. “Abriram-se, então,
os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus...”.
Pelo pecado, o homem obteve aquilo que não teve antes
(ao menos em operação), isto é, a consciência
– um conhecimento de ambos, do bem e do mal. Isto era
algo que o homem não caído não possuía,
pois o homem foi criado num estado de inocência e, inocência
é ignorância do mal. Mas tão logo o homem
participou do fruto proibido, tornou-se consciente do seu pecado,
e seus olhos foram abertos para ver sua condição
de caído. E consciência, e instinto moral é
algo que é agora, comum à natureza humana, isto
é, inerente ao homem, o que testifica sua condição
caída e pecadora! Mas não somente a consciência
testemunha a perversão do homem, como é também
uma das marcas da obra de um Criador pessoal. A consciência
não pode ser realização do homem. Ele não
teria estabelecido voluntariamente um acusador, um juiz, um
perseguidor, de próprio peito. De onde, então
isto procede? Não é mais o resultado da educação,
mas também é razão ou memória, embora
possa ser cultivada como ambas(?). Consciência é
a calma, serena voz de Deus na alma, testemunhando o fato de
que o homem não é seu próprio mestre, mas
responsável por uma lei moral que ou aprova ou reprova.
    Ao se conscientizarem de sua vergonha, Adão e Eva imediatamente
se esforçaram em esconder sua nudez, cosendo aventais
de folhas de figo. Este ato foi muito significativo. Ao invés
de procurar por Deus e abertamente confessar sua culpa, eles
tentaram se esconder de Deus e deles mesmos. Assim tem sido
sempre o caminho do homem natural. A última coisa que
ele irá fazer é confessar diante de Deus sua condição
perdida e arruinada. Consciente de que algo está errado,
ele procura se abrigar atrás de sua justiça própria
e confia que sua boa obra vai compensar as más. Ir à
igreja, práticas religiosas, atenção às
leis, filantropia e altruísmo são as folhas de
figueira que muitos, hoje, estão tecendo em aventais
para cobrir sua vergonha espiritual. Mas, como aqueles que nossos
primeiros pais costuraram juntos, eles não suportarão
o teste da eternidade. Quando muito, eles não são
mais do que coisas do tempo que rapidamente se desintegrarão
no pó.
    Uma passagem no Evangelho ilustra a que estamos considerando
agora – nos referimos a uma outra figueira, aquela que
nosso Senhor não achou fruto. Que surpreendente a lição
que nos é ensinada pela comparação dessas
duas Escrituras! Por que nos contaram que Adão e Eva
coseram folhas de figueira juntas? E por que somos informados
de que era uma figueira que nosso Senhor amaldiçoou?
Não foi para que nós as associássemos?
A figueira foi a única coisa que nosso Senhor amaldiçoou
enquanto Ele estava aqui na terra, e não pretendemos
tomar conhecimento daquela Sua ação, e que aquela
que o homem se utiliza para esconder sua vergonha espiritual
está diretamente sob a maldição de Cristo,
não tem frutos e está condenada a secar rapidamente!
    Mas estes aventais feitos por Adão e Eva não removeram
seu senso de vergonha, pois quando ouviram a voz do Senhor Deus,
“se esconderam” Dele. A consciência do homem
então, não o trouxe para Deus – para isto,
deve haver a obra do Espírito Santo – antes ela
o apavorou e o distanciou de Deus. Nossos primeiros pais procuraram
se esconder. Novamente percebemos quão característica
e representativas foram suas ações. Pelo menos,
tinham uma vaga concepção da distância moral
que havia entre eles e o Criador. Ele era Santo, eles pecadores,
consequentemente tinham medo Dele e procuravam fugir de Sua
presença. Assim é com o não regenerado
hoje. Apesar de toda sua vanglória, práticas religiosas,
revestimentos auto-fabricados (justiça própria?),
os homens são apreensivos e medrosos. Por que é
que a Bíblia é tão desprezada? É
porque aproxima mais o homem de Deus do que qualquer outro livro,
e os homens ficam inquietos na presença de Deus e querem
se esconder Dele. Por que é que o sacerdócio público
da Palavra é tão pouco assistido? As pessoas vão
apresentar muitas desculpas, mas o verdadeiro motivo é
porque estes serviços trazem Deus para perto deles e
isto os torna desconfortáveis no seu pecado, então
procuram fugir Dele. Quão evidente fica, então,
de que todos compartilhamos do primeiro pecado e morremos em
Adão. A posição na qual o primeiro homem
ficou foi federal; e por ter agido numa postura representativa
é visto pelo fato de que todos seus filhos compartilham
sua natureza e perpetuam sua transgressão.
    Quando Deus procurou Adão e o trouxe face a face com
sua culpa, foi-lhe dado justa e total oportunidade de confessar
seu pecado. “Comeste da árvore de que te ordenei
que não comêsseis?” E qual foi a resposta?
Como Adão valeu-se desta oportunidade? No lugar de uma
confissão consternada do seu pecado, ele se desculpou
– “E disse o homem: a mulher que me deste por esposa,
ela me deu da árvore, e eu comi”. E foi o mesmo
com Eva: “Disse o Senhor Deus à mulher: Que é
isso que fizeste? E a mulher respondeu: A serpente me enganou,
e eu comi”. Foi então, feita uma tentativa de atenuar
o pecado passando a responsabilidade sobre outros. Que verdade
maravilhosa para o século 20! Que provas honestas são
estas da inspiração Divina! Mas a própria
desculpa que o homem dá é a base de sua condenação.
Temos uma outra ilustração deste princípio
na parábola das bodas de casamento. “Comprei um
campo e” “preciso” ir vê-lo; rogo-te
que me tenhas por escusado”. (Lc 14:18) Onde estava o
“preciso”? Justamente isto, que ele preferiu sua
própria gratificação a aceitar o convite
de Deus. Assim foi com Adão – “a mulher que
tu me deste” – a desculpa que ele fornece é
exatamente a base para sua condenação. “Visto
que atendeste a voz de tua mulher e comestes da árvore
que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra
por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante
os dias de tua vida”. Todos esses subterfúgios
foram inúteis, e o homem ficou face a face com o Santo
Deus e estava convicto de sua culpa e vergonha indizível.
Assim será no grande trono branco.
    Achamos, então, que os efeitos da Queda (até onde
nós os consideramos) sobre o homem foram quadruplicados:
a descoberta de que algo estava errado com ele mesmo; o esforço
para esconder sua vergonha pelos próprios meios; medo
de Deus e uma tentativa de se esconder de Sua presença;
e ao invés de confessar seu pecado, procura desculpá-lo.
Os mesmos efeitos são observados hoje pelo mundo.
 
  IV – A QUEDA E DEUS
    “E
chamou o Senhor Deus a Adão e lhe disse: Onde estás?”
É, sem duvida, bonito esse registro da graça Divina.
Esta não era a voz de um policial, mas o chamado de um
amor compassivo. Negro como se apresenta este cenário,
serve apenas para revelar, mais claramente, as riquezas da Graça
de Deus. Nossos primeiros pais foram altamente estimados, abençoados
com tudo o que o coração poderia desejar e tiveram
apenas uma única restrição colocada sobre
a sua liberdade para testar sua lealdade e fidelidade ao Criador
– como foi temível a queda, e quão terrível
o pecado! E se Deus os tivesse entregue “aos eternos agrilhões
sob as trevas” como Ele fez aos anjos quando pecaram?
E se a sua ira os tivesse consumido instantaneamente? Não
teria sido muito rigor? Teria sido simplesmente mera justiça.
Era tudo o que eles mereciam. Mas, não. Na Sua infinita
condescendência e abundante graça, Deus dignou-se
a ser aquele que busca, e desceu ao Éden bradando, “Onde
estás”?
    W. Griffith Thomas resumiu convincentemente o sentido desta
pergunta com as seguintes palavras: “A pergunta de Deus
a Adão ainda soa no ouvido de cada pecador: “Onde
estás?” É o chamado da justiça Divina,
a qual não pode fechar os olhos ao pecado. É o
chamado do pesar Divino, que aflige o pecador. É o chamado
do amor de Deus que oferece redenção do pecado.
Para cada um de nós o chamado é reiterado, “Onde
estás”?
Tudo o que está registrado em Gênesis 3 tem muito
mais do que um sentido restrito. A atitude e ação
de Deus no Éden foram típicas e características.
Não foi Adão quem procurou Deus, mas Deus quem
buscou Adão. E esta tem sido a ordem desde aquele dia.
“Não há quem busque a Deus” (Rom 3:11).
Foi Deus quem buscou e chamou Abraão enquanto ele ainda
era idólatra. Foi Deus quem buscou Jacó em Betel
quando ele estava fugindo das conseqüências dos seus
erros. Foi Deus quem buscou Moisés enquanto era fugitivo
em Midiã. Foi Cristo quem buscou os apóstolos
enquanto eles estavam envolvidos com a pesca, para que Ele pudesse
dizer, “Vocês não me escolheram, mas Eu os
escolhi”. Foi Cristo que, no seu amor inefável,
veio para buscar e salvar aquele que estava perdido. É
o pastor que procura a ovelha, e não a ovelha que procura
o pastor. Quão verdadeiro é “Nós
O amamos porque Ele nos amou primeiro”. Que possamos apreciar
mais profundamente a maravilhosa condescendência da Divindade
dobrando-nos tão humildemente como se nos interessássemos
e buscássemos os vermes mais inferiores do pó.
    “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência
e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça,
e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gen 3:15). Novamente
aqui, contemplamos a abundante riqueza da Graça de Deus.
Antes de julgar, Ele manifestou Sua graça; antes de expulsar
os culpados do Éden, ele deu a eles uma bendita promessa
e esperança. Embora Satanás tivesse levado a cabo
a queda do homem, anuncia-se que Alguém viria e feriria
sua cabeça. O pecado veio pela mulher, então por
ela deveria vir o Salvador. Por ela veio a maldição,
então por ela viria Aquele que suportaria e removeria
a maldição. O paraíso foi perdido por causa
da mulher, no entanto, deveria nascer dela Aquele que o resgataria.
Oh, que graça – o Senhor da Glória era para
ser a Semente da mulher!
    Temos aqui o começo e a semente de toda a profecia. Seria
fora de nossa alçada, agora, tentar qualquer coisa que
não um simples resumo do conteúdo deste maravilhoso
versículo. Mas, três coisas devem ser cuidadosamente
observadas. Primeiro, diz-se que deve haver inimizade entre
Satanás e a mulher. Esta parte do versículo é
constantemente desconsiderada por comentaristas. No entanto,
é de profunda importância. A “mulher”
aqui, tipifica Israel – a mulher cuja Semente prometida
veio – a mulher de Apocalipse 12. Os filhos de Israel,
sendo o canal designado através do qual o Messias estava
para vir, tornaram-se objetos da continuada inimizade e ataque
de Satanás. Todos os estudiosos das Escrituras sabem
perfeitamente de que maneira maravilhosa esta profecia já
se cumpriu. As “fomes” (tribulações)
mencionadas em Gênesis, foram os primeiros esforços
do inimigo para destruir os pais da raça escolhida. O
decreto do Faraó para matar todos os primogênitos;
o ataque Egípcio ao Mar Vermelho; o ataque aos cananeus
em terra; o plano de Haman, todos são exemplos desta
inimizade entre Satanás e a “mulher”, enquanto
a contínua perseguição dos Judeus pelos
gentios e a futura oposição da Besta testemunham
a mesma verdade.
    Segundo, aqui são referidas duas “sementes”—
um outro item que geralmente é despercebido – “tua
semente” e “sua semente” – a semente
de Satanás e a semente da mulher – o Anticristo
e Cristo. Todas as profecias convergem para estas duas pessoas.
Na primeira destas expressões, “tua semente”
(semente de Satanás), temos mais do que uma alusão
à natureza sobrenatural e satânica do Anticristo
e seu caráter. Desde o começo, o Diabo tem sido
um imitador, e o clímax não será atingido
até que ele, ousadamente, imite a união hipostática
das duas naturezas de nosso abençoado Senhor –
Sua natureza humana e sua natureza Divina. O Anticristo será
o Homem do Pecado e o Filho da Perdição, literalmente,
a “semente” da serpente, -- assim como o Senhor
é o Filho do Homem e o Filho de Deus em uma só
pessoa. Esta é a única conclusão lógica.
Se a “sua semente” termina em uma única personalidade
– o Cristo – então, através de cada
princípio de interpretação do som (1),
“tua semente” deverá culminar em uma única
pessoa – o Anticristo.
    “Sua semente”, a semente da mulher. Temos aqui o
primeiro relato que se refere ao nascimento sobrenatural de
nosso Salvador. Foi profetizado que Ele deveria entrar neste
mundo de uma maneira sem igual. “Sua semente” –
a semente da mulher, não do homem! Do cumprimento exato
desta profecia, tomamos conhecimento dos dois registros inspirados
que nos é dado no Novo Testamento sobre a maravilhosa
concepção. Uma “virgem” conceberia
uma criança e 4 mil anos depois desta predição
inicial, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher”
(Gl. 4:4) .
    No terceiro item desta profecia maravilhosa, faz-se referência
a uma dupla “pisadura” –a Semente da mulher
ferirá a cabeça da Serpente, e a Serpente ferirá
o seu calcanhar. A última cláusula desta profecia
já se tornou história. O ferimento no calcanhar
da Serpente pela semente da mulher é uma referência
simbólica ao sofrimento e morte de nosso Salvador, que
foi “ferido pelas nossas transgressões e iniqüidades”.
Mas, a primeira destas cláusulas aguarda ser cumprida.
A pisadura da cabeça da Serpente acontecerá quando
o Senhor retornar à terra em pessoa e em poder, e quando
“o dragão, aquela velha serpente, que é
o Diabo e Satanás deverão ser amarrados (presos)
por mil anos (o Milênio) e atirados no mais profundo do
abismo. (Ap. 20:2,3) Novamente dizemos, que importante prova
este versículo nos fornece da Divina Inspiração
das Escrituras! Quem, senão Ele, que conhecia o final
desde o começo, poderia dar um perfil exato da história
subseqüente, e acondicioná-la nos limites deste
versículo!
    “Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão
e sua mulher e os vestiu” (Gn 3:21). Para explicar e expor
adequadamente este versículo, muitas páginas deveriam
ser escritas, mas, necessariamente, devemos nos contentar com
poucas linhas. Este versículo nos dá um quadro
típico da salvação de um pecador. Foi o
primeiro sermão do Evangelho pregado pelo próprio
Deus, não em palavras, mas em símbolo e ação.
Foi uma expressão em palavras do modo pelo qual uma criatura
pecadora pudesse retornar e se aproximar de seu Divino Criador.
Foi a declaração inicial do fato principal que
diz: “sem derramamento de sangue não há
remissão”. Foi uma ilustração abençoada
de substituição – a morte do inocente no
lugar do culpado.
    Antes da Queda, Deus tinha definido o salário do pecado:
“No dia em que dela comeres, certamente morrerás”
(Gn 2:17). Deus é justo, e como Juiz de toda terra Ele
deve fazer justiça. Sua lei tinha sido quebrada e a justiça
exigiu a execução de sua penalidade. Mas a justiça
deveria sobrepor-se à graça de Deus? Não
há nenhum meio pelo qual a graça possa reinar
sobre a justiça? Deus seja louvado que há, e houve.
A graça quis poupar o ofensor e, porque a justiça
requer morte, alguém deveria ser morto em seu lugar.
O Senhor Deus vestiu Adão e Eva com peles e, para obter
estas peles, animais devem ter sido mortos, a vida deve ter
sido tirada, o sangue deve ter sido derramado!
    E foi neste sentido que a vestimenta foi fornecida para o caído
e arruinado pecador. A aplicação do tipo é
óbvia. A morte do Filho de Deus foi prefigurada. Porque
o Senhor Jesus deu sua vida pelas ovelhas, Deus pode ser, agora,
o justo e o justificador daquele que crê em Jesus.
    Que belo e perfeito é o tipo! Foi o Senhor Deus quem
proveu as peles, coseu-as e vestiu nossos primeiros pais. Eles
não fizeram nada. Deus fez tudo. Eles estavam inteiramente
passivos. A mesma verdade abençoada é ilustrada
na parábola do filho pródigo. Quando o peregrino
tomou o lugar de uma criatura perdida e desgraçada e
assumiu seu pecado, a graça do coração
do pai foi revelada. “o pai, porém, disse aos seus
servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o” (Lc 15:22).
O filho pródigo não teve que providenciar sua
roupa, nem mesmo vestiu-se, tudo foi feito pelo pai. E assim
é com cada pecador. “Porque pela graça sois
salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós;
é Dom de Deus” (Ef 2:8). Bem podemos louvar, “Regozijar-me-ei
muito no Senhor, a minha alma se alegra no meu Deus; porque
me cobriu de vestes de salvação e me envolveu
com o manto de justiça” (Is 61:10).
    E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do
Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para
guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3:24).
Este foi o auge da condenação Divina do primeiro
pecado. Depois que a sentença do julgamento tinha passado
primeiro sobre a serpente, depois sobre a mulher e, finalmente,
sobre o homem, e depois que Deus graciosamente deu a eles a
preciosa promessa de sustentar seus corações e
fornecer uma vestimenta para cobrir sua vergonha, Adão
e Eva foram colocados para fora do Paraíso. O significado
moral aí é evidente. Era impossível para
eles permanecerem no jardim e continuar se relacionando com
o Senhor. Ele é santo, e aquele que está maculado
não pode entrar na Sua presença. O pecado sempre
resulta em separação. “Mas as vossas iniqüidades
fazem separação entre vós e o vosso Deus;
e os vossos pecados encobrem o Seu rosto de vós”
(Is 59:2).
    Aqui vemos o cumprimento da ameaça de Deus. Ele anunciou,
“no dia em que comeres, certamente morrerás”.
Morrer, não apenas fisicamente – há algo
infinitamente pior do que isto – mas morrer espiritualmente.
Assim como a morte física é a separação
da alma do corpo, a morte espiritual é a separação
da alma de Deus. – “Este meu filho foi morto (separado
de mim) e vive novamente – restaurado para mim”.
Quando se diz que pela natureza somos “mortos em delitos
e pecados”, é porque os homens estão “alienados
da vida de Deus pela ignorância que há neles, por
causa da cegueira de seus corações” (Ef
4:18). De maneira semelhante, aquela morte judicial que aguarda
todo o que morre em seus pecados – a “Segunda Morte”
— não é aniquilação como muitos
estão falsamente ensinando (1), mas separação
eterna de Deus e eterno castigo no lago de fogo. Assim, aqui
em Gn 3 temos a própria definição de Deus
sobre a morte – separação Dele, evidenciada
pela expulsão do homem do Éden.
    O impedimento do caminho para a árvore da vida ilustrou
uma importante verdade espiritual. De algum modo peculiar, esta
árvore parece ter sido um símbolo da Divina presença
(Pv 3:18), e o fato de que o homem caído não tivesse
direito ao acesso a ela, enfatizou a distância moral em
que ele permaneceu de Deus. O pecador, como tal, não
teve acesso a Deus, porque a espada da justiça impediu
seu caminho, assim como o véu no Tabernáculo e
no Templo impedia a entrada do homem da Divina presença.
Mas, louvado seja Deus, que Alguém nos abriu um “novo
e vivo” caminho a Deus, sim, aquele que é Ele mesmo
o Caminho (João 14:6). E como isso se cumpriu? A justiça
retirou sua espada! Ou melhor, embainhou-a na lateral do nosso
adorado Salvador. Sem dúvida, aquela solene, mas preciosa
palavra em Zacarias 13:7: “Desperta, ó espada contra
o meu Pastor”, relembra Gênesis 3:24. E porque o
Pastor foi derrotado por completo, as ovelhas são poupadas,
e no Paraíso de Deus comeremos da fruta da árvore
que Adão foi impedido de comer (Ap 2:7).
    Sintetizando, então, esta importante divisão de
nosso assunto – Deus e a Queda – descobrimos: uma
exposição de Sua condescendência em procurar
o homem; uma evidência de Sua graça ao dar uma
profecia abençoada e a promessa de sustentar e animar
(alegrar) o coração do homem; uma demonstração
de Sua graça ao providenciar uma vestimenta para a vergonha
do homem; uma manifestação de Sua santidade em
punir o pecado do homem; e uma prefiguração típica
da urgente necessidade de um Mediador entre Deus e o homem.
NOTA:
(1) Em Apocalipse 20, depois que os não redimidos são
ressuscitados, eles ainda são denominados “mortos”
— para sempre, mortos para Deus mesmo enquanto vivem.
CONCLUSÃO
    A filosofia de vida, como interpretada pela escola
Darviniana, afirma que o pecado é meramente uma imperfeição
e limitação presentes que desaparecerão
gradualmente à medida que a raça humana sobe a
colina da vida. As hipóteses evolucionistas, contudo,
não somente negam o ensinamento de Gênesis 1, como
também repudiam os fatos registrados em Gênesis
3. E aqui está o principal ponto e propósito do
ataque de Satanás. Os argumentos enganosos de nossos
teólogos modernos não somente tem tentado minar
a autenticidade dos relatos da Criação, como tem
tido sucesso em cegar o ponto de atração do Evangelho.
    Ao negar a Queda, a necessidade imperativa do Novo
Nascimento foi cancelada. Pois, se o homem começou na
base da escada moral – como os evolucionistas nos fazem
crer – e está, agora, vagarosa mas, certamente,
subindo em direção ao céu, então
tudo o que ele precisa é educação e desenvolvimento
(cultura). Por outro lado, se o homem começou no topo
da escada, mas pelo pecado caiu até a base – como
a Bíblia declara – então ele está
em necessidade urgente de regeneração e justificação.
Assim, o assunto levantado é vital e fundamental.
Continua
...